Corte de verbas e disparidade em editais da PNAB disparam crise entre Secult-TO e setor cultural

Por Manoel Júnior – Jornalista

Com redução de R$ 5,1 milhões na verba, artistas e produtores questionam novos critérios e mudança. A execução do Ciclo 2 dos editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) no Tocantins tornou-se o centro de uma intensa queda de braço entre a Secretaria de Estado da Cultura (Secult-TO) e os fazedores da cultura local.

O estopim da crise foi a publicação dos novos certames, com destaque para o Edital nº 14/2026 – Linguagens Artísticas – Fomento Palmas, voltado ao apoio de projetos na capital. Fazedores de cultura denunciam uma redução drástica no número de vagas e verbas, além de uma evidente disparidade orçamentária que penaliza as áreas de Literatura e Artes Visuais.

Anúncio no meio do texto

Na semana passada, em uma tentativa de conter os ânimos, representantes do Festival de Literatura Independente do Tocantins (Flito) e da cúpula da Secult-TO reuniram-se a portas fechadas. O encontro, cercado de expectativa, serviu para colocar na mesa as pressões do setor por uma repactuação de valores, mas os bastidores indicam que o impasse técnico e operacional em torno dos certames de 2026 continua longe de um desfecho.

O encolhimento dos números

A comparação com os certames anteriores expõe o tamanho do recuo na distribuição de recursos para a capital. No segmento de Artes Visuais, o edital que em 2024 contemplava 12 vagas com um montante de R$ 435 mil, despencou em 2026 para apenas 4 vagas — uma redução de 66,6% na oferta de vagas —, com orçamento reduzido a R$ 190 mil, o que representa um corte de 56,3% na verba destinada.

O cenário na Literatura é ainda mais severo: o setor viu o número de vagas cair de 11 para somente 5 vagas em 2026, amargando uma queda de 54,5% na quantidade de projetos contemplados. O impacto financeiro para os escritores foi drástico: os R$ 490 mil em recursos disponíveis em 2024 encolheram para um orçamento minguado de R$ 130 mil, significando uma redução brutal de 73,4% no orçamento da categoria.

A guerra de notas: Flito versus Secult-TO

O descontentamento já havia ganhado coro formal por meio de uma nota de repúdio emitida pelo Flito. Em resposta, a Secult-TO divulgou um esclarecimento defendendo as ações plurais da pasta e listando investimentos estaduais gerais e novos editais.

A reação da Secretaria, contudo, foi rebatida imediatamente pelo Flito em uma segunda nota contundente. O Flito esclareceu que a manifestação não diz respeito as ações próprias da Secult – TO, mas sim aos editais específicos da PNAB, cujas verbas são inteiramente provenientes do Governo Federal.

O Flito ironizou a justificativa da secretaria sobre novos editais estaduais divulgados em uma terça-feira: segundo a categoria, era “impossível citá-los na manifestação original, afinal, eles sequer haviam sido divulgados e ainda estão aguardando pareceres da Procuradoria-Geral do Estado (PGE)”.

O cerne do protesto é a assimetria na divisão das fatias orçamentárias federais: dados do Flito revelam que, no Edital 13/2026, a Literatura recebeu apenas 4,7% do investimento total, enquanto as demais linguagens tiveram de 12,6% a 19,5%. Já no Edital 14/2026 (Palmas), a Literatura ficou com minguados 8,7%, contra tetos de até 22,8% de outras áreas.

Apuração aponta recuo no orçamento e retrocesso em plataforma.

A reportagem apurou que o Tocantins sofreu um encolhimento institucional expressivo no aporte da PNAB para este ciclo. A redução orçamentária global é estimada em R$ 5.178.038,48, o que representa uma queda de 27,25% nos recursos em relação ao ano anterior.

Apesar do teto menor, a classe artística questiona a falta de uma reorganização estratégica que previsse um aporte complementar do Fundo Estadual de Cultura para amortecer o impacto e manter as vagas, a exemplo do que a própria gestão realizou com sucesso em 2024.

Outro forte ponto de atrito é a mudança repentina no sistema de inscrição. Produtores criticam o abandono da plataforma virtual “Mapa da Cultura”. Em 2024, houve uma intensa mobilização de fazedores de cultura do interior e da capital para se cadastrar e se adaptar ao sistema oficial. Neste ciclo, contudo, a Secult-TO adotou um layout e uma dinâmica considerados confusos, que ignoram tanto o modelo anterior quanto as experiências consolidadas de órgãos parceiros, como a Fundação Cultural de Palmas (FCP).

Quem responde?

Em sua defesa pública nas redes, a Secult-TO tem sustentado que “a distribuição de valores por linguagem obedece a parâmetros normativos federais”. A tese é amplamente contestada, visto que a Lei Federal nº 14.399/2022 dita expressamente que a divisão interna dos recursos é de competência do Estado através do Plano Anual de Aplicação de Recursos (PAAR), documento que, inclusive, pode ser legalmente alterado e readequado pelo ente federativo a qualquer momento da execução, caso haja necessidade.

Buscando o posicionamento oficial e a transparência dos fatos, a reportagem formalizou um pedido de esclarecimento detalhado via e-mail para a Assessoria de Comunicação (Ascom) da Secult-TO, questionando formalmente os motivos do abandono da plataforma Mapa, os critérios técnicos de distribuição de recursos diante do corte de 27,25% e as falhas no sistema de inscrição.

A Ascom da pasta não retornou os contatos. Diante do silêncio, as demandas foram encaminhadas diretamente para a Secretaria de Comunicação do Estado (Secom-TO), que chegou a se comprometer formalmente em enviar uma resposta institucional, mas, até o fechamento desta edição, também não deu nenhum retorno.

Leia também

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está de acordo com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceitar Leia mais