Dia do Jornalista: o jornalismo está em crise, mas o jornalista enfrenta uma crise ainda maior

Celebrado nesta terça-feira, 7 de abril, o Dia do Jornalista chega em meio a um cenário de transformações profundas na comunicação. Fala-se, há anos, em crise do jornalismo. Mas talvez o diagnóstico mais preciso seja outro: a crise do jornalismo existe, mas a crise do profissional jornalista é ainda mais profunda.

A revolução digital mudou a forma como a informação é produzida, distribuída e consumida. Com a consolidação da internet e o avanço das redes sociais, veículos tradicionais — jornais impressos, rádios, revistas e até a televisão – perderam espaço e, principalmente, receita. A publicidade migrou em massa para plataformas digitais, impulsionada por algoritmos que permitem segmentação precisa e maior alcance.

Esse movimento esvaziou financeiramente redações, reduziu equipes e obrigou empresas de comunicação a reverem seus modelos de negócio. Mas, ao mesmo tempo, abriu novas possibilidades para quem soube se adaptar.

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Nunca houve tantas ferramentas – e tão pouco protagonismo

Hoje, o jornalista tem acesso a um volume de informação nunca antes visto. Portais da transparência, redes sociais, bancos de dados públicos e ferramentas digitais permitem apuração mais rápida e ampla.

A chegada das inteligências artificiais ampliou ainda mais esse cenário, facilitando o cruzamento de dados e a investigação. O que antes levava meses, hoje pode ser feito em questão de horas.

Ainda assim, muitos profissionais não acompanharam essa transformação.

O jornalista deixou de ser o único intermediador da informação, mas não assumiu plenamente o papel de verificador e analista em um ambiente saturado de conteúdos. E, nesse espaço, surgiram novos protagonistas.

Lei amplia atuação do “multimídia” e pressiona ainda mais o jornalista

Outro fator recente reforça esse cenário: a sanção, em janeiro de 2026, da lei que regulamenta o exercício da profissão de multimídia no Brasil.

A norma define o profissional multimídia como alguém apto a atuar em praticamente todas as etapas da comunicação digital – da criação à publicação de conteúdos em texto, áudio, imagem e vídeo, incluindo redes sociais, portais e plataformas digitais.

Na prática, trata-se de uma das regulamentações mais amplas já criadas no campo da comunicação.

Entre as atribuições previstas estão atividades como coleta, pesquisa, avaliação, interpretação e organização de informações, além da produção, edição e disseminação de conteúdos em diferentes formatos – funções historicamente associadas ao jornalismo.

Embora a lei não exclua outras profissões, ela cria um campo de atuação que se sobrepõe diretamente ao trabalho do jornalista.

A regulamentação do multimídia reforça um movimento que já vinha sendo impulsionado pelas redes sociais: a ampliação do número de pessoas atuando na produção de conteúdo informativo.

Se antes o jornalista disputava espaço com influenciadores e criadores digitais, agora essa disputa também passa a ocorrer dentro de uma categoria profissional reconhecida por lei.

O cenário se soma a outro marco importante: a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2009, que retirou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.

O resultado é um campo cada vez mais aberto – e também mais competitivo.

Profissão de resistência e propósito

Para a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Tocantins – Sindjor, Alessandra Bacelar, o momento atual exige mais do que adaptação: exige compreensão do papel do jornalismo em meio ao excesso de informação.

“Ser jornalista hoje é viver em um estado constante de reinvenção. Se antes a corrida era para ser o primeiro a dar a notícia, hoje o nosso propósito é muito mais profundo: somos aqueles que ajudam a entender o que, de fato, é real”, afirma.

Ela destaca que, em meio à desinformação, o jornalismo assume uma função essencial.

“Em um oceano de excesso de estímulos e desinformação, o jornalismo se tornou um filtro ético essencial. Nossa missão não é apenas relatar, mas oferecer o contexto e a profundidade que transformam um post solto em uma rede social em informação ética.”

Segundo a presidente, apesar das dificuldades enfrentadas pela categoria, a função social do jornalista permanece central.

“Embora o prestígio da profissão possa estar sob ataque, nossa função social permanece inabalável. Ocupamos o papel de vigilantes do poder e buscadores da verdade, pilares sem os quais nenhuma sociedade livre pode prosperar.”

Alessandra também chama atenção para o futuro da profissão, que será cada vez mais técnico, mas sem perder sua essência humana.

“O futuro nos pede o domínio da Inteligência Artificial e da análise de dados, tornando a profissão mais técnica. No entanto, é aqui que reside uma bela contradição: quanto mais tecnológicos nos tornamos, mais humanos precisamos ser”, lembra a presidente do Sindjor.

Credibilidade ainda é o diferencial

Com mais de quatro décadas de atuação no jornalismo tocantinense, a jornalista, advogada e fundadora do Jornal Primeira Página, Sandra Miranda, avalia que, apesar das transformações no cenário da comunicação, o papel do jornalista permanece essencial.

“A informação hoje está em todo lugar, mas isso não significa que ela tenha qualidade ou compromisso com a verdade. O jornalista continua sendo aquele que apura, verifica e assume responsabilidade pelo que publica”, afirma.

Ela destaca que o principal desafio da profissão está na capacidade de adaptação sem perder a essência.

“O jornalismo mudou, os formatos mudaram, as plataformas mudaram. Mas a essência não pode mudar. O compromisso com a verdade, com a sociedade e com a ética é o que sustenta a profissão, independentemente do meio.”

Para Sandra, o cenário atual exige mais preparo e responsabilidade do profissional.

“Nunca foi tão fácil produzir conteúdo de qualidade, mas nunca foi tão necessário ter responsabilidade sobre o que se publica. É isso que diferencia o jornalista, dos blogueiros e influenciadores, que não tem formação adequada e não tem compromisso com o que publica, e sim com os likes”.

O Dia do Jornalista chega, portanto, como um convite à reflexão.

A crise do jornalismo não é apenas das empresas. É também do profissional, que precisa se reinventar, dominar novas ferramentas e reafirmar seu papel em um ambiente cada vez mais competitivo.

Mais do que nunca, o jornalismo é necessário. Mas, para isso, o jornalista precisa voltar a ocupar o seu espaço.

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