CRM-TO é contra a instalação do curso de Medicina da UNIRG em Colinas do Tocantins

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Tocantins (CRM-TO) divulgou, nesta terça-feira (7), uma nota oficial em que não aprova a abertura do curso de Medicina da UNIRG em Colinas do Tocantins, após visita técnica às estruturas previstas para funcionamento da unidade. Segundo o conselho, foi constatada falta de condições estruturais mínimas para a implantação de uma escola médica no município.

A manifestação ocorre em meio à expectativa local pela implantação do curso, que vinha sendo apresentada como iniciativa voltada ao desenvolvimento regional, com registros de visitas técnicas e obras em andamento.

Alerta sobre riscos à população e aos estudantes

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Na nota, o CRM-TO alerta que a abertura de novas escolas médicas sem a devida estrutura “põe em risco a população, lesa os possíveis futuros alunos e nem de longe resolve os problemas de saúde do nosso Estado”. O conselho afirma que, mesmo tendo se posicionado de forma contrária junto ao Conselho Estadual de Saúde, o órgão concedeu parecer favorável ao processo, o que foi classificado como agravante.

Expansão do ensino médico no país

Ao contextualizar a situação, o CRM-TO aponta que o Brasil vive, há duas décadas, uma expansão acelerada do ensino médico. Dados do Conselho Federal de Medicina indicam que o país passou de 143 escolas médicas em 2004 para 494 em 2024.

Atualmente, são formados cerca de 44 mil médicos por ano, embora o número de vagas autorizadas já ultrapasse 50 mil. O Brasil ocupa hoje o segundo lugar no mundo em número de escolas médicas, atrás apenas da Índia, que possui cerca de 650 escolas para uma população estimada em 1,4 bilhão de habitantes.

Infraestrutura de saúde e residência médica

Paralelamente à expansão do ensino, o CRM-TO destaca que a infraestrutura de saúde regrediu. Entre 2010 e 2023, o Brasil perdeu mais de 25 mil leitos do SUS, caindo de 335 mil para 309 mil, o que impacta diretamente a formação prática dos estudantes.

No campo da residência médica, as vagas disponíveis atendem a menos de 55% dos egressos, dificultando a qualificação profissional. A bolsa de residência, segundo a nota, caiu de cerca de 3,7 salários mínimos em 2016 para 2,7 atualmente, cenário que contribuiu para o aumento da inadimplência do FIES, que atingiu 62% dos contratos em 2025.

Nesse contexto, o CRM-TO afirma que o argumento da “falta de médicos” para justificar a abertura de novas escolas é infundado, já que o país ultrapassa 600 mil médicos registrados e pode chegar a 1 milhão até 2035. Para o conselho, o problema central está na ausência de planos de carreira que fixem profissionais no interior.

Situação do Tocantins e da UNIRG

No cenário estadual, o Tocantins está entre os estados que mais formam médicos per capita, com cerca de 568 novos profissionais por ano, distribuídos em nove escolas médicas, sendo três públicas e seis privadas. Somando os formados dentro e fora do estado, a média anual chega a 900 novos médicos.

O CRM-TO ressalta que nenhuma das escolas médicas do Tocantins atende integralmente aos pré-requisitos exigidos pelo Ministério da Educação (MEC). No caso específico da Centro Universitário UNIRG, o curso de Medicina obteve nota 01 (Faixa 1 – Insatisfatória) no Conceito Preliminar de Curso (CPC/MEC) em 2023, índice abaixo do mínimo exigido de 3,0, sendo 4,0 a nota recomendada para expansão.

A nota menciona ainda denúncias recorrentes de acadêmicos, com um abaixo-assinado de 350 assinaturas, relatando falta de materiais didáticos e desvio de equipamentos para outras unidades em períodos de vistoria.

Avaliação técnica em Colinas

Após visita às instalações em Colinas do Tocantins, o CRM-TO elencou três pontos principais:

  • Prédio inacabado, impossibilitando qualquer parecer técnico favorável;

  • Hospital Municipal com apenas 70 leitos, número considerado insuficiente para uma escola com previsão de 120 alunos por ano, já que o MEC preconiza cinco leitos por aluno no internato;

  • Ambulatório e Pronto Socorro sem equipe de especialidades completa, o que dificulta a formação de um corpo docente adequado.

O conselho também criticou a proposta de realização de estágios e internatos em cidades vizinhas, como Araguaína, citando a superlotação dos serviços de saúde e os riscos do deslocamento pela BR-153, rodovia com histórico de acidentes graves.

Conclusão do conselho

Na conclusão da nota, o CRM-TO afirma que o Brasil não precisa de novas escolas médicas, mas de políticas de capacitação e fixação de profissionais no interior. O conselho reforça que a UNIRG não possui nota suficiente para manter a qualidade atual, o que inviabilizaria qualquer processo de expansão.

Segundo o órgão, o prédio em Colinas é inexistente e o hospital é inadequado, e a condução do processo de abertura de novas escolas tem ocorrido de forma superficial, colocando estudantes e a saúde da população em risco.

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