Entenda investigação na Saúde de Palmas; secretária e servidor presos, empresária foragida e contrato milionário sob investigação

A prisão da secretária municipal de Saúde de Palmas, Dhieine Caminski, e do superintendente de Atenção à Saúde, Andreis Vicente da Costa, nesta quarta-feira (10), marca o momento mais grave da crise envolvendo a terceirização das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) Norte e Sul da capital.

As prisões representam um novo capítulo de uma investigação que começou com questionamentos sobre a contratação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Itatiba (SP), avançou para operações policiais, buscas e apreensões, auditorias técnicas e ações judiciais, e agora alcança o núcleo da gestão da saúde municipal.

Além dos dois gestores públicos, a Polícia Civil procura a empresária Cláudia Fernanda Cândido da Silva, apontada pelos investigadores como personagem central na articulação do contrato que transferiu a administração das unidades de urgência para a entidade paulista.

 

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Quem são os alvos da investigação

Alvos da investigação – Foto: Redes Sociais

 

Dhieine Caminski: Secretária Municipal de Saúde de Palmas. É citada nas investigações que apuram supostas irregularidades no processo de contratação da Santa Casa de Misericórdia de Itatiba para administrar as UPAs Norte e Sul da capital.

Andreis Vicente da Costa: Superintendente de Atenção à Saúde de Palmas. É mencionado em documentos da investigação e aparece entre os alvos das apurações relacionadas à contratação da entidade.

Cláudia Fernanda Cândido da Silva: Empresária apontada pelos investigadores como articuladora da contratação. É procurada pela Polícia Civil e teve seu nome citado em relatórios, depoimentos e documentos anexados aos processos investigativos.

Como tudo começou

UPAs de Palmas – Foto: Prefeitura de Palmas

 

A origem da investigação está na terceirização das UPAs Norte e Sul. Em março de 2026, a Prefeitura de Palmas anunciou a contratação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Itatiba para administrar as duas unidades de pronto atendimento da capital. O contrato foi firmado por dispensa de chamamento público e possui valor estimado em aproximadamente R$ 139 milhões.

A contratação gerou questionamentos desde os primeiros dias. Servidores da própria Secretaria Municipal de Saúde passaram a relatar estranheza sobre a forma como o processo estava sendo conduzido. Posteriormente, essas suspeitas deram origem a investigações conduzidas pela Polícia Civil, pelo Ministério Público do Tocantins, pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) e por equipes técnicas do Centro de Apoio Operacional da Saúde (CAO Saúde) do MPTO.

 

Operação Falsa Emergência

Operação Falsa Emergência – Foto: PCTO

 

O primeiro grande avanço da investigação aconteceu no final de maio, quando a Polícia Civil deflagrou a Operação Falsa Emergência. Foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão contra servidores públicos e pessoas ligadas ao processo de contratação. Celulares, computadores, documentos e materiais eletrônicos foram recolhidos.

As diligências revelaram uma série de elementos que, segundo investigadores e promotores, indicariam direcionamento da contratação. As provas passaram a integrar inquéritos policiais, procedimentos do Ministério Público e uma Ação Popular que tramita na Justiça.

 

Reuniões a portas fechadas e documentos secretos

Secretaria Municipal de Saúde – Foto: Prefeitura de Palmas

 

Um dos pontos mais graves apontados pelo Ministério Público envolve a forma como o contrato teria sido construído dentro da Secretaria Municipal de Saúde. Segundo depoimentos colhidos pela Polícia Civil e apresentados à Justiça, os documentos que culminaram na contratação da Santa Casa circularam de maneira restrita.

Servidores afirmaram que o processo era mantido sob sigilo até mesmo dentro da própria secretaria. Em alguns casos, pareceres favoráveis teriam sido assinados sem que os técnicos tivessem acesso integral aos documentos.

O Ministério Público sustenta que houve supressão da publicidade dos atos administrativos e limitação da participação de outros interessados. Para os promotores, o procedimento teria sido conduzido para garantir a contratação da entidade paulista.

 

O nome que aparece no centro da investigação

Procurada pela Polícia – Foto: PCTOl

 

Entre todos os personagens citados nos documentos da investigação, um nome aparece repetidamente: Cláudia Fernanda Cândido da Silva. Embora a Santa Casa afirme que ela não representa oficialmente a instituição, os investigadores apontam que Cláudia teria atuado diretamente na articulação da contratação em Palmas.

