Conheça o raro boto que vive isolado entre os rios Tocantins e Araguaia

Conhecido popularmente como um golfinho de água doce, o boto do Araguaia (Inia araguaiaensis) é uma das espécies de mamíferos aquáticos mais raras do planeta. Encontrado exclusivamente na bacia dos rios Tocantins e Araguaia, o animal vive isolado geográfica e geneticamente de outros botos fluviais há milhões de anos e hoje enfrenta uma série de ameaças que colocam em risco sua sobrevivência.

Durante décadas, os pesquisadores acreditavam que os botos encontrados nos rios Tocantins e Araguaia pertenciam à mesma espécie do boto-cor-de-rosa da Amazônia (Inia geoffrensis). Essa percepção mudou em 2014, quando um estudo realizado por cientistas da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Universidade de Dundee, na Escócia, confirmou que essa população havia seguido uma trajetória evolutiva própria entre um e dois milhões de anos atrás.

A descoberta transformou o boto do Araguaia na primeira nova espécie de golfinho de rio identificada no mundo neste século. O isolamento ocorreu devido à presença de corredeiras, cachoeiras e formações geológicas no baixo Tocantins, que interromperam a ligação natural com outras populações de botos da Amazônia.

Ao longo de milhões de anos de isolamento, a espécie desenvolveu características exclusivas. Embora mantenha a coloração que varia entre tons de cinza e rosado, o boto do Araguaia possui porte menor, corpo mais compacto, caixa craniana mais larga e um número reduzido de dentes quando comparado ao boto-cor-de-rosa amazônico.

Essas diferenças anatômicas e genéticas foram fundamentais para o reconhecimento científico da espécie e reforçam sua importância para a biodiversidade brasileira.

Pesquisadores estimam que existam entre 900 e 1.500 indivíduos distribuídos entre os rios Tocantins e Araguaia. A situação mais delicada é observada no rio Tocantins, onde a construção de barragens fragmentou ainda mais as populações.

O problema é que grupos isolados passam a ter menos diversidade genética, aumentando o risco de cruzamentos entre indivíduos aparentados e reduzindo a capacidade da espécie de resistir a doenças e mudanças ambientais.

Se as corredeiras foram responsáveis pelo isolamento natural da espécie ao longo de milhões de anos, as hidrelétricas agravaram esse cenário nas últimas décadas.

Usinas como Tucuruí, Lajeado, Estreito, Serra da Mesa e Canabrava dividiram o curso dos rios em vários trechos separados por grandes barragens. Com isso, os botos perderam a capacidade de circular livremente em busca de alimento e parceiros reprodutivos.

Além de restringir a movimentação dos animais, os reservatórios alteraram a dinâmica natural dos rios, afetando diretamente os peixes que servem de alimento para a espécie.

A redução da oferta de peixes faz com que os botos se aproximem cada vez mais das redes utilizadas por pescadores. Nesses casos, muitos acabam ficando presos, se afogando ou sofrendo ferimentos.

Pesquisadores também apontam que alguns animais são mortos de forma intencional por pescadores que os enxergam como concorrentes na disputa por peixes.

Outro fator de preocupação é a qualidade da água. O avanço da agricultura nas margens dos rios favorece o despejo de defensivos agrícolas nos cursos d’água, enquanto atividades de garimpo podem contaminar o ambiente com mercúrio, afetando toda a fauna aquática.

A degradação ambiental dos rios Tocantins e Araguaia também preocupa especialistas. O assoreamento, o desmatamento das margens, a redução da vazão dos rios e as mudanças provocadas pela ação humana afetam diretamente os habitats utilizados pelos botos.

Por ocupar o topo da cadeia alimentar aquática, o boto do Araguaia é considerado um importante indicador da saúde dos rios. Quando sua população diminui, isso pode sinalizar problemas ambientais mais amplos em todo o ecossistema.

Para evitar o declínio da espécie, cientistas defendem a criação de corredores ecológicos aquáticos, o fortalecimento das pesquisas de monitoramento, a recuperação de áreas degradadas e o aumento das ações de conservação.

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