SINOPSE — Entre o amor e o colapso: a representação da maternidade no cinema
A maternidade retratada no cinema sempre foi menos sobre mulheres reais e mais sobre expectativas, sociais, morais e, sobretudo, narrativas. Durante décadas, a mãe ocupou um lugar quase sagrado nas telas, sendo representada como uma figura de abnegação absoluta, emocionalmente inesgotável, cuja existência orbitava o cuidado, a idealização do sacrifício.
Era a extensão do arquétipo da “boa mãe”, moldado por valores patriarcais e reforçado por uma indústria que, ironicamente, preferia conforto à complexidade do maternar.
Nos primórdios do cinema clássico hollywoodiano, a maternidade era frequentemente retratada como um destino inevitavelmente virtuoso. A representação da maternidade compulsória imposta sob as mães que sofrem em silêncio, que suportam perdas e humilhações sem jamais romper com as amarras.
Mulheres que não desejam, não falham, não colapsam. Esse modelo não era apenas limitado, era também a desumanização da mulher. Ao retirar dessas personagens qualquer ambivalência, o cinema também negava às espectadoras a possibilidade de se reconhecerem em suas contradições.
Em meio às transformações sociais contemporâneas, especialmente após os movimentos feministas da segunda metade do século XX, essa representação começou a fissurar. O que antes era mito passou a ser questionado, e a maternidade deixou de ser apenas símbolo, para começar, ainda que timidamente, a se aproximar da verdadeira experiência.
Hoje, felizmente, podemos assistir essa ruptura se intensificar nas telonas. O cinema contemporâneo tem ousado encarar a maternidade sem filtros, abrindo espaço para narrativas que exploram o cansaço, a frustração, a solidão e até o arrependimento.
Filmes como “Morra, amor (2025)” e “Se eu tivesse pernas eu te chutaria (2025)” mergulham em experiências que desafiam o ideal romantizado, o que vemos são mães que não cabem na expectativa, que transbordam limites emocionais, que sentem raiva, desejo de fuga e, ainda assim, amor. Um amor que não é puro nem redentor, mas atravessado por conflitos.
No cinema brasileiro, “Mãe fora da caixa (2025)” escancara o cotidiano caótico da maternidade, desmontando o discurso da perfeição com humor ácido e honestidade brutal. Já “A melhor mãe do mundo” investiga a pressão social que define o que é ser “boa mãe”, expondo a violência por trás desse rótulo.
Há ainda produções que optam por caminhos mais simbólicos e perturbadores para tratar do tema, como em “Canina (2024)”. Nesse tipo de abordagem, a maternidade é quase uma experiência corporal extrema, por vezes monstruosa, que mistura instinto, identidade e a dissolução do eu. Não se trata mais de representar a mãe como indivíduo estável, mas como um ser em constante transformação, e, por que não, em crise.
Essa mudança de perspectiva não é apenas estética, é claramente política. Ao pluralizar as narrativas maternas, o cinema contribui para desmontar um imaginário opressor que aprisiona mulheres em papéis inalcançáveis. Mostrar mães exaustas não é desvalorizar a maternidade, é humanizá-la. Retratar mães solo, por exemplo, não como heroínas romantizadas, mas como mulheres atravessadas por desigualdades estruturais, amplia o debate sobre responsabilidade coletiva e o abandono social.
Da mesma forma, expor o esgotamento emocional é reconhecer que o cuidado, historicamente invisibilizado, tem um custo muito alto. Essas representações também operam como espelho e como ruptura. Espelho, porque permitem que muitas mulheres finalmente se vejam, não de forma idealizada, mas real.
Ruptura, porque desafiam o público a rever suas próprias expectativas e julgamentos. Afinal, quantas vezes o cinema ajudou a consolidar a ideia de que toda mãe deve ser incondicionalmente feliz? Ao tensionar esse imaginário, o audiovisual contemporâneo não apenas amplia repertórios, mas legitima experiências que antes eram vividas em silêncio.
E é nesse deslocamento que o cinema encontra sua maior força, ao arrancar a maternidade do campo da idealização e devolvê-la à complexidade do real ampliamos essas narrativas e legitimamos vivências historicamente silenciadas. E, ao fazer isso, o audiovisual não somente representa mães, mas reposiciona a própria ideia de maternidade no imaginário coletivo.