Segundo o Ministério Público, ela participou de reuniões, manteve contato com integrantes da gestão municipal e teria exercido influência na elaboração do processo administrativo.

A empresária também aparece em outra investigação. Ela responde a uma ação relacionada ao fornecimento de testes rápidos para Covid-19 em Itatiba (SP), caso que apura prejuízo superior a R$ 1 milhão aos cofres públicos.

 

A BMW que chamou atenção dos investigadores

Ministério Público do Tocantins – Foto: Divulgação

 

Entre os elementos que mais chamaram a atenção da investigação está um veículo de luxo utilizado pelo superintendente Andreis Vicente da Costa. Segundo o Ministério Público, uma BMW X1 S20i M Sport, modelo 2025/2026, foi locada um dia antes da assinatura da justificativa que dispensou a realização do chamamento público para contratação da Santa Casa.

O veículo teria sido alugado por Cláudia Fernanda. O contrato de locação previa gasto total de R$ 228.576 ao longo de dois anos, equivalente a R$ 9.524 mensais. A Polícia Civil afirma que o automóvel era utilizado regularmente por Andreis Vicente. O carro acabou sendo apreendido durante as investigações. Para o Ministério Público, a coincidência temporal entre a locação do veículo e a assinatura do processo administrativo passou a ser um dos principais pontos de apuração.

 

O que dizem as investigações

Delegacia Geral da Polícia Civil – Foto: Elias Viana

 

A Polícia Civil apura possíveis crimes relacionados à contratação. Já o Ministério Público investiga possíveis atos de improbidade administrativa. Os procedimentos analisam suspeitas de direcionamento contratual, produção de documentos com datas questionadas, ocultação de informações administrativas, favorecimento indevido e possíveis benefícios particulares decorrentes do contrato. Até o momento, não há condenações judiciais relacionadas ao caso. As investigações seguem em andamento.

 

O contrato que chegou ao STJ

Superior Tribunal de Justiça – Foto: Divulgação

 

A disputa em torno da terceirização das UPAs também chegou aos tribunais. O contrato chegou a ser suspenso pela Justiça do Tocantins. Posteriormente, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorizou a continuidade da contratação. Mesmo após a liberação judicial, porém, as investigações continuaram avançando. Novos documentos foram produzidos, auditorias foram realizadas e operações policiais passaram a reunir elementos que sustentam os pedidos de anulação apresentados pelo Ministério Público.

 

Auditorias reforçam pedido de anulação do contrato

Unidade de Pronto Atendimento (UPA) – Foto: Lia Mara

 

Enquanto a Polícia Civil investigava a contratação da Santa Casa, auditorias realizadas pelo Ministério Público identificaram uma série de irregularidades nas UPAs Norte e Sul. Entre os problemas apontados estão falhas no atendimento médico, na gestão de medicamentos e no cumprimento de exigências administrativas.

Os relatórios também registraram ausência de documentos obrigatórios, falhas em notificações epidemiológicas e exposição de dados sensíveis de pacientes, além de outras inconsistências consideradas relevantes pelos órgãos de fiscalização.

Com base nessas informações, o Ministério Público protocolou, na terça-feira (9), um novo pedido de anulação do contrato firmado para a gestão das unidades. Segundo os promotores, os elementos reunidos ao longo das investigações indicam possíveis irregularidades tanto no processo de contratação quanto na execução dos serviços prestados. O órgão também defende que a administração das UPAs retorne ao Município de Palmas, alegando riscos à saúde pública e possíveis violações aos princípios da administração pública.

 

Prisões, defesa e posicionamentos oficiais

Quartel do Comando-Geral da PMTO – Foto: Divulgação

 

Dhieine Caminski e Andreis Vicente da Costa foram encaminhados ao Quartel do Comando-Geral da Polícia Militar, onde permanecem à disposição da Justiça até a realização da audiência de custódia.

Já a empresária Cláudia Fernanda Cândido da Silva, apontada nas investigações como articuladora da contratação, não foi localizada durante a operação. Segundo a defesa, ela está viajando e deverá retornar para se apresentar às autoridades.

A Prefeitura de Palmas informou, por meio da Procuradoria-Geral do Município, que acompanha o caso e aguarda acesso oficial aos autos para se manifestar. O município também afirmou que os atendimentos na rede municipal de saúde seguem normalmente, incluindo nas UPAs Norte e Sul.

Em nota, a Santa Casa de Misericórdia de Itatiba declarou que não é alvo da operação e afirmou permanecer à disposição das autoridades para colaborar com os esclarecimentos necessários.

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