Tocantins registrou mais de 8,2 mil ameaças contra mulheres em um ano; caso Morgana expõe risco crescente

Nesta segunda-feira (27), Morgana Vieira Monteiro Barbosa, de 45 anos, foi assassinada dentro da própria casa, em Palmas. Segundo testemunhas, ela tentou se proteger do ex-companheiro ao se trancar no banheiro da residência. Ainda assim, Lelito Tavares Barbosa, de 49 anos, invadiu o imóvel, efetuou disparos de arma de fogo e, em seguida, a matou com golpes de arma branca.

A Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO) confirmou que Morgana possuía uma medida protetiva de urgência contra o ex-marido. Enfermeira e servidora do município de Porto Nacional, ela deixa duas filhas e uma trajetória dedicada ao cuidado de outras vidas. Sua morte se soma a uma estatística que, ano após ano, continua crescendo no Tocantins.

Em 2025, o estado registrou um aumento de 52,8% nos feminicídios e passou a ocupar a quarta maior taxa do país. Em Arraias, Aliny Pereira de Ornelas foi morta pelo ex-companheiro. Em Gurupi, Maysa Rodrigues Fernandes Cardoso, que já havia sofrido violência doméstica, foi assassinada e enterrada em uma área de mata. Neste mês de julho, Ianca Pereira Moura morreu em Palmas, em um caso investigado como feminicídio. Agora, o nome de Morgana se soma a essa sequência de mulheres cujas histórias foram interrompidas pela violência de gênero.

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Aliny Pereira de Ornelas e Morgana Vieira Monteiro Barbosa. Foto: Divulgação

O crescimento dos feminicídios acompanha um aumento expressivo da violência contra a mulher e da procura por atendimento especializado. Dados da Corregedoria-Geral da Defensoria Pública do Tocantins mostram que, entre 2020 e 2025, o número de atendimentos voltados à proteção da mulher saltou de 855 para 2.092, um crescimento acumulado de 144,7%. Ao todo, 8.556 mulheres foram assistidas no período. A evolução foi constante: 1.026 atendimentos em 2021, 1.337 em 2022, 1.480 em 2023, 1.766 em 2024 e o maior volume registrado em 2025.

Para compreender o que está por trás dessa realidade, o Jornal Primeira Página entrevistou a coordenadora do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (Nudem), Flávia Hardt Schreiner. Segundo ela, o cenário é resultado de desigualdades históricas, relações de poder marcadas pelo machismo, vulnerabilidade econômica e da insuficiência de políticas públicas capazes de interromper o ciclo da violência antes que ele resulte em morte.

“É verdade que existe uma melhora e uma adequação nas classificações dos registros a cada ano, mas o anuário também demonstra um aumento real no número de casos de violência. Para a Defensoria, essa escalada revela que uma política baseada exclusivamente na repressão é insuficiente.”

Violência começa antes do feminicídio

Na avaliação da defensora, o feminicídio representa apenas a etapa mais extrema de uma sequência de violências que costuma permanecer invisível durante anos. Nos atendimentos realizados pela instituição, os casos mais frequentes envolvem violência psicológica, ameaças, perseguição e violência patrimonial, situações que nem sempre são identificadas pelas próprias vítimas como formas de violência.

“Um aspecto marcante é que, na grande maioria das vezes, essas violências não são o objeto direto da denúncia trazida pelas mulheres ao procurar o atendimento. Elas costumam surgir de forma sutil, em respostas a perguntas indiretas sobre a vida e a rotina do relacionamento, em atendimentos relacionados à área de família, por exemplo. Por isso, a escuta qualificada por parte das nossas equipes é fundamental para diagnosticar a violência, que muitas vezes ainda não é compreendida como tal pela própria mulher ou menina em situação de violência.”

Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 reforçam essa realidade. Embora as tentativas de feminicídio tenham diminuído de 63 para 54 casos entre 2024 e 2025, outros indicadores continuaram em alta. Os registros de violência psicológica cresceram 9,6%; os de lesão corporal em contexto de violência doméstica aumentaram 5,3%; e os casos de perseguição tiveram alta de 2,3%. Além disso, mais de 8,2 mil ocorrências de ameaça foram registradas no estado em apenas um ano, evidenciando que a violência costuma se agravar de forma gradual até chegar ao desfecho fatal.

Quem são as principais vítimas

As estatísticas também revelam quem são as mulheres mais atingidas. Dados da Secretaria da Segurança Pública mostram que cerca de 71% das vítimas de feminicídio no Tocantins são mulheres pardas e negras. Entre as mulheres atendidas pela Defensoria, a dependência financeira aparece como um dos principais fatores que dificultam o rompimento da relação com o agressor. Em relação à escolaridade, o ensino médio completo é predominante, representando 34,5% das assistidas, seguido pelo ensino fundamental incompleto (20,1%) e pelo ensino médio incompleto (12,3%).

“A Defensoria reconhece oficialmente que o machismo e o patriarcado afetam de maneira distinta e muito mais gravosa as mulheres negras, indígenas e pertencentes a outros grupos historicamente discriminados, erguendo muros ainda maiores no acesso à justiça e às redes de proteção”.

Barreiras para romper o ciclo da violência

Além das dificuldades econômicas e sociais, muitas mulheres enfrentam obstáculos dentro da própria rede de atendimento ao buscar proteção do Estado.

“Enfrentamos obstáculos dentro das próprias instituições, como a frequente descredibilização da palavra da mulher em situação de violência e a revitimização que ela sofre ao longo da rede de atendimento, fatores que a desestimulam a levar as denúncias adiante”.

Mesmo com o endurecimento da legislação, a defensora avalia que a resposta penal, sozinha, não tem sido suficiente para conter o avanço dos feminicídios. Em 2024, a pena mínima para o crime passou de 12 para 20 anos de reclusão, enquanto a máxima foi elevada para 40 anos, tornando-se a maior pena-base prevista no Código Penal brasileiro. Ainda assim, a Defensoria sustenta que o fortalecimento das políticas de prevenção, acolhimento e proteção continua sendo essencial para interromper o ciclo da violência antes que ele termine em morte.

Procure apoio 

A coordenadora do Nudem orienta que mulheres em situação de violência não enfrentem esse processo sozinhas. Segundo ela, o primeiro passo pode ser buscar apoio de uma pessoa de confiança, como um familiar, uma amiga ou um colega, que possa oferecer acolhimento e incentivar a procura pela rede de proteção.

A recomendação é utilizar os canais oficiais de denúncia, como o Ligue 180, o telefone 190 da Polícia Militar em casos de emergência e o aplicativo estadual Salve Mulher. Flávia também destaca a importância de solicitar uma medida protetiva de urgência, considerada uma das principais ferramentas previstas na Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em agosto.

O pedido da medida protetiva pode ser feito diretamente na Polícia Civil, na Defensoria Pública ou no Ministério Público. Para isso, não é necessário que a mulher já tenha registrado formalmente um crime. Basta que exista uma situação de risco para que a solicitação seja analisada pelas autoridades competentes.

 

Coordenadora do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (Nudem) da Defensoria Pública do Estado, Flávia Hardt Schreiner. Foto: Marcelo Les / Comunicação DPE-TO
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