Oncologia do HGP perde médicos, enfrenta falta de remédios e registra alta de 80% nos óbitos

Documentos obtidos pelo Jornal Primeira Página revelam que a assistência oncológica no Hospital Geral de Palmas (HGP) enfrenta um cenário considerado crítico, marcado pela saída de profissionais especializados, falta de medicamentos, aumento no tempo de espera por consultas e crescimento nos índices de internações e óbitos. Os relatórios foram encaminhados ao Ministério Público do Tocantins (MPTO) no âmbito do acompanhamento da transferência dos serviços de oncologia para o Hospital de Amor.

Segundo o documento apresentado pela Coordenação do Serviço de Oncologia do HGP, pacientes que necessitam de consultas de retorno para avaliação de exames, monitoramento da resposta ao tratamento e acompanhamento clínico estão enfrentando espera média de aproximadamente 60 dias. A unidade atribui a situação à redução do quadro de oncologistas nos últimos meses.

De acordo com o relatório, dois médicos oncologistas deixaram o serviço nos últimos três meses e outros dois profissionais têm desligamento previsto para junho deste ano. A redução da equipe representa perda estimada de cerca de 130 consultas ambulatoriais por semana, sem que tenha ocorrido a reposição integral dos profissionais.

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Internações e óbitos

Os dados encaminhados ao MPTO apontam crescimento significativo nos indicadores assistenciais da oncologia.

Entre abril e maio de 2025 foram registradas 27 internações relacionadas a intercorrências clínicas de pacientes oncológicos e cinco óbitos. No mesmo período de 2026, os números saltaram para 43 internações e nove óbitos. Isso representa aumento de 59,3% nas internações e de 80% nos óbitos.

Embora o próprio relatório ressalte que os óbitos são influenciados por diversos fatores, a coordenação do serviço destaca que o aumento das internações coincide com a redução da capacidade de acompanhamento ambulatorial dos pacientes.

O documento afirma ainda que a ampliação do tempo de espera para consultas reduziu a frequência de monitoramento dos pacientes em tratamento, dificultando a identificação precoce de complicações e agravamentos clínicos.

Falta de medicamentos

Outro problema relatado ao Ministério Público é o desabastecimento de medicamentos utilizados tanto no tratamento oncológico quanto no suporte aos pacientes.

Entre os medicamentos oncológicos em falta estão Carboplatina, Clorambucila, Docetaxel, Doxorrubicina, Enzalutamida, Gosserrelina e Ifosfamida. Já entre os medicamentos de suporte aparecem Aciclovir, Dexametasona, Morfina, Metadona, Gabapentina, Ondansetrona, Omeprazol e Prednisona, entre outros.

Durante audiência realizada pelo MPTO, a Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO) informou que parte do desabastecimento está relacionada a problemas em processos licitatórios e se comprometeu a apresentar um cronograma de regularização dos estoques.

Risco de impacto na quimioterapia

O relatório também aponta preocupação com a saída de profissionais da farmácia oncológica e da enfermagem.

Segundo a coordenação, a perda de farmacêuticos habilitados para a manipulação de quimioterápicos poderá comprometer a capacidade operacional do serviço. O documento menciona que, caso não haja reposição de pessoal, medidas como redução temporária da oferta de sessões de quimioterapia ou concentração dos atendimentos em períodos específicos poderão precisar ser avaliadas.

Transição para o Hospital de Amor

As dificuldades enfrentadas pelo HGP ocorrem em meio ao processo de transferência dos serviços oncológicos para o Hospital de Amor, em Palmas.

Em audiência conduzida pela promotora de Justiça Araína Cesárea Ferreira Santos D’Alessandro, representantes da SES e do Hospital de Amor definiram cronogramas para a implantação gradual dos atendimentos. Conforme a ata da reunião, a integração da unidade ao sistema estadual de regulação está prevista para ocorrer em junho, enquanto as consultas de primeira vez devem começar em 25 de junho. A absorção dos pacientes que já realizam tratamento no HGP está prevista para iniciar em 25 de julho.

O Ministério Público acompanha o processo e estabeleceu uma série de prazos para apresentação de relatórios, definição de fluxos de atendimento e esclarecimentos sobre o aumento das internações e dos óbitos registrados no serviço de oncologia do HGP.

O que diz a SES

Em nota ao Jornal Primeira Página, a Secretaria de Estado da Saúde informou que a contratação do Hospital de Amor para a prestação dos serviços de atenção oncológica na macrorregião centro-sul foi aprovada pelo Conselho Estadual de Saúde e alinhada com os órgãos de controle.

Segundo a Pasta, a medida permitirá a oferta de atendimento moderno, abrangendo procedimentos ambulatoriais e hospitalares, além da implementação de todas as especialidades oncológicas, com o objetivo de reduzir a necessidade de encaminhamento de pacientes para outros estados.

A SES afirmou ainda que o processo de transição é conduzido de forma a garantir a continuidade dos atendimentos, sem interrupções aos pacientes, e que realiza monitoramento contínuo dos estoques de medicamentos oncológicos para assegurar a regularidade do abastecimento.

Sobre os dados apresentados durante a audiência do MPTO, a Secretaria informou que os indicadores serão objeto de análise técnica, considerando a complexidade dos casos, o perfil epidemiológico dos pacientes e os fluxos regulatórios adotados na rede.

Hospital de Amor

O Jornal Primeira Página entrou em contato com o Hospital de Amor para questionar sobre a estrutura disponível, os serviços atualmente em funcionamento e a capacidade da unidade para absorver a demanda da oncologia estadual. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.

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