Quatro anos após a sequência de crimes que ficou conhecida como “Chacina de Miracema”, a Justiça determinou a prisão preventiva de 23 policiais militares investigados por participação nas execuções que deixaram sete mortos em fevereiro de 2022, em Miracema do Tocantins.
A decisão foi expedida pelo Colegiado de Juízes da 1ª Vara Criminal de Miracema do Tocantins e começou a ser cumprida nesta sexta-feira (8). Os militares se apresentaram no Quartel do Comando-Geral da PM, em Palmas, após acordo entre o Ministério Público do Tocantins (MPTO) e a Polícia Militar.
Entre os investigados estão oficiais de alta patente da corporação, incluindo um tenente-coronel, três majores e um capitão. Segundo a investigação, os policiais teriam participado de ações de monitoramento, sequestro, execução e ocultação de provas.
O caso teve início na noite de 4 de fevereiro de 2022, após a morte do 2º sargento da PM Anamon Rodrigues de Sousa, de 38 anos, durante um confronto em um mandiocal no setor Novo Horizonte II, em Miracema. O policial integrava a Agência de Inteligência da corporação e realizava levantamento de informações para subsidiar uma operação policial.
Horas após a morte do sargento, teve início uma série de assassinatos que se estendeu até o dia seguinte.
Sete mortes em dois dias
Ainda na noite do confronto, Valbiano Alves Marinho da Silva, apontado como suspeito de envolvimento na morte do policial, foi assassinado a tiros em casa.
Na madrugada de 5 de fevereiro, Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano, foram mortos dentro da Delegacia de Miracema após a invasão de cerca de 15 homens armados e encapuzