Araguaína investe mais R$ 19,9 milhões contra assoreamento próximo ao Lago Azul; problema se agrava há mais de uma década
Mais de uma década depois do agravamento do assoreamento na região do Lago Azul, em Araguaína, uma nova intervenção de quase R$ 20 milhões será realizada para retirada de sedimentos acumulados no Córrego Baixa Funda, próximo à chegada ao reservatório.
O contrato, no valor de R$ 19.964.747,78, foi assinado pela Secretaria Municipal de Infraestrutura com a CMN – Construtora Meio Norte Ltda. e prevê serviços de escavação, carga, transporte e destinação final do material sedimentado. A intervenção está concentrada em um trecho do Baixa Funda e não corresponde ao desassoreamento de todo o Lago Azul.
Segundo o projeto básico, o acúmulo de sedimentos reduz o espaço disponível para a passagem da água e pode contribuir para alagamentos e processos erosivos. A execução terá prazo de 12 meses a partir da emissão da ordem de serviço. Depois da autorização, a empresa terá até 15 dias para mobilizar equipamentos e trabalhadores.
O investimento ocorre em uma região marcada há anos por erosões e pelo transporte de solo para os cursos d’água. O processo ganhou maiores proporções entre 2010 e 2012, depois de anos de erosão na bacia do Baixa Funda, contribuindo para o assoreamento na região do Lago Azul.
Para a doutora em Ecologia e Evolução e professora da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), Silvia Dutra, a recuperação da área deve priorizar os processos naturais de regeneração, com a recomposição da vegetação e a estabilização das margens. A pesquisadora avalia que a retirada do material acumulado com o uso de máquinas pode interferir nesse processo e favorecer novas erosões.
“A solução aqui do córrego seria uma revitalização, não uma canalização, revigorar a parte estrutural de vegetação desses ambientes. A gente tem profissionais na UFT, por exemplo, que fazem recuperação de nascentes. Então, a gente tem conhecimento científico para poder fazer isso”, afirmou.
Um lago dentro da cidade, mas com acesso limitado
A situação chama atenção também pela localização do Lago Azul. O reservatório faz parte da paisagem urbana de Araguaína e poderia representar uma área de maior integração da população com o Rio Lontra. Na prática, segundo Silvia, problemas ambientais e sanitários restringem esse uso.
A professora relata que moradores já frequentam áreas próximas ao rio, inclusive para pesca, mas alerta que o contato com ambientes sem condições sanitárias adequadas pode representar riscos.
“Ele é muito importante. E o que a gente precisa é garantir que esse público tenha qualidade de saúde para usar esses recursos para a vida”
Da água corrente ao Lago Azul
A história do Lago Azul começa décadas antes do atual problema de assoreamento. Na década de 1970, a construção da barragem da Central Geradora Hidrelétrica Corujão represou o Rio Lontra e formou o reservatório na área urbana de Araguaína.
O represamento modificou as características daquele ambiente, transformando trechos originalmente de água corrente em áreas de água mais parada.
Anos depois, outro processo passou a afetar a região. Em 2005, uma erosão começou a se desenvolver na área do córrego Baixa Funda, que integra a bacia do Rio Lontra. A situação se agravou nos anos seguintes e ganhou maiores proporções entre 2010 e 2012, com o transporte de solo para os cursos d’água.
Uma das áreas mais afetadas ficou conhecida como “cratera do Detran”, uma grande voçoroca próxima ao Detran de Araguaína, às margens da Avenida Filadélfia/TO-222.
Silvia explica que o processo está relacionado tanto às características do solo quanto às transformações provocadas pela urbanização. A retirada de vegetação e a concentração da água da chuva por sistemas de drenagem alteram a forma como o escoamento chega ao terreno.
“Uma coisa é a gente ter uma torneira aberta, outra coisa é a gente ter uma manilha gigantesca com volume de água muito grande. Quanto maior o volume de água, maior a força de erosão que ela tem”
Segundo a pesquisadora, a presença da vegetação contribui para que a água chegue ao solo de forma mais lenta e distribuída. Já em áreas urbanizadas, o escoamento pode ser concentrado em determinados pontos.
“Eu aumentei a velocidade da água, porque não tem árvore, e aumentei o volume de água, porque as obras ali canalizaram tudo e juntaram. Então, criei um ambiente perfeito para criar uma erosão, principalmente por se tratar de uma área arenosa”
Intervenções começaram a ser realizadas na região
Em setembro de 2018, começaram intervenções para controlar a chamada cratera do Detran. As obras incluíram um sistema de drenagem com galerias para conduzir grandes volumes de água até o córrego Baixa Funda.
O projeto foi parcialmente financiado pelo Banco Mundial, por meio do Programa de Desenvolvimento Regional Integrado e Sustentável (PDRIS), e teve custo estimado em R$ 3,5 milhões. As intervenções continuaram até 2020, quando a cratera foi considerada controlada.
A partir de 2021, novos recursos foram anunciados para intervenções relacionadas ao sistema formado pelos córregos e pelo Rio Lontra. Naquele ano, foram anunciados R$ 3 milhões de uma emenda parlamentar para o início do desassoreamento do Rio Lontra.
A Prefeitura também informava que havia garantido R$ 25 milhões em recursos, dos quais R$ 19,7 milhões estavam empenhados para ações de recuperação ambiental previstas para 2022. O Município ainda previa cerca de R$ 4 milhões do Tesouro Municipal para intervenções nos córregos Baixa Funda e Tiúba.
