Crime organizado chegou a todos os estados, já domina 41% dos brasileiros e TO tem disputa entre facções

Clarissa Fernandes – Jornalista 

A percepção de insegurança cresce no Brasil e altera a rotina de mais da metade da população. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, divulgado em 10/5, aponta que 41% dos brasileiros afirmam que convivem sob o domínio do crime organizado. No Tocantins, essa realidade também aparece em diferentes municípios, com a atuação de ao menos quatro facções.

De acordo com o relatório do Fórum, o crime organizado se espalhou por todo o território nacional. Atualmente, todos os 26 estados do país, incluindo o Distrito Federal, possuem mais de uma facção criminosa em atividade. Esse cenário alimenta uma insegurança generalizada, levando 96% dos entrevistados a declarar receio de sofrer algum tipo de violência.

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Essa percepção de risco forçou mudanças na rotina e hábitos da população. Para evitar assaltos, 36,5% dos cidadãos alteraram seus trajetos diários, 35,6% deixaram de sair à noite e 33,5% passaram a evitar o uso do celular em locais públicos. Além disso, 26,8% dos brasileiros optaram por retirar acessórios como joias e alianças, enquanto 22,5% desistiram de adquirir novos bens por medo de roubos e furtos.

No Tocantins

Outro estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2025 sobre a Amazônia Legal, aponta que o Tocantins se tornou centro de disputa entre facções criminosas. O cenário é marcado pela presença do Comando Vermelho (CV), originário do Rio de Janeiro, e do Primeiro Comando da Capital (PCC), fundado em São Paulo.

O levantamento também identificou a atuação de grupos regionais, como os Amigos do Estado (ADE), com origem em Goiânia, e o Bonde do Cangaço, da Bahia, com atuação em algumas cidades. 

Conforme levantamento do Instituto Mãe Crioula, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a tabela abaixo aponta a presença e a atuação de facções criminosas em municípios do Tocantins: 

Fonte: Instituto Mãe Crioula, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025.

Disputa territorial e rotas do tráfico

Segundo o relatório, a presença desses grupos contribui para o aumento da violência, principalmente em cidades consideradas estratégicas. Palmas e Araguaína aparecem como pontos de disputa entre CV e PCC pelo controle territorial e de rotas do tráfico.

O documento ainda destaca que o Tocantins passou a ocupar posição estratégica na ligação entre a Amazônia e as regiões Centro-Sul do país, se tornando um corredor para circulação de drogas. O avanço das facções, segundo o estudo, está ligado ao uso das rodovias estaduais para o transporte de cargas ilícitas escondidas em produtos legais.

A imagem abaixo, produzida pelo Instituto Mãe Crioula e publicada no relatório do Fórum Brasileiro de 2025, mostra uma pichação atribuída a uma facção criminosa no setor sul de Palmas. Segundo o estudo, o registro evidencia a disputa por território em áreas da capital tocantinense.

 

Fonte: Instituto Mãe Crioula, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025.

 

Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO), em nota enviada ao Jornal Primeira Página, o Estado tem apresentado baixa presença de facções criminosas e redução nos índices de violência letal.

A nota afirma que o Tocantins mantém atuação integrada das forças de segurança, com investimentos em inteligência, tecnologia, capacitação e operações especializadas. Segundo a SSP-TO, essas ações ajudam a impedir o fortalecimento e a expansão de organizações criminosas no Estado.

Apesar disso, dados do Portal da Segurança Pública apontam que, apenas em janeiro de 2023, o Tocantins registrou 32 homicídios relacionados a disputas entre facções em Palmas. O número representa um aumento de 255% em relação ao mês de janeiro de 2022, quando foram contabilizadas nove mortes violentas.

De forma geral, os índices de violência no Tocantins apresentaram aumento nos últimos anos. Em 2024, o Estado registrou 239 homicídios. Já em 2025, o número subiu para 249 casos, o que representa uma alta de 4,18%. No mesmo período, o Tocantins também contabilizou mais de 13 mil ocorrências de estelionato, além de mais de 13 mil registros de roubo e mais de 12 mil casos de furto.

O Jornal Primeira Página procurou a SSP-TO para ouvir o Governo do Tocantins em relação ao conteúdo desta reportagem: 

Nota SSP-TO: 

“A Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP/TO) informa que o Estado tem se destacado nacionalmente pela baixa presença de facções criminosas e pela redução consistente dos índices de violência letal, conforme apontado em levantamentos recentes divulgados pelo próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

“O Tocantins possui uma atuação integrada das Forças de Segurança, com investimentos contínuos em inteligência, tecnologia, capacitação e operações especializadas, o que tem contribuído para impedir o fortalecimento e a expansão de organizações criminosas no território estadual.

“Em razão da natureza estratégica das ações de enfrentamento ao crime organizado, a SSP/TO ressalta que não divulga detalhes operacionais, metodologias de investigação ou estratégias específicas de combate, uma vez que a exposição dessas informações pode comprometer o trabalho policial e os resultados das investigações em andamento.

“Sobre a atuação de grupos criminosos, a SSP/TO esclarece que monitora permanentemente o cenário da segurança pública no Estado, por meio das forças policiais e dos setores de inteligência, adotando as medidas necessárias sempre que identificada qualquer movimentação criminosa.

“Quanto aos dados estatísticos solicitados, a SSP/TO informa que os índices criminais oficiais do Tocantins são públicos e podem ser consultados por qualquer cidadão no Portal da Segurança Pública, na aba “Estatísticas”. No espaço, estão disponíveis indicadores relacionados a homicídios, furtos, roubos, violência doméstica, feminicídios e demais ocorrências criminais, com possibilidade de comparação entre os anos de 2024 e 2025.

“A SSP/TO destaca ainda que o Tocantins segue avançando no fortalecimento das políticas públicas de segurança, com foco na prevenção, repressão qualificada e integração entre as instituições.

Segurança pública deve ganhar peso nas eleições

Em resposta ao avanço do crime organizado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em 12 de maio, o decreto que cria o programa Brasil Contra o Crime Organizado. A iniciativa prevê investimento de R$11 bilhões em ações voltadas ao combate de facções criminosas no país.

A menos de seis meses das eleições, a segurança pública voltou ao centro do debate político nacional. Pesquisa da AtlasIntel aponta que criminalidade e tráfico de drogas estão entre as principais preocupações da população, citados por 53% dos entrevistados.

No Tocantins, o tema aparece com frequência em discursos políticos e debates sobre reforço policial, sistema prisional e combate às facções. No dia 12 de maio, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), em atuação conjunta com o Governo do Tocantins, realizou as operações MUTE e Modo Avião no sistema prisional do estado. A ação envolveu mais de 70 policiais penais (estaduais e federais), e a tendência é que a pauta ganhe ainda mais espaço durante o período eleitoral.

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