Após quase 50 anos, comissão afirma que ditadura matou Juscelino Kubitschek

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou nesta sexta-feira (29) um relatório que conclui que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima de um atentado político durante a ditadura militar. A decisão contesta a versão oficial mantida por décadas de que JK morreu em um acidente automobilístico na Via Dutra, em agosto de 1976.

O relatório foi aprovado por seis votos favoráveis e uma abstenção durante sessão realizada em São Paulo. Com a decisão, a comissão passará a trabalhar para a retificação da certidão de óbito do ex-presidente.

Comissão aponta ocultação de homicídio

Segundo a relatora do caso, Maria Cecília Adão, há elementos suficientes para sustentar a hipótese de que a morte de JK foi resultado de uma ação planejada por agentes ligados ao regime militar.

De acordo com o relatório, um encontro com emissários do então presidente Ernesto Geisel teria influenciado a decisão de JK de viajar de carro, e não de avião, no dia do acidente.

Para a comissão, a viagem teria sido utilizada para atrair o ex-presidente ao local onde ocorreu o atentado.

“O acidente não ocorreu como foi relatado. Se consideramos a situação política, as falhas, a notícia da morte dias antes, ocultação e destruição de provas, podemos dizer que o assassinato foi ocultado”, afirmou a relatora.

Relatório cita 37 fraudes na investigação

O documento reúne informações de perícias e investigações realizadas ao longo de décadas e aponta 37 irregularidades na apuração oficial da morte de JK.

Entre os pontos levantados estão a chegada de militares ao local cerca de 20 minutos após o acidente, a ausência de isolamento da área e a retirada dos veículos envolvidos sem preservação da cena.

Segundo a comissão, essas ações abriram espaço para possível adulteração de provas.

O relatório também aponta que testemunhas que afirmaram não ter havido colisão foram desconsideradas durante as investigações oficiais.

Veículo teria sido alterado após acidente

Durante a apresentação do relatório, a relatora exibiu fotografias que, segundo a comissão, mostram divergências entre o estado do carro logo após o acidente e as condições em que o veículo apareceu posteriormente.

De acordo com Maria Cecília Adão, imagens registradas no local mostram a lanterna traseira sem danos aparentes. No entanto, o automóvel apresentava avarias quando chegou ao pátio onde foi periciado.

A comissão também afirma que o veículo foi posteriormente desmontado, o que teria comprometido a preservação de evidências.

Horário da morte e laudos são questionados

Outro ponto destacado no relatório é a divergência sobre o horário da morte de JK.

Segundo a comissão, documentos indicam que o ex-presidente teria morrido às 20h50, aproximadamente três horas após o acidente registrado oficialmente.

Os integrantes questionam a diferença entre os horários presentes nos registros e apontam falhas consideradas graves nos laudos produzidos à época.

A relatora afirmou ainda que não foi realizado exame toxicológico para verificar eventual envenenamento.

Diário desaparecido e ameaça à família

A comissão também aponta que um diário pessoal de JK teria sido retirado do veículo após o acidente.

Segundo o relatório, um médico teria feito cópias do material e posteriormente pressionado familiares do ex-presidente.

Outro elemento citado é uma notícia publicada três dias antes da morte de JK que mencionava a possibilidade de ele morrer em um acidente na mesma rodovia onde ocorreu a tragédia.

De acordo com a relatora, o próprio ex-presidente havia relatado a jornalistas que acreditava estar sendo alvo de tentativas de assassinato.

Certidão de óbito poderá ser alterada

Com a aprovação do relatório, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos informou que irá solicitar a retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek, conforme previsto na Resolução 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça.

A medida busca adequar o documento à nova conclusão adotada pela comissão, que reconhece a morte do ex-presidente como decorrente de perseguição política durante o regime militar.

Fonte: G1

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