Saúde pressionada, renda abaixo da média e desafios na educação e segurança; veja o Tocantins que o próximo governador encontrará

Quem assumir o Governo do Tocantins em 2027 encontrará um estado com problemas que atravessam áreas essenciais. Concentração dos serviços de saúde na capital, deficiência no saneamento, falta de segurança pública, renda abaixo da média brasileira e desafios na educação estão entre as questões que deverão chegar à mesa do próximo governador.

A disputa pelo Palácio Araguaia chegou ao segundo turno entre Professora Dorinha (UNIÃO) e Vicentinho Júnior (PSDB). Os dois apresentam propostas que dialogam com parte desses problemas.

Saúde concentra alguns dos principais desafios

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O Hospital Geral de Palmas reúne exemplos de diferentes restrições enfrentadas pela saúde pública. Por atender pacientes de diversas regiões do Tocantins, a unidade concentra demandas que vão desde atendimentos especializados até tratamentos de alta complexidade.

Em janeiro de 2026, 5.109 pacientes aguardavam atendimento em neurologia pediátrica. A fila da gastroenterologia pediátrica chegava a 248 pessoas e a da nefrologia pediátrica, a 62. 

Os problemas registrados ao longo do ano foram além das filas. Em junho, documentos obtidos pelo Jornal Primeira Página apontaram dificuldades na assistência oncológica, com saída de profissionais especializados, falta de medicamentos, aumento da espera por consultas e crescimento das internações e óbitos. Os relatórios foram encaminhados ao Ministério Público do Tocantins (MPTO) durante o acompanhamento da transferência dos serviços de oncologia para o Hospital de Amor. 

Em abril, o superaquecimento de um componente da estrutura elétrica afetou o setor de oncologia e levou o MPTO a discutir a necessidade de ampliação da estrutura elétrica. Em julho, a Justiça ainda cobrava do Estado documentos que comprovassem a chegada e a disponibilidade de medicamentos oncológicos aos pacientes. 

Já em setembro, um dos elevadores do HGP ficou fora de funcionamento, e relatos apontaram que pacientes precisaram utilizar escadas para se deslocar pela unidade. 

Parte dessa pressão está relacionada à dependência da capital para atendimentos de maior complexidade. Para moradores de municípios do interior, conseguir determinados tratamentos ainda exige deslocamentos até Palmas, muitas vezes por longas distâncias. 

Educação avança nos anos iniciais, mas enfrenta dificuldades nas etapas seguintes

Entre 2023 e 2025, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dos anos iniciais no Tocantins passou de 5,4 em 2023, para 5,8, em 2025. O desempenho foi diferente nos anos finais do ensino fundamental, quando o índice caiu de 4,8 para 4,7. No mesmo período, a média da rede pública brasileira avançou de 4,7 para 5,0. Ou seja, enquanto o estado estava acima do resultado nacional em 2023, passou a ficar abaixo dele em 2025.

No ensino médio, o cenário é de estabilidade. O Ideb da rede pública tocantinense permaneceu em 4,1 entre 2023 e 2025. Nesse intervalo, a média nacional avançou de 4,1 para 4,3. Isso significa que Tocantins e Brasil partiram do mesmo resultado em 2023, mas o estado não acompanhou a melhora registrada nacionalmente dois anos depois.

Segurança Pública

O Tocantins se tornou um dos territórios de disputa entre facções criminosas no país, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2025. O cenário envolve a presença de organizações de alcance nacional, como o Comando Vermelho (CV), originário do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), fundado em São Paulo.

O levantamento também aponta a atuação de grupos regionais, como os Amigos do Estado (ADE), com origem em Goiânia, e o Bonde do Cangaço, da Bahia. Palmas e Araguaína aparecem entre os municípios estratégicos nesse cenário, com disputas envolvendo CV e PCC pelo controle territorial e de rotas utilizadas pelo tráfico.

