Das cobras que bebem leite aos fervedouros encantados; livro preserva histórias de avós do Cerrado

O hábito de sentar e ouvir uma história contada pelos mais velhos pode parecer uma lembrança comum da infância, mas, para a escritora, jornalista e antropóloga Alice Agnes, a redução desses momentos de convivência coloca em risco uma parte da memória cultural transmitida entre gerações. É justamente esse universo que ela procura preservar em Histórias de Vó, livro escolhido pela TAG Experiências Literárias para representar o Tocantins em uma seleção nacional com obras de todos os estados brasileiros.

Em entrevista ao Jornal Primeira Página, Alice contou que passou mais de dez anos ouvindo relatos de mulheres idosas. O resultado são oito histórias que transitam pelas lendas, tradições, mistérios e modos de vida do Cerrado, tendo as avós como principais guardiãs desses conhecimentos.

“Talvez em duas, três gerações, se nós não registrarmos essas histórias, elas vão se apagar”, afirmou.

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Professora Dra. Alice Agnes – Foto: Arquivo pessoal

Histórias que atravessam o Brasil

Alice explica que espera que o leitor encontre no livro mais do que narrativas sobre o Cerrado. Durante o processo de escuta, ela percebeu semelhanças entre histórias contadas em diferentes lugares do país.

“Em algum lugar, todas as nossas raízes se conectam. De norte a sul, diferentes ambientes, diferentes vivências, você vai encontrar ali histórias muito parecidas”, disse.

Segundo a autora, essa conexão aparece tanto nas experiências de sobrevivência e resistência feminina quanto nos mistérios, remédios populares e tradições transmitidos ao longo das gerações.

Entre os relatos estão histórias de onças, fervedouros encantados, potes de ouro amaldiçoados e cobras que beberiam leite de mulheres durante a amamentação.

Entre a lenda e a verdade de quem conta

Uma das características que mais chamou a atenção da pesquisadora durante as entrevistas foi a forma como as histórias eram narradas. Para aquelas mulheres, muitos dos acontecimentos não eram apresentados simplesmente como lendas.

“Elas falavam como acontecimentos verdadeiros que aconteceram com elas ou com amigas”, contou.

Alice cita como exemplo uma conhecida história popular envolvendo a cobra caninana. Segundo a crença relatada por diferentes mulheres, o animal poderia se aproximar durante a noite para beber o leite de uma mulher que estivesse amamentando.

A autora chegou a procurar biólogos para entender se o comportamento seria possível. Conforme relata, os especialistas consultados descartaram essa possibilidade do ponto de vista biológico. Mesmo assim, Alice continuou encontrando versões semelhantes da história em diferentes lugares.

Recentemente, durante outra entrevista sobre o livro, ela presenciou uma situação que exemplificou essa transmissão entre gerações. Enquanto um jornalista demonstrava desconhecer a história, o cinegrafista que o acompanhava disse que sua própria avó havia contado uma versão praticamente igual envolvendo sua mãe.

Para Alice, a recorrência dessas narrativas ajuda a revelar a relação dos povos do Cerrado com os animais, as plantas e o ambiente.

“Eu acho isso por si só muito mágico, o quanto o Brasil é um país cheio desse realismo fantástico”, afirmou.

Onde termina a história das avós e começa a autora?

A fronteira entre os relatos que ouviu e a própria história de Alice é difícil de estabelecer. As avós da escritora também estão representadas no livro, embora as personagens tenham recebido codinomes. Segundo ela, apenas Dona Laurentina, do quilombo Mumbuca, aparece com o nome verdadeiro.

Alice conta que muitas das narrativas também se parecem com aquelas que ouviu durante a própria infância.

“Tem muito dessas avós que eu estudei, que eu entrevistei e acompanhei, mas também tem muito da Alice autora, jornalista, antropóloga, professora, mas principalmente de uma Alice criança que amava ouvir história de vó”, explicou.

Jornalismo e antropologia se encontram na escrita

A formação profissional da autora também influenciou a construção da obra. Alice é jornalista, doutora em Antropologia e professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

Segundo ela, o jornalismo aparece na necessidade de investigar, procurar informações, apurar e ouvir diferentes fontes. A antropologia, por outro lado, contribuiu para que ela observasse os relatos respeitando a cultura, os costumes e aquilo que cada pessoa compreende como verdade.

“Quando eu escrevo esse livro, o meu papel não é julgar, não é duvidar. Quais as chances disso ter acontecido? Quais as chances de um pote de ouro estar amaldiçoado? Não é sobre isso”, explicou.

Para Alice, algumas narrativas que inicialmente podem parecer apenas histórias fantásticas carregam ensinamentos sobre sobrevivência, violência, comportamento e formas de viver no Cerrado.

A autora define esses relatos como “tecnologias narrativas”, utilizadas principalmente pelas mulheres para transmitir conhecimentos às outras mulheres e às crianças.

“Qualquer história de vó, as suas avós, as minhas avós, elas têm ali muito mais do que entretenimento. Têm verdadeiras lições, segredos, uma essência muito profunda que a gente pode aplicar, com certeza, ainda hoje”, afirmou.

Seleção leva histórias do Tocantins para outros leitores

Com a escolha pela TAG Experiências Literárias, Histórias de Vó passa a representar o Tocantins em uma seleção que reúne obras das diferentes unidades da Federação.

Para Alice, mais do que despertar nostalgia, a chegada do livro a novos leitores pode estimular uma mudança na maneira como as gerações mais velhas são ouvidas.

“Nós vivemos hoje, principalmente em relação aos idosos, uma certa marginalização. Antigamente, as pessoas mais velhas tinham um lugar de muita importância, muito prestígio na sociedade. E hoje está todo mundo tão acelerado que a gente reserva pouco tempo para ouvir uma avó, um avô, para sentar, para prestar atenção”, disse.

Ela espera que a leitura desperte justamente a vontade de procurar essas histórias dentro das próprias famílias.

“Aqui no livro eu só trago oito histórias. Imagine quantas outras histórias preciosas e riquíssimas estão por aí”, acrescentou.

Como encontrar Histórias de Vó

O livro está disponível em formato físico em livrarias de Palmas e também pode ser encontrado em livrarias on-line. Há ainda uma versão digital em EPUB.

A obra foi produzida com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio de edital público de incentivo à arte e à cultura. Como contrapartida, exemplares também foram disponibilizados em bibliotecas públicas, permitindo o acesso gratuito à obra.

Para Alice, políticas de incentivo como essa são especialmente importantes para artistas e produtores culturais do Norte, diante da concentração histórica do mercado cultural brasileiro nas regiões Sul e Sudeste.

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