SINOPSE — “Dia D” – impressiona pela direção e decepciona pela narrativa

Em seu mais recente projeto, Steven Spielberg retorna ao território que ajudou a redefinir dentro da ficção científica, mas não para repetir os próprios sucessos, como em “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” e “E.T.: O Extraterrestre”. Em “Dia D” ele usa extraterrestres apenas como ponto de partida. No filme, Daniel Kellner (Josh O’Connor), funcionário de uma agência de inteligência, decide divulgar documentos que comprovariam décadas de contato entre governos e vida extraterrestre. Enquanto foge de uma corporação determinada a impedir que a verdade venha à tona, seus caminhos se cruzam com os de Margaret Fairchild (Emily Blunt), uma apresentadora de televisão que, após um encontro insólito com um pássaro, começa a experimentar fenômenos que desafiam qualquer explicação racional.

          O fato é que “Dia D” não é um filme sobre alienígenas, é um filme sobre uma humanidade que não consegue reconhecer o outro sem querer dominá-lo, e quando se entende isso, a experiência faz um pouco mais de sentido. Ao longo de uma carreira de mais de meio século, poucos cineastas conseguiram transformar determinadas imagens em uma assinatura tão reconhecível quanto Steven Spielberg. Basta uma câmera deslizando com elegância por um cenário, um feixe de luz cortando a escuridão ou personagens encarando algo invisível com os olhos arregalados para sabermos quem está por trás daquelas imagens.

Mas o grande problema de “Dia D” é ter uma boa ideia apoiada em conceitos vagos e um roteiro cansativo. Pouco a pouco, o fascínio vai cedendo espaço a uma sucessão de perseguições que se repetem até perder completamente o impacto. O roteiro de David Koepp parece convencido de que manter os personagens em constante movimento basta para sustentar a tensão. Depois de algum tempo, percebe-se que a história está andando em círculos, adiando continuamente uma revelação que nunca alcança a potência dramática prometida. E mesmo que o longa flerte com questões profundas como fé, religião, manipulação da informação, paranoia institucional, negacionismo, necessidade de acreditar em algo maior e o colapso das certezas que sustentam nossa sociedade, tudo isso permanece na superfície.

Anúncio no meio do texto

O resultado é uma narrativa que prepara exaustivamente um acontecimento monumental, mas demonstra pouco interesse pelas consequências que ele inevitavelmente provocaria. Em vários momentos, a credulidade do espectador é colocada à prova, personagens altamente treinados tomam decisões difíceis de justificar, agentes supostamente preparados tropeçam em armadilhas dignas de uma aventura infantil e determinadas sequências parecem existir apenas porque Spielberg sabe filmá-las com competência suficiente para mascarar seus problemas internos. É quase divertido perceber como sua extraordinária habilidade visual consegue revestir situações francamente absurdas de uma aparência de grande espetáculo.

E este é um filme genuinamente spielberguiano, com suas movimentações de câmera criativas e um trabalho sempre primoroso de mise-en-scène, transformando espaços aparentemente simples em ambientes vivos, cheios de informação visual. Spielberg continua sendo um dos maiores diretores da história quando o assunto é organizar corpos, cenários e movimento dentro do enquadramento. A sequência envolvendo o trem talvez seja o melhor exemplo disso, a maneira como ele administra a geografia da ação, conduz o olhar do espectador e constrói suspense demonstra um domínio cinematográfico que poucos realizadores possuem. Mesmo quando o roteiro vacila, a direção nunca parece perder o controle da experiência.

          Filmado em 35 mm com uma textura que devolve ao filme uma materialidade rara, o diretor usa a luz de maneira espiritual, atravessando janelas e invadindo corredores. O uso de sombras e brilhos não serve apenas para criar mistério, mas para traduzir a própria ideia de revelação, há sempre algo prestes a ser visto, mas nem sempre compreendido. Também merece destaque a direção de atores, e Emily Blunt é, sem dúvida, o grande destaque do filme. Sua interpretação sustenta momentos que o roteiro claramente não consegue desenvolver sozinho. Josh O’Connor também entrega um trabalho consistente como o homem responsável por carregar o segredo que movimenta toda a trama, embora seu personagem permaneça excessivamente funcional.

Talvez o mais fascinante desa obra, seja ver a sensibilidade de um cineasta com tantos anos de carreira continuar acreditando que olhar para o desconhecido pode ser tão ou mais importante do que entendê-lo, é uma pena que o roteiro nunca alcance a maturidade de sua proposta. Mas enquanto grande parte da ficção científica contemporânea aposta no cinismo, Spielberg permanece fiel ao fascínio pelo desconhecido. Seu olhar continua infantil no melhor sentido possível: curioso, sensível e disposto a imaginar que talvez exista algo maior do que nós. Dito isso, “Dia D” se revela um blockbuster de aspirações mais modestas do que seu marketing dava a entender, o que certamente pode frustrar uma parcela do público acostumada ao escopo operático de obras do gênero.

Leia também

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está de acordo com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceitar Leia mais