Na época, a administração municipal relacionava o assoreamento às características do solo de Araguaína e às erosões. Segundo informações divulgadas pelo Município, aproximadamente 70% do solo urbano possui formações de arenito, mais suscetíveis à fragmentação, e parte desse material era transportada pelas enxurradas em direção aos córregos e ao Lago Azul.
A previsão inicial era iniciar parte das intervenções em maio de 2022, mas houve atrasos relacionados a readequações dos projetos, liberação de recursos e execução das obras.
Projeto de canalização chegou a R$ 96 milhões
Em 2023, a Prefeitura anunciou obras de canalização e urbanização dos córregos Baixa Funda e Tiúba. Na ocasião, o Município relacionou as intervenções ao enfrentamento das erosões e do assoreamento do Lago Azul.
O projeto completo previa cerca de 2,8 quilômetros de intervenções entre a Avenida Filadélfia e o Lago Azul, com orçamento estimado naquele momento em aproximadamente **R$ 96 milhões**.
A primeira etapa havia sido licitada por R$ 32 milhões, sendo R$ 25 milhões provenientes de emenda e R$ 7 milhões de contrapartida municipal. A segunda etapa, entre o Setor Palmas e o Lago Azul, estava em processo de licitação por R$ 22 milhões, com previsão de R$ 15 milhões provenientes de emendas e R$ 7 milhões do Município. Os recursos restantes ainda precisavam ser captados.
Recuperação da vegetação
Dentro desse histórico de intervenções, Silvia aponta a recuperação da vegetação como uma medida ambiental capaz de contribuir para a estabilização das margens e reduzir o transporte de sedimentos.
Segundo a pesquisadora, as raízes ajudam a estabilizar o solo arenoso, enquanto árvores e outras plantas reduzem a velocidade com que a água da chuva chega aos cursos d’água.
“Ambientalmente, o que deveria ser feito? Recuperar as margens todas com reflorestamento, para que as raízes possam estabilizar a areia, para que as árvores possam diminuir a velocidade da água, da chuva que vai escoar para ali”
Para Silvia, reduzir a velocidade da água é um dos pontos importantes para diminuir a erosão.
“Quanto mais lenta a água entrar, melhor, que é exatamente o oposto do que o escoamento superficial urbano faz. Ele junta muita água para se livrar dela rápido, e aí estoura lá embaixo.”
A pesquisadora também ressalta a importância de preservar a capacidade de infiltração da água no solo. Segundo ela, esse processo contribui para o armazenamento de água e para a manutenção dos cursos d’água durante os períodos mais secos. “Então, a solução é diminuir a velocidade da água, colocar as plantas para poderem fazer esse trabalho”, afirmou.
Ao tratar das medidas ambientais para a região, Silvia defende a revitalização dos córregos, com recuperação da vegetação e das margens.
“A solução aqui do córrego seria uma revitalização, não uma canalização, revigorar a parte estrutural de vegetação desses ambientes”
Novo contrato prevê retirada dos sedimentos acumulados
O contrato de quase R$ 20 milhões firmado em 2026 atua sobre outra parte do problema: o material que já se encontra sedimentado no Baixa Funda.
A estrutura mínima prevista para o serviço inclui duas escavadeiras hidráulicas, trator de esteiras, pá carregadeira e seis caminhões basculantes. O material retirado deverá ser levado para uma área ambientalmente regularizada, com comprovação mensal da destinação por documentos, notas fiscais e registros fotográficos georreferenciados.
O contrato nº 046/2026 está vinculado ao processo administrativo nº 2026008433 e tem vigência até 15 de janeiro de 2028. A execução dos serviços, porém, depende da emissão da ordem de serviço.
Assim, enquanto a retirada dos sedimentos atua sobre o material já acumulado, as medidas ambientais apresentadas pela pesquisadora estão relacionadas à redução da erosão e do transporte de novos sedimentos para os cursos d’água.
Riscos à saúde
Além do assoreamento, Silvia chama atenção para as condições ambientais e sanitárias da região e para o impacto delas no uso do Rio Lontra e do Lago Azul pela população.
Segundo a pesquisadora, moradores frequentam a região para atividades como a pesca, mas a qualidade ambiental pode limitar o aproveitamento seguro do espaço para lazer e convivência.
“Vira um ambiente de proliferação de doenças muito sérias”, afirmou, citando doenças diarreicas, dengue, esquistossomose e cólera entre os possíveis riscos.
Para a professora, portanto, recuperar a região não significa apenas enfrentar a erosão e o assoreamento, mas também criar condições para que a população possa se relacionar com o rio com maior segurança.
Parte das informações utilizadas nesta reportagem também foi obtida a partir da pesquisa “Macroinvertebrados Bentônicos e Sucessão Ecológica: Indicadores da Recuperação Ambiental em Área Assoreada na Represa da Usina Hidrelétrica Corujão no Rio Lontra, Araguaína-TO”, desenvolvida pelo acadêmico Bruno Felipe, do curso de Licenciatura em Biologia da UFNT, sob orientação da professora Silvia Dutra.
Nota Prefeitura:
A Prefeitura de Araguaína, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura, informa que as obras terão início assim que o Governo Federal creditar os recursos destinados à execução dos serviços.
Além do desassoreamento, o Município vem realizando a canalização do Córrego Baixa Funda e ações de contenção de erosões na região, como medidas de infraestrutura voltadas à melhoria das condições do córrego e do entorno do Lago Azul.
Em relação às ações de recuperação ambiental, a Prefeitura informa que as intervenções na região incluem as medidas previstas nos projetos das obras.
Quanto ao uso do Lago Azul pela população, o Município destaca que, desde 2017 ano da entrega da Via Lago, tem garantido o acesso da população, mantendo a área como espaço de convivência e lazer para os moradores.
