SINOPSE — A violenta face do capitalismo em “A única saída”
É curioso notar como o cinema sul-coreano tem se mostrado particularmente afiado ao abordar as contradições do capitalismo. Filmes como “Parasita”, de Bong Joon-ho, já haviam escancarado essas fissuras. “A única saída”, novo filme de Park Chan-wook (por trás de obras como “Oldboy” e “A criada”) segue esse caminho, mas com uma abordagem ainda mais ácida, transformando o desespero econômico em uma farsa cruel.
E aqui vai uma pequena ironia adicional: enquanto Hollywood distribui estatuetas e discursos emocionados durante a temporada de premiações, filmes como este foram completamente esnobados pela Academia. Mas sejamos sinceros: o Oscar nunca foi parâmetro de qualidade. E o fato de uma obra tão afiada, inventiva e provocadora ter sido ignorada pela premiação diz muito mais sobre a indústria do que sobre o filme.
“A única saída” é uma refilmagem de “O corte”, de Costa-Gravas, onde acompanhamos Man-su (Lee Byung-hun), um homem que parecia ter vencido na vida. Após 25 anos trabalhando em uma empresa de papel, ele conquistou aquilo que o capitalismo adora vender como prêmio final, uma casa bonita, família de comercial de margarina, estabilidade financeira, dois filhos talentosos, dois cachorros e churrascos no quintal aos fins de semana.
Tudo impecavelmente organizado, tudo aparentemente perfeito, até o dia em que a empresa é comprada por investidores estrangeiros e decide “enxugar” o quadro de funcionários. A justificativa, como sempre, vem embrulhada em linguagem burocrática: “não havia escolha”.
A ironia é que essa mesma frase passa a ecoar ao longo de toda a narrativa, migrando da boca dos executivos para a mente de um trabalhador desesperado.
Desempregado, humilhado e incapaz de aceitar a perda do papel social que o definia, o protagonista mergulha em uma espiral de desespero. O emprego era mais do que salário, era identidade, dignidade e, sobretudo, a máscara que sustentava sua imagem de provedor.
Sem isso, o castelo que ele construiu desmorona rapidamente. A esposa, Mi-ri (Son Ye-jin), precisa arrumar um trabalho de meio período, a família começa a cortar despesas, os cachorros são enviados para a casa dos avós e até as assinaturas de streaming entram na lista de sacrifícios domésticos.
Mas não é exatamente a pobreza que o assombra, é a perda do padrão de vida e, com ele, da aparência de sucesso. Ao descobrir uma vaga perfeita em outra empresa do mesmo setor, Man-su chega a uma conclusão tão absurda quanto coerente dentro da lógica que o moldou, se a concorrência é o problema, basta eliminá-la. Literalmente.
A partir daí, o filme assume uma estrutura que mistura sátira social, comédia de erros e thriller moral. Man-su passa a caçar seus possíveis rivais, transformando entrevistas de emprego em armadilhas mortais. Só que ele não é exatamente um assassino profissional. Pelo contrário, suas primeiras tentativas são desastradas, constrangedoras e estranhamente engraçadas. O humor nasce justamente do contraste entre a brutalidade da ideia e a incompetência prática do protagonista.
Park Chan-wook conduz essa escalada com uma precisão quase cruel, e o que começa como uma sequência de trapalhadas evolui gradualmente para algo muito mais sombrio. À medida que os crimes se acumulam, Man-su também se transforma. O homem patético e desesperado vai cedendo lugar a alguém capaz de planejar, executar e ocultar suas ações com uma frieza cada vez maior.
Uma degradação moral construída passo a passo, e Lee Byung-hun executa esse arco com uma habilidade impressionante. O ator nunca abandona completamente a humanidade do personagem, mesmo quando ele atravessa limites cada vez mais perturbadores, e faz com que o espectador experimente a desconfortável sensação de se reconhecer nele.
Afinal, a luta que ele enfrenta é universal, mesmo que os métodos, claro, não sejam. No entanto, a lógica por trás deles é assustadoramente familiar. Não há um vilão personificado, há processos que seguem funcionando mesmo quando pessoas são descartadas em decisões tomadas por estruturas que nunca aparecem.
Num mundo em que processos seletivos se tornaram arenas de competição brutal, em que algoritmos filtram currículos e profissionais são descartados por planilhas de eficiência, não é difícil imaginar alguém trapaceando, mentindo ou sabotando um concorrente para garantir uma vaga. A diferença entre nós e Man-su talvez seja apenas circunstancial, nós não temos uma pá na mão.
O roteiro funciona como uma crítica feroz ao capitalismo e o diretor nos apresenta isso com enquadramentos minuciosamente compostos, transições visuais cheias de significado e escolhas de montagem que criam conexões emocionais inesperadas. Há momentos em que o filme parece conversar visualmente com seus próprios temas. Cada quadro parece pensado para comunicar algo além do diálogo, e isso se estende também ao ritmo do filme.
A montagem alterna momentos de comédia física com sequências de suspense silencioso, criando uma instabilidade que mantém o espectador permanentemente desconfortável. Rimos de situações absurdas, apenas para perceber logo em seguida que estamos rindo de algo profundamente perturbador.
“A única saída” não oferece catarse nem redenção. Não há aprendizado moral reconfortante e também não há transformação espiritual. O que existe aqui é apenas o esforço frenético de manter as aparências para sustentar uma vida que já desmoronou. Ao fundo dessa história particular, paira uma crítica muito mais ampla.
Park Chan-wook observa um sistema que transforma pessoas em números, empregos em identidades e competição em modo de vida. A automatização, a inteligência artificial e a lógica neoliberal aparecem como forças invisíveis que reorganizam o mundo enquanto indivíduos tentam desesperadamente acompanhar o ritmo, e o resultado disso é uma sociedade em que todos parecem substituíveis.
Clique nos links abaixo e siga Carolinne Macedo e a coluna SINOPSE nas redes sociais:
@carolinnecmacedo
@sino.pse
