SINOPSE — Backrooms: Um Não-Lugar – Perdido entre corredores e explicações

Há algo profundamente perturbador em um corredor vazio, não um corredor escuro  tomado por sombras ou povoado por monstros, mas um corredor iluminado, amarelo, silencioso, algo profundamente familiar. Um espaço que parece existir fora da lógica do mundo e que desperta uma sensação difícil de explicar, como se estivéssemos diante de uma lembrança que nunca vivemos. Foi essa inquietação que transformou Backrooms em um fenômeno da internet. Uma creepypasta que cresceu, ganhou novas camadas, comunidades inteiras dedicadas a expandir sua mitologia e, principalmente, conquistou milhares de pessoas. Tudo pelo medo do desconhecido.

A maior qualidade (talvez a única) de “Backrooms: Um Não-Lugar” é compreender perfeitamente a força desse conceito. Dirigido por Kane Parsons, criador da famosa websérie que ajudou a popularizar a lenda urbana digital, o longa acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), proprietário de uma loja de móveis à beira da falência, afundado em uma rotina de frustrações, isolamento e fracassos. Em paralelo, acompanhamos Mary (Renate Reinsve), sua terapeuta, uma mulher igualmente marcada por feridas emocionais que ainda não cicatrizaram. E quando ambos acabam conectados aos infinitos corredores dos Backrooms, o filme abandona gradualmente a proposta de um terror puramente sensorial para transformar aquele espaço impossível em uma representação psicológica de culpa, trauma, solidão e autossabotagem.

A ideia até que não é ruim, mas é mal executada. É claro que, existe uma leitura bastante interessante sendo construída, onde os corredores intermináveis passam a funcionar como uma extensão da mente humana, um lugar onde o isolamento se materializa e onde cada personagem parece preso aos próprios fantasmas. Mas o problema é que o filme se torna cada vez mais interessado em explicar essa ideia do que em fazê-la ser sentida. Conforme a narrativa avança, a sensação de mistério vai sendo substituída por explicações e os personagens começam a verbalizar sentimentos, interpretar acontecimentos e discutir diretamente seus traumas.

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Paralelo a isso, Parsons demonstra um domínio impressionante da linguagem visual, os planos abertos transformam os personagens em pequenas figuras perdidas dentro de uma arquitetura impossível e os enquadramentos elevados fazem com que eles pareçam cobaias observadas por alguma presença invisível. Já os closes comprimem seus corpos contra as paredes, reforçando uma sensação constante de aprisionamento. Percebemos nisso um cuidado admirável na construção do espaço. Cada corredor parece esconder algo e cada porta sugere uma ameaça, e o mais interessante é que quase nunca sabemos exatamente que ameaça é essa.

A fotografia aproveita com inteligência a estética liminar que tornou os Backrooms tão populares. Diferente da maioria dos filmes de terror contemporâneos, o medo não nasce da escuridão, mas surge da iluminação excessiva. Daquilo que conseguimos enxergar perfeitamente, mas somos incapazes de compreender. É visualmente desconfortável e o zumbido incessante das lâmpadas fluorescentes funciona quase como uma tortura psicológica. É um daqueles raros casos em que o horror parece estar presente mesmo quando absolutamente nada acontece.

As sequências que utilizam a estética found footage reforçam ainda mais essa qualidade. A câmera assume o olhar dos personagens e mergulha o público naquele labirinto sem lógica. São momentos que remetem diretamente aos vídeos que transformaram a franquia em um sucesso na internet e que demonstram o talento do diretor para construir tensão através da atmosfera. Não faltam também referências e easter eggs para os fãs da mitologia criada ao longo dos anos, e tudo isso torna ainda mais frustrante observar a direção tomada pelo roteiro.

A medida que os corredores deixam de ser uma ameaça imprevisível e passam a funcionar exclusivamente como metáforas, o que antes era assustador se torna didático. A impressão é que o filme passa a desconfiar do espectador, como se tivesse medo de permitir que o público construísse suas próprias interpretações do que vê. E é nesse lugar que a obra perde parte significativa de sua força, porque o horror dos Backrooms nunca esteve nas respostas, mas sim na ausência delas. A sensação de estar preso em um lugar sem lógica, sem propósito e sem explicação é muito mais poderosa do que qualquer tentativa de racionalizar aquele universo.

A grande ironia de “Backrooms: Um Não-Lugar” é que poucos filmes recentes compreenderam tão bem por que uma lenda urbana da internet se tornou um fenômeno cultural. Poucos conseguiram reproduzir com tanta eficiência a sensação de desconforto, desorientação e estranhamento que fez milhões de pessoas se apaixonarem por esse universo. Kane Parsons prova ter um talento visual extraordinário e demonstra uma compreensão profunda da mitologia que criou. Só que os Backrooms não precisam de tantas explicações. Alguns corredores funcionam melhor quando não sabemos para onde levam e alguns mistérios deveriam continuar incompreendidos.

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