Fevereiro Roxo: ciência avança no controle de doenças crônicas, mas incentivo à pesquisa ainda é desafio
Alzheimer, lúpus e fibromialgia são doenças diferentes, mas têm algo em comum: não têm cura e ainda não possuem causas totalmente conhecidas. A campanha “Fevereiro Roxo” reforça a importância do diagnóstico precoce, do acompanhamento contínuo e da melhoria da qualidade de vida das pessoas que convivem com essas condições — e também de suas famílias.
Mais do que um mês de conscientização, a mobilização também abre espaço para discutir o papel da pesquisa científica na busca por respostas e novos caminhos de cuidado.
Lúpus; estudo aponta infecção como principal causa de morte no Brasil
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune que pode afetar pele, articulações, rins e cérebro. Ainda não se sabe exatamente o que causa o lúpus, mas fatores hormonais, infecciosos, genéticos e ambientais podem estar envolvidos.
Um estudo que analisou dados da população brasileira entre 2000 e 2019 mostrou que a principal causa de morte associada à doença foi infecção, seguida de complicações cardiovasculares e renais. O levantamento utilizou dados do DataSUS e destacou a necessidade de ampliar informações sobre o perfil dos pacientes e fortalecer o acompanhamento médico.
Outra pesquisa internacional apontou que um vírus comum na infância pode estar ligado ao desenvolvimento da doença, reacendendo o debate sobre fatores desencadeantes.
O tratamento do lúpus é voltado ao controle dos sintomas. Ainda não há cura nem formas conhecidas de prevenção.

Fibromialgia; controle da dor e novas possibilidades terapêuticas
A fibromialgia atinge cerca de 3% da população brasileira, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, principalmente mulheres. A síndrome provoca dor em todo o corpo, fadiga, alterações no sono e dificuldades de memória e atenção. Apesar de não ser progressiva, pode comprometer a rotina do paciente se não houver tratamento adequado.
Em 2019, pesquisadores da USP desenvolveram uma técnica que combina ultrassom e laser terapêutico de baixa intensidade. O método conseguiu controlar a dor em 90% dos pacientes avaliados.
Já em 2021, estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) indicou que um medicamento utilizado para tratar Parkinson apresentou resultados positivos no controle da fibromialgia em modelo experimental, abrindo caminho para novas possibilidades terapêuticas.
As pesquisas reforçam que, mesmo sem cura, é possível avançar no controle dos sintomas e na qualidade de vida.

Alzheimer; prevenção, diagnóstico e novos medicamentos
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência no mundo e afeta cerca de 55 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, estima-se que mais de 1,2 milhão de pessoas convivam com a enfermidade.
Ainda não há como evitar totalmente a doença, mas estudos indicam que atividade física regular, alimentação equilibrada, controle da pressão e do diabetes, estímulo à mente e convívio social podem reduzir o risco.
Em janeiro de 2026, a Anvisa aprovou o Lecanemabe, medicamento injetável indicado para retardar a progressão da doença em fases iniciais. O Donanemab, também aprovado, atua ajudando o organismo a eliminar substâncias associadas à degeneração cerebral.
Pesquisadores brasileiros também confirmaram o potencial de um exame de sangue para auxiliar na identificação da doença. O estudo analisou mais de 110 pesquisas, com cerca de 30 mil pessoas, e apontou uma proteína como indicativo promissor para o diagnóstico.
Na Universidade de Brasília (UnB), outro grupo desenvolve estudos a partir de uma substância inspirada no veneno de vespa, com resultados positivos em laboratório para impedir alterações associadas ao Alzheimer.

