SINOPSE — A trupe, o cerrado e o segredo: os caminhos sensíveis de “Entramas”

A cabine de imprensa de “Entramas” reuniu jornalistas, convidados e parte da equipe para apresentar o primeiro longa-metragem de Justino Vettore com um retorno às raízes que o formaram: o palco, a poesia e o teatro mambembe transbordando significado e emoção em cada cena. Há algo profundamente comovente em ver um diretor tão jovem reencontrar o próprio início, como quem abre uma velha caixa de memórias e deixa o pó do tempo se misturar ao brilho do presente.

Financiado pela Lei Paulo Gustavo e produzido pela Fábrica Produções, o filme já nasce como marco, tendo mais de 100 trabalhadores envolvidos, 90% tocantinenses, ocupando Taquaruçu e outras regiões do estado com uma estética que abraça tanto o cerrado quanto o lúdico. A tela se enche de malabares, pernas de pau, bonecos gigantes, cortejos coloridos e toda a exuberância das artes cênicas traduzida para o cinema, um desafio que o diretor encara com coragem, escolhendo se arriscar e se permitindo acertar.

O título “Entramas” surge como pista e como metáfora, não apenas remete às camadas de uma narrativa bem costurada, mas também sugere esse “entrar nas tramas”, como uma imersão no que há de mais íntimo, fraturado e secreto dentro da família Flores. O filme nos convida a atravessar essas costuras, puxando fio por fio até encontrar o que se esconde por trás de cada segredo.

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A história acompanha a família Flores tentando sobreviver à morte de seu menestrel. Antúrio, vivido por Gabriel Santana (sim, ele mesmo, das novelas globais), carrega a dor e a responsabilidade de manter a trupe viva enquanto tenta guiar a irmã Yasamin, interpretada com delicadeza por Amanda Nobre. Ela, dividida entre o primeiro amor com Lírio e as pressões das tias Camélia e Begônia, precisa decidir se sobe ao palco ou se encara sua própria história na coxia.

A trama se adensa quando, rumo a um festival, a velha Kombi da família decide sucumbir à aridez do cerrado. É ali, no improviso da noite, ao redor da fogueira, que o filme alcança seu ápice emocional e os segredos vêm à tona, os ressentimentos se inflamam, e um plano de vingança meticulosamente urdido pelas tias ganha corpo. A família, tão acostumada a atuar, precisa finalmente se encarar sem máscaras e o passado, antes oculto, exige ser exposto.

Tecnicamente, a obra apresenta escolhas interessantes, o uso de flashbacks é eficiente e confere ritmo às revelações; a câmera instável, repleta de close-ups, aproxima o espectador da intimidade e reforça a sensação de descontrole emocional. A fotografia sépia, opaca, parece esconder os mistérios dessa família e dialoga com o luto que atravessa a narrativa. A trilha sonora, ancorada em Refazenda, de Gilberto Gil, traz suavidade, memória e um certo respiro espiritual ao caos da trama e o texto é espirituoso, arrancando risadas sinceras da plateia.

Mas, mais que técnica, “Entramas” entrega algo ainda mais precioso: o gesto vibrante de transformar a precariedade e a beleza do teatro popular em cinema. E faz isso com rostos conhecidos da cultura tocantinense como Cleuda Milhomem, Meire Maria Monteiro, Magna Carneiro, João Welson Almeida, Carlos Gontijo, entre tantos outros atores que emprestam verdade às cenas e firmeza ao elenco.

“Entramas” é sobre arte, família, memória e feridas que insistem em arder. Uma obra que adentra a história dessa trupe e revela, sem pressa, cada ponto mal costurado, agraciando o público com autenticidade, identidade e uma coragem rara no audiovisual tocantinense recente. Um filme que carrega alma e o pulsar de uma família que tenta se recompor enquanto o espetáculo desaba ao redor. Cinema feito com afeto, suor, cor e uma pluralidade tocantinense que merece ser vista.

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