Entre grunge, punk e sentimento; Big Marias constrói rock fora do eixo

Formada em Palmas, a banda Big Marias constrói um rock marcado por grunge, punk e experimentações sonoras, com letras guiadas por sentimentos e vivências pessoais. Em entrevista ao Jornal Primeira Página, o trio falou sobre identidade, processo criativo, o lançamento do primeiro álbum e os desafios de fazer música independente fora dos grandes centros.

O grupo é formado por Samia Cayres (guitarra e vocal), Didia (bateria e voz) e Felipe Supernaut (baixo e voz).

Palmas não é pano de fundo, é matéria-prima

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Para a banda, a cidade onde se vive atravessa diretamente o som que se produz. Palmas, segundo os integrantes, influencia desde a atmosfera das músicas até a forma como a banda se organiza artisticamente.

“Todo o trabalho artístico e criativo que a gente desenvolve é permeado pelo lugar onde a gente vive. Palmas influencia a gente não só como pano de fundo, mas como parte do que a gente cria”, afirmou Samia.

Didia reforça que estar fora do eixo tradicional do rock também se transforma em liberdade criativa.

“Por a gente estar fora de onde se espera que uma banda de rock esteja, a gente consegue fazer a sonoridade que quer. Eu escolhi morar em Palmas e isso entra no som, até quando está muito quente ou quando está chovendo”, disse.

Samia Cayres (guitarra e vocal), Didia (bateria e voz) e Felipe Supernaut (baixo e voz) – Foto: Arquivo da banda.

Raízes no underground e fazer tudo com as próprias mãos

A trajetória da Big Marias passa pelo underground. Samia e Didia começaram a tocar ainda no Pará, em Tucuruí, enquanto Felipe soma experiências como músico e produtor, gravando outras bandas da cena local.

“A gente vem do underground. Eu e a Didia tocamos rock por muitos anos, começamos no Pará. O Felipe também tem experiência não só como músico, mas como produtor. Isso molda muito a forma como a gente trabalha”, contou Samia.

Essa vivência se reflete no modo de operação da banda, que assume todas as etapas do trabalho artístico.

“A gente monta palco, carrega equipamento, escreve edital, presta conta, pensa estética, pensa clipe. A banda não tem empresário nem equipe. Tudo passa por nós três”, explicou.

Composição coletiva e músicas guiadas por sentimento

As músicas da Big Marias nascem de forma orgânica. Uma ideia inicial vira ponto de partida para um processo coletivo, que envolve experimentação e troca constante.

“Geralmente alguém aparece com um rascunho, um violão, algo gravado no celular. A partir disso, a gente junta as peças e produz o som que faz sentido naquele momento”, disse Felipe.

Mesmo cantando majoritariamente em inglês, o trio afirma que a prioridade é a emoção transmitida.

“A gente canta em inglês, mas o sentimento precisa estar ali. Mesmo que a pessoa não entenda tudo, ela vai sentir se a música é melancólica ou mais pulsante”, afirmou Didia.

Referências amplas e liberdade estética

As influências da banda passam pelo grunge dos anos 1990, punk, stoner e rock alternativo, com forte presença de bandas lideradas por mulheres. Ao mesmo tempo, o trio consome gêneros diversos, como jazz, MPB, música eletrônica e ritmos percussivos.

“A gente não quer se prender a regras do rock. Vai ter um batuque, um sintetizador, um pedal estranho. O importante é fazer uma boa canção”, disse Felipe.

Para a banda, essa abertura também carrega uma mensagem.

“Existe muito entrave dentro do universo do rock. A gente quer dizer: faz o teu som, com honestidade”, completou.

Do primeiro single ao álbum

O lançamento do primeiro álbum representa um marco na trajetória da Big Marias. O processo começou ainda em 2022, com a gravação de um single de forma independente, em condições experimentais. As músicas foram compostas ao longo de vários anos, até que o grupo decidiu organizar o material em um disco.

“Foi um processo de amadurecimento. Entre um single e um álbum existe uma curva grande. A gente precisou entender o que queria dizer com essas músicas”, explicou Samia.

O álbum foi viabilizado por meio de recursos captados em edital da Lei Paulo Gustavo, via Secretaria de Cultura do Estado.

“O edital foi escrito por nós. Toda a gestão da verba, a prestação de contas, tudo foi feito pela banda. Isso também faz parte do trabalho artístico”, destacou Didia.

Estúdio, palco e o desafio de manter a energia

Para o trio, o palco é o lugar da entrega total, enquanto o estúdio exige outro tipo de atenção. O desafio está em fazer com que a intensidade do show se reflita na gravação.

“No palco você não pode parar. Se algo está errado, você segue e entrega tudo. No estúdio, o desafio é colocar essa mesma energia com qualidade”, explicou Felipe.

Após o lançamento do álbum, a recepção do público passou a influenciar a própria percepção da banda sobre as músicas.

“A gente lançou um single achando que era a cara do disco, mas depois o público começou a gostar mais de outras faixas. Isso é muito interessante”, contou Samia.

Próximos passos

Mesmo com o primeiro álbum recém-lançado, a Big Marias já trabalha em um novo disco, desta vez com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), em âmbito municipal.

“A gente segue fazendo o melhor possível com o que tem. Essa é a realidade da cena independente”, resumiu Didia.

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