Em entrevista exclusiva, Daniela Arbex relata que Brasil repete tragédias pela cultura da impunidade

Jornalista concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Primeira Página e falou sobre ética, impacto pessoal e novos projetos

Durante sua participação na Festa Literária do Sesc Tocantins (FLISTO), a jornalista e escritora Daniela Arbex concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Primeira Página, em que refletiu sobre a função do jornalismo e da literatura na construção da memória coletiva, além de comentar os desafios de narrar tragédias e violações de direitos humanos.

Com 30 anos de carreira, Arbex destacou que a escrita literária ampliou sua compreensão sobre o papel do jornalista como guardião da memória social. “Se a história não é contada, é como se ela não tivesse existido. Esquecer é negar a história, e quando a gente esquece, repete os erros do passado”, afirmou.

Ética e sensibilidade na escuta

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Ao falar sobre os limites éticos ao narrar histórias dolorosas, a autora de “Holocausto Brasileiro” e “Todo Dia a Mesma Noite” ressaltou a importância de evitar a espetacularização da tragédia. Segundo ela, o compromisso do repórter é ouvir com afeto, respeitando o espaço íntimo de quem compartilha memórias dolorosas. “A memória afetiva é um lugar tão especial que o jornalista só entra se for convidado. Honrar esse espaço significa contar a história de forma digna e responsável”, explicou.

Arbex também falou sobre o impacto pessoal de lidar com narrativas tão traumáticas, como no caso do incêndio da Boate Kiss, tema de um de seus livros mais recentes. Ela contou que o trabalho lhe causou sequelas físicas e emocionais, mas que encontrou força ao compreender o privilégio de ser escolhida como guardiã de memórias. “Quem ouve tem compromisso com a história que ouve. Ouvir não é simplesmente relatar, é assumir responsabilidade com o outro”, destacou.

Brasil ainda repete erros do passado

A escritora avalia que o país ainda não aprendeu com tragédias coletivas. “Se tivéssemos aprendido com Mariana, Brumadinho não teria acontecido. O que mantém a repetição é a cultura da impunidade, na qual autores de crimes que lesam o coletivo não são responsabilizados”, criticou, citando como exemplo os desdobramentos judiciais de casos como a Boate Kiss e o incêndio no Ninho do Urubu, do Flamengo.

Novos projetos

Atualmente, Arbex trabalha na adaptação de Arrastados para uma série documental da Globoplay, com previsão de estreia em 2026. A produção terá seis capítulos e está sendo desenvolvida pela produtora Glass. Além disso, a jornalista participa como artista residente da Unicamp e deve iniciar em breve a escrita de um novo livro.

Sobre Daniela Arbex

Jornalista premiada e referência em narrativas sobre violações de direitos humanos, Daniela Arbex é autora de livros que marcaram a literatura jornalística brasileira, como Holocausto Brasileiro, sobre os horrores do hospital Colônia de Barbacena; Todo Dia a Mesma Noite, que reconstitui a tragédia da Boate Kiss; e Arrastados, sobre o rompimento da barragem de Brumadinho.

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