Ponte de R$ 100 milhões inaugurada por Marcelo Miranda é interditada antes de completar 20 anos no Tocantins
Inaugurada em dezembro de 2007 como símbolo de desenvolvimento e integração econômica no Tocantins, a Ponte Prefeito Leôncio Miranda, que é federal por fazer parte de um trecho da rodovia federal BR-235, administrada e fiscalizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), e que homenageia o pai de Brito Miranda e avô do ex-governador Marcelo Miranda, foi totalmente interditada nesta semana após a identificação de fissuras, novas trincas e subsidência na estrutura. A obra, construída durante o governo Marcelo Miranda e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao custo de quase R$ 100 milhões, ainda não completou 20 anos.
A interdição preventiva foi realizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que apontou agravamento dos problemas estruturais. Com o bloqueio, o Governo do Tocantins anunciou medidas emergenciais, como uso de embarcações para travessia da população e manutenção de rotas alternativas na região.
A situação chama atenção porque pontes de concreto armado desse porte costumam ser projetadas para durar décadas sem apresentar falhas estruturais graves. Estruturas desse tipo podem ultrapassar 50 anos de vida útil quando recebem manutenção adequada e não apresentam problemas de execução, segundo referências técnicas da engenharia civil.
Obra simbólica
A ponte foi inaugurada em 21 de dezembro de 2007. A estrutura possui cerca de 1.060 metros de extensão e era considerada, na época, a maior ponte de concreto armado do Tocantins.
A inauguração foi tratada pelo governo Marcelo Miranda como uma obra histórica e carregada de simbolismo político e pessoal. O pai e o avô do ex-governador, nasceram na região, onde a família construiu parte de sua trajetória política.
Na época, a obra foi celebrada como solução definitiva para a travessia do Rio Tocantins, substituindo as antigas balsas utilizadas pela população havia décadas.
Retrocesso
Menos de duas décadas depois, a realidade voltou a se aproximar do passado. Com a interdição total da ponte, moradores e produtores rurais da região enfrentam dificuldades de deslocamento e dependem novamente de embarcações para atravessar o rio.
O governador Wanderlei Barbosa anunciou medidas emergenciais e autorizou a mobilização de barcos para auxiliar a população de Pedro Afonso, Tupirama e municípios vizinhos.
Além disso, motoristas precisam utilizar rotas alternativas longas passando por Guaraí, Tupiratins, Itacajá e Santa Maria do Tocantins.
Estrutura
A decisão ocorre em meio a um cenário de maior rigor do DNIT na fiscalização de pontes rodoviárias após a queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, em 22 de dezembro de 2024. O desabamento da estrutura sobre o Rio Tocantins, na BR-226, entre Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), deixou 14 mortos e três desaparecidos, além de provocar forte repercussão nacional sobre as condições de conservação das pontes federais.
Mais recentemente, outra estrutura importante da região Norte também foi interditada. Desde 17 de abril de 2026, a Ponte Federal Transaraguaia BR-230, sobre o Rio Araguaia, entre Araguatins (TO) e Palestina do Pará (PA), segue fechada por tempo indeterminado após o DNIT apontar risco estrutural durante análises técnicas realizadas entre fevereiro e abril deste ano.
Segundo o órgão federal, esta ponte deverá ser reconstruída, e o edital da nova obra tem previsão de publicação para 26 de junho.
Histórico político
A interdição da ponte entre Pedro Afonso e Tupirama agora, também faz ressurgir discussões sobre o contexto político do período em que a obra foi construída.
Marcelo Miranda foi cassado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico — caso considerado inédito no país. Ao longo dos anos, o ex-governador também foi alvo de diversas operações da Polícia Federal, entre elas a Operação Reis do Gado.
Em 2019, Marcelo Miranda chegou a ser preso preventivamente durante investigações da Polícia Federal e permaneceu detido por cerca de cinco meses em Palmas. Ele também responde a centenas de processos na Justiça relacionados a investigações de corrupção e irregularidades administrativas.
Comparação
O caso também levanta comparações com outras pontes do Tocantins construídas há décadas e que permaneceram em funcionamento por muito mais tempo.
A antiga ponte de Porto Nacional, por exemplo, inaugurada em 1979 durante o governo de Irapuan Costa Júnior em Goiás, permaneceu operando por mais de 40 anos antes de ser interditada e substituída por uma nova estrutura.
No caso da ponte de Pedro Afonso, a interdição ocorre antes mesmo de a obra completar duas décadas de funcionamento.
