O olhar que registra o que pode desaparecer; Emerson Silva transforma memória em resistência cultural no Tocantins

Há perguntas que não se resolvem com técnica, mas com experiência. Para o fotógrafo e documentarista Emerson Silva, uma delas atravessa sua trajetória: o que a fotografia mostra que o vídeo não mostra, e vice-versa?

“Eu não sei o que o vídeo conta e o que a fotografia não conta. Eu acho que são duas áreas totalmente distintas, embora parentes”, diz Emerson, em entrevista ao Jornal Primeira Página.

“Na fotografia sou eu. É o meu olhar falando sobre uma comunidade. No vídeo, a gente tem a voz do outro. E isso é o grande diferencial.”

Anúncio no meio do texto

A resposta, mais do que técnica, revela um modo de ver o mundo. Há mais de duas décadas, Emerson percorre comunidades tradicionais, povos indígenas e territórios culturais do Tocantins com a câmera nas mãos, e com um compromisso que vai além da imagem.

Evento internacional reunirá líderes de mais de 190 países – Foto: Emerson Silva.

Da Fundação Cultural ao trabalho independente

Natural de São Paulo (SP), Emerson chegou ao Tocantins ainda jovem e construiu sua trajetória profissional dentro da cultura do estado. Ao longo de quase 20 anos no serviço público, especialmente na área cultural, foi ali que iniciou sua carreira na fotografia documental.

“Eu sou filho da Fundação Cultural do Tocantins. Foi lá que eu aprendi quase tudo”, afirma.

Mas a permanência no setor público também trouxe desgaste. A decisão de sair veio depois de anos enfrentando descontinuidades e mudanças de gestão.

“A principal motivação foi a saúde mental. É muito difícil trabalhar no governo. Falta continuidade, e isso me feria profundamente”, diz.

A saída, no entanto, coincidiu com um dos períodos mais difíceis: a pandemia. Sem estabilidade financeira, Emerson viu a cultura, mais uma vez, reorientar seu caminho.

“A cultura me salvou. Me tirou do ostracismo e me colocou para trabalhar. Foram as comunidades que me chamaram de volta.”

Um olhar que vem do campo

Se o início foi institucional, o aprendizado real, segundo ele, aconteceu no campo. “Documentar é viver com essas pessoas, criar vínculo. Foi isso que virou minha paixão.”

Esse olhar o levou a atuar em inventários culturais, considerados por ele um dos trabalhos mais exigentes da fotografia.

“Tudo tem que ser registrado. Cada detalhe, cada símbolo, cada gesto. E entender o porquê de tudo aquilo.”

Festa do Peixe e da Lontra – Foto: Emerson Silva

Esse rigor técnico e sensibilidade renderam reconhecimento nacional e internacional. Parte de seu trabalho já foi exibida até mesmo na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra.

Mas, para Emerson, o reconhecimento mais importante não vem das instituições.

“Ser reconhecido pelas comunidades que eu fotografo é o que mais importa.”

 No audiovisual

Apesar da longa trajetória na fotografia, o audiovisual ainda é um campo recente para ele.

“Eu sempre tive resistência a filmar. Mas a necessidade me levou.”

Durante a pandemia, com equipes reduzidas, precisou assumir novas funções: filmar, dirigir, pensar narrativas.

“Quando vi, já estava dirigindo filme e nem tinha percebido.”

Hoje, ele assina documentários e atua também como diretor de fotografia, ampliando sua forma de contar histórias.

Urgência de registrar o que pode desaparecer

Se há uma palavra que atravessa toda a fala de Emerson, é urgência.

“Tudo precisa ser registrado com urgência. Tudo.”

Para ele, a falta de documentação é uma ameaça real à memória cultural do estado.

“Tem muita coisa se perdendo. Lideranças indígenas, saberes quilombolas, manifestações culturais… tudo indo embora sem registro.”

Aldeia Areia Branca
Tocantins, Brasil – 2025 – Foto: Emerson Silva

Ensinar para que outros registrem

Hoje, além de produzir, Emerson também ensina. Dá oficinas de fotografia e incentiva o autorregistro dentro das próprias comunidades.

“É importante que eles se registrem com o próprio olhar, não depender de alguém de fora.”

A escolha aponta para um novo caminho em sua trajetória: unir fotografia, história e educação. Atualmente, ele cursa História e pretende atuar na formação de novos olhares.

“O conhecimento precisa ser passado. Não pode ficar guardado.”

Entre a paixão e o desafio do mercado

Mesmo com prêmios e reconhecimento  (incluindo conquistas nacionais e destaque em exposições dentro e fora do país) Emerson reconhece os desafios de viver da fotografia cultural.

“O mercado é complicado. A fotografia cultural não tem tanto espaço. A gente sobrevive de editais.”

Ainda assim, ele segue. Para ele, a fotografia não é apenas imagem.

É memória.
É identidade.
E, acima de tudo, resistência.

Leia também

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está de acordo com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceitar Leia mais