Governo Carlesse: operações expõem esquema de corrupção no Tocantins
O desmonte da cúpula do Governo do Tocantins em 2021 ocorreu após o afastamento do então governador Mauro Carlesse por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A medida foi tomada no contexto das investigações das operações Hygea e Éris, conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, que apontam a atuação de uma organização criminosa dentro da estrutura do governo estadual.
Segundo as investigações, o grupo atuava em duas frentes principais. Uma delas envolve o desvio de recursos da saúde por meio do Plano de Assistência à Saúde dos Servidores (Plansaúde), alvo da Operação Hygea. A outra frente atuava dentro da Secretaria da Segurança Pública, conforme apontado na Operação Éris.
O afastamento de Carlesse ocorreu em meio a uma crise política no estado. Na época, a Assembleia Legislativa chegou a instaurar processo de impeachment contra o governador. Antes da conclusão do julgamento, Carlesse renunciou ao cargo. Com a saída dele, o então vice-governador Wanderlei Barbosa assumiu o comando do Executivo estadual. Anos depois, em 2025, Barbosa também foi afastado do cargo por decisão judicial no âmbito de investigações envolvendo a administração estadual.
Estrutura da organização investigada
De acordo com as denúncias apresentadas pelo Ministério Público, agentes públicos e particulares teriam atuado de forma articulada dentro da estrutura do governo estadual. As investigações apontam diferentes núcleos de atuação.
O núcleo político e de liderança teria como principal nome o ex-governador Mauro Carlesse, apontado como líder do grupo.
No núcleo operacional e financeiro, aparece Claudinei Quaresemin, ex-secretário de Parcerias e Investimentos e sobrinho de Carlesse, descrito como articulador político e ligação entre o governo e empresários.
Já o núcleo institucional, segundo as acusações, teria contado com Rolf Costa Vidal, ex-secretário da Casa Civil, responsável por articulações administrativas e políticas, e Cristiano Barbosa Sampaio, ex-secretário de Segurança Pública, acusado de utilizar a estrutura policial para proteger o grupo e obstruir investigações.
No núcleo familiar, a investigação aponta Dayana Kiriliuk Carlesse Alves, filha do ex-governador, como responsável por movimentação de bens e valores que teriam sido usados para ocultar recursos de origem ilícita.
Operação Hygea
A Operação Hygea investiga um suposto esquema de cobrança de propina de até 10% para liberação de pagamentos a hospitais credenciados ao Plansaúde.
Segundo o Ministério Público, o esquema teria causado prejuízo estimado em mais de R$ 40 milhões aos cofres públicos. Ao todo, 15 pessoas figuram como rés na ação penal.
Entre os investigados estão:
- Mauro Carlesse, ex-governador
- Claudinei Quaresemin, ex-secretário
- Dayana Kiriliuk Carlesse Alves
- Neyzimar Cabral de Lima, ex-secretário de Administração
- Dilma Caldeira de Moura, ex-subsecretária da Fazenda
- Ineijaim José Brito Siqueira, ex-diretor do PlanSaúde
- Rodrigo Assumpção Vagas, ex-assessor do gabinete do governador
- Keliton de Sousa Barbosa, ex-secretário extraordinário
- Gabriela Almeida Carvalho, ex-secretária de Carlesse
- Benedito Dilson dos Santos Gomes, empresário
- Ramos Farias e Silva Filho, empresário
- Rômulo Bueno Marinho Bilac, empresário
- Diego Augusto de Souza Honório, empresário
- Marco Antonio de Sousa, empresário
- Gilmar Braz da Rocha, contador ligado à Unimed Centro-Oeste e Tocantins
Operação Éris
A Operação Éris investiga o suposto aparelhamento da Secretaria da Segurança Pública para monitorar adversários políticos e interferir em investigações consideradas sensíveis ao governo.
Entre os réus citados nas ações penais estão:
- Mauro Carlesse
- Claudinei Quaresemin
- Rolf Costa Vidal
- Servilho Silva de Paiva, delegado da Polícia Federal
- Raimunda Bezerra de Souza, ex-delegada-geral da Polícia Civil
- Thiago Emanuell Vaz Resplandes, delegado
- Cinthia Paula de Lima, delegada
- Juliana Moura Amaral, delegada
- Gilberto Augusto Oliveira Silva, delegado
- Iolanda de Sousa Pereira, delegada
- Lucélia Maria Marques Bento, delegada
- Ênio Walcácer de Oliveira Filho, delegado
- Ronan Almeida, ex-corregedor
- Wilson Oliveira Cabral, ex-corregedor
- Paulo Henrique Gomes Mendes, então procurador municipal de Palmas
- Cristiano Barbosa, delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança Pública
Funcionamento do esquema
Segundo a denúncia, o grupo atuaria de forma coordenada. Enquanto o núcleo ligado à saúde operava o suposto desvio de recursos do Plansaúde, integrantes da área de segurança monitoravam delegados e investigadores.
De acordo com os autos, quando surgiam apurações consideradas sensíveis ao esquema, haveria movimentação interna para afastar responsáveis ou reduzir o avanço das investigações.
O que dizem as defesas
O advogado Murilo Armando, que representa Mauro Carlesse, reiterou a inocência do ex-governador e afirmou confiar no Poder Judiciário.
Segundo ele, as acusações não possuem base empírica suficiente e deverão ser refutadas ao longo da instrução processual.
A defesa de Rolf Costa Vidal, feita pelo advogado Michelangelo Corssetti, informou que ele responde atualmente a duas ações penais no Superior Tribunal de Justiça relacionadas à Operação Éris e que seu nome não possui vínculo com novas operações mencionadas.
Já a defesa de Neyzimar Cabral, representada pelo advogado Abizair Paniago, afirmou que o ex-secretário participa regularmente dos atos processuais e que sua inocência será demonstrada ao final do processo.
Com informações do Jornal do Tocatins – Raphael Pontes