Além disso, os dados mais recentes sobre violência letal mostram uma redução dos homicídios no estado. Segundo o Atlas da Violência 2026, o Tocantins registrou 309 homicídios em 2024, contra 419 no ano anterior. A taxa caiu de 27 para 19,8 mortes por 100 mil habitantes, uma redução de 26,7% em um ano.   

A queda, no entanto, não ocorreu de forma a eliminar as desigualdades na vitimização. Em 2024, a taxa de homicídios entre a população negra foi 94,6% maior, quase o dobro, que a registrada entre não negros. Foram 21,8 mortes por 100 mil habitantes negros, ante 11,2 por 100 mil entre não negros.

Além dos indicadores de violência letal, os registros da Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO) mostram a ocorrência de crimes contra o patrimônio. Em 2025, foram contabilizados 13.540 casos de estelionato e 12.934 furtos no estado.

Feminicídio

Em 2025, o Tocantins registrou aumento de 52,8% nos feminicídios e passou a ocupar a quarta maior taxa do país. O crescimento da violência contra a mulher também aparece na procura por assistência. Dados da Corregedoria-Geral da Defensoria Pública do Tocantins mostram que os atendimentos voltados à proteção das mulheres passaram de 855, em 2020, para 2.092, em 2025, alta acumulada de 144,7%. Ao todo, 8.556 mulheres foram assistidas no período. A demanda cresceu ano após ano, com 1.026 atendimentos em 2021, 1.337 em 2022, 1.480 em 2023, 1.766 em 2024 e o maior número da série em 2025.

Em meio ao aumento da demanda por proteção, a Casa da Mulher Brasileira de Palmas foi inaugurada em março de 2025, após investimento de R$ 5,6 milhões do Governo Federal. A unidade foi criada para concentrar diferentes serviços de atendimento às vítimas, como acolhimento psicossocial, orientação jurídica, registro de ocorrências, solicitação de medidas protetivas e abrigo temporário para mulheres e seus filhos.

Apesar da proposta de atendimento integrado, denúncias recebidas pelo Jornal Primeira Página apontam dificuldades no funcionamento da unidade, que envolvem desde o acesso aos serviços até questões de segurança, estrutura física e disponibilidade de profissionais. Os relatos contrastam com as diretrizes nacionais do programa, que estabelecem atendimento humanizado, acolhimento qualificado e integração entre os serviços da rede de proteção.

Entre as principais reclamações está a forma como parte dos atendimentos seria conduzida. Segundo os relatos recebidos pelo Jornal Primeira Página, algumas mulheres afirmam deixar a unidade sem se sentirem devidamente acolhidas, mesmo procurando o serviço em situações de vulnerabilidade emocional.

Mais de dois terços não têm acesso à coleta de esgoto

Outro problema estrutural está no saneamento básico.

Dados referentes a 2024 mostram que 1,02 milhão de moradores do Tocantins não têm acesso à coleta de esgoto, o equivalente a 67,3% da população.

A deficiência também alcança o abastecimento de água. Cerca de 239 mil tocantinenses, ou 15,8% da população, não têm acesso à água, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) reunidos pelo Painel Saneamento Brasil. 

Renda fica R$ 280 abaixo da média brasileira

Na economia, o Tocantins chega à próxima gestão com uma renda domiciliar inferior à média nacional.

Em 2025, o rendimento domiciliar nominal mensal per capita foi de R$ 2.036 no Tocantins, ante R$ 2.316 no Brasil. A diferença de R$ 280 representa um rendimento aproximadamente 12,1% menor no estado. 

O mercado formal também apresentou oscilações em 2026. Em maio, o estado fechou 743 vagas de emprego com carteira assinada a mais do que abriu. Em junho, houve outro saldo negativo, desta vez de 115 vagas.

Para conhecer melhor as propostas dos dois candidatos ao Governo do Tocantins que disputam o segundo turno, confira a parte dois da matéria abaixo:

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