Projeto usa acolhimento psicológico para ajudar mulheres a romper ciclos de violência no Tocantins
Em um cenário marcado pelo aumento dos casos de violência contra a mulher, feminicídios e sofrimento psicológico, um projeto criado em Palmas busca oferecer acolhimento, informação e fortalecimento emocional para mulheres em situação de vulnerabilidade. Fundado em março deste ano, o Mulheres que Curam Mulheres utiliza a psicologia como ferramenta de prevenção, transformação e apoio para quem enfrenta dores emocionais, relacionamentos abusivos e adoecimento mental.
A iniciativa foi criada pela psicóloga clínica e hospitalar Geicilane Vale da Silva, que atua na Superintendência de Vigilância em Saúde Ambiental e do Trabalhador da Secretaria Estadual da Saúde. Segundo ela, a ideia surgiu a partir das experiências vivenciadas no consultório e na rede pública de saúde.

“Passei a acolher um volume muito grande de mulheres tomadas por dores profundas. Muitas chegavam quando o sofrimento já estava em estágio crítico. Percebi a necessidade de um espaço coletivo, preventivo e focado na psicoeducação, capaz de atuar antes que essa dor se transformasse em violência ou em situações mais graves”, relata.
Projeto aposta na prevenção e na psicoeducação
Sem vínculos políticos, religiosos ou comerciais, o Mulheres que Curam Mulheres tem como foco a psicoeducação e o fortalecimento integral das participantes.
As ações são realizadas de forma itinerante em Palmas e municípios do entorno, por meio de rodas de conversa, palestras e oficinas voltadas ao desenvolvimento emocional, mental, físico, social e profissional das mulheres. O projeto também passou a realizar transmissões ao vivo para alcançar participantes que residem em outras cidades.
A proposta inclui orientações sobre autoestima, ansiedade, traumas, autocuidado, mercado de trabalho e independência financeira, considerada pela fundadora um dos fatores importantes para romper ciclos de violência.
Dependência emocional e ansiedade estão entre os principais desafios
De acordo com Geicilane, as mulheres atendidas frequentemente apresentam quadros de dependência emocional, ansiedade, depressão e baixa autoestima.
“Muitas chegam sem conseguir identificar que estão vivendo situações de abuso psicológico. Outras enfrentam esgotamento mental, culpa materna e um sentimento constante de desamparo. Em alguns casos, encontramos mulheres com pensamentos autodestrutivos alimentados pelo isolamento e pela sensação de invisibilidade”, explica.
Segundo a psicóloga, esses problemas estão ligados a diversos fatores, entre eles a sobrecarga de responsabilidades, a falta de redes de apoio e a permanência de estruturas sociais que ainda reproduzem desigualdades de gênero.
Psicologia como ferramenta para romper ciclos de violência
Para a especialista, o acolhimento psicológico desempenha papel fundamental na identificação e no enfrentamento de situações de violência.
Ela explica que o processo terapêutico permite que a mulher compreenda os comportamentos abusivos aos quais está submetida e fortaleça sua capacidade de tomar decisões.
“O acolhimento ajuda a mulher a nomear aquilo que está vivendo. Muitas vezes ela acredita que controle, humilhação e desvalorização fazem parte do amor. Quando passa a compreender essas dinâmicas e fortalece sua identidade, consegue construir caminhos para romper ciclos de violência e buscar apoio de forma segura”, afirma.
Resultados já aparecem nos primeiros meses
Embora tenha sido criado recentemente, o projeto já acumula relatos de mulheres que identificaram relacionamentos abusivos, procuraram ajuda jurídica e retomaram planos pessoais interrompidos.
Segundo Geicilane, alguns dos resultados mais significativos estão relacionados à redução da sensação de isolamento e ao fortalecimento da autoestima das participantes.
“Recebemos relatos de mulheres que encontraram no projeto o primeiro espaço onde puderam falar sem medo de julgamento. Outras voltaram a estudar ou começaram a planejar uma nova trajetória profissional. Isso mostra que o acolhimento e a informação podem transformar vidas”, destaca.
Barreiras ainda dificultam acesso à saúde mental
A psicóloga também chama atenção para as dificuldades enfrentadas por mulheres tocantinenses que buscam atendimento psicológico.
Entre os principais obstáculos estão a distância dos serviços especializados, especialmente para quem vive no interior, os custos do atendimento particular e a sobrecarga da rede pública de saúde.
Além disso, ela avalia que o preconceito em relação ao cuidado com a saúde mental ainda afasta muitas mulheres dos serviços disponíveis.
“Ainda existe a ideia de que procurar um psicólogo é sinal de fraqueza ou de loucura. Precisamos quebrar esse tabu e mostrar que cuidar da saúde mental é uma necessidade humana e um direito”, afirma.
Para Geicilane, a principal mensagem do projeto é que o fortalecimento individual pode gerar mudanças coletivas.
“Quando uma mulher cura a si mesma, ela transforma sua família, sua comunidade e ajuda outras mulheres a encontrarem caminhos para também se fortalecerem”, conclui.