Pesquisa no Tocantins; estudo da UFT aposta em cuidado não medicamentoso
No Tocantins, a pesquisa também tem buscado alternativas voltadas à qualidade de vida. A geriatra e docente da UFT Paula Fleury Curado desenvolveu uma revisão integrativa sobre o uso da musicoterapia em pacientes com Alzheimer.
O estudo analisou pesquisas nacionais e internacionais e identificou benefício principalmente na fase avançada da doença, especialmente na chamada musicoterapia ativa — quando o idoso escolhe a música e participa da atividade.
“Então a musicoterapia ativa é aquela que pede para o idoso escolher a música que ele deseja. Então ele vai relembrar memórias e tentar voltar essas memórias ativa. E aí a gente percebeu o quanto isso traz benefício para ele em vários sentidos, relembrar memórias afetivas boas, diminuir o estresse, a ansiedade dele, e não só pra ele, né? Pro familiar também”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, a prática contribui para reduzir quadros de agitação, diminuindo a necessidade de medicamentos que podem causar efeitos colaterais. Nas fases iniciais e moderadas, porém, não foram observados benefícios significativos.
Ela também aponta dificuldades estruturais para o avanço científico no estado.
“Quando a gente vai na prática, existem muitas burocracias, faltas de incentivo, tanto em tempo quanto mesmo incentivo financeiro, para que a gente consiga realizar aquela pesquisa e, lógico, sanar aquela dúvida que veio aí à tona”, disse.
Paula destaca ainda que há desinformação sobre doenças crônicas.
“O que a gente percebe é um desconhecimento por parte da população em relação ao início do tratamento precoce, o mais precoce possível, e também aos cuidados necessários. Mas não somente o letramento de saúde da população, mas do próprio sistema de saúde”, afirmou.

Fevereiro Roxo; ciência como resposta às doenças crônicas
Os estudos sobre lúpus, fibromialgia e Alzheimer mostram que, mesmo sem cura, há avanços importantes no controle dos sintomas, no diagnóstico e na melhoria da qualidade de vida.
Pesquisas brasileiras apontaram novas possibilidades para o controle da dor na fibromialgia, estudos identificaram fatores associados à mortalidade no lúpus e investigam possíveis causas da doença, enquanto no Alzheimer há avanços em medicamentos aprovados pela Anvisa, desenvolvimento de exame de sangue para diagnóstico e pesquisas com substâncias inovadoras em universidades públicas.
No Tocantins, a revisão sobre musicoterapia desenvolvida pela UFT reforça que alternativas não medicamentosas também podem contribuir para o cuidado, especialmente nas fases mais avançadas da doença.
O Fevereiro Roxo evidencia que falar de doenças crônicas é também falar de pesquisa. É por meio da ciência que surgem respostas para dúvidas da prática médica, novos caminhos de tratamento e perspectivas de mais qualidade de vida para milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo, pesquisadores apontam a necessidade de maior incentivo e valorização para que esses avanços continuem acontecendo.
Fontes
Jornal da USP (2019)
Pesquisa da USP chega a tratamento inédito para fibromialgia
http://jornal.usp.br/ciencias/pesquisa-da-usp-chega-a-tratamento-inedito-para-fibromialgia/
Notícias UFSC (2021)
Pesquisa da UFSC sobre fibromialgia é capa de revista científica internacional
https://noticias.ufsc.br/2021/07/pesquisa-da-ufsc-sobre-fibromialgia-e-capa-de-revista-cientifica-internacional/
Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal – FAPDF (2025)
Nova pesquisa transforma substância de vespa em possível aliada contra o Alzheimer
https://www.fap.df.gov.br/w/nova-pesquisa-transforma-substancia-de-vespa-em-possivel-aliada-contra-o-alzheimer
Governo Federal / CAPES (2026)
Veneno de vespas pode ser aliado contra o Alzheimer
https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/veneno-de-vespas-pode-ser-aliado-contra-o-alzheimer
Agência Brasil (2025)
Pesquisas brasileiras avançam no diagnóstico de Alzheimer
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-10/pesquisas-brasileiras-avancam-no-diagnostico-de-alzheimer
Exame (2025)
Vírus comum da infância pode ser a causa do lúpus, revela pesquisa
https://exame.com/ciencia/virus-comum-da-infancia-pode-ser-a-causa-do-lupus-revela-pesquisa/
Medicina S/A (2024)
Lúpus; estudo aponta principais causas de morte no Brasil
https://medicinasa.com.br/lupus-mortalidade/
Veja (2024)
Estudo inédito aponta infecção como maior causa de morte entre pacientes com lúpus
https://veja.abril.com.br/saude/estudo-inedito-infeccao-e-maior-causa-de-morte-entre-pacientes-com-lupus/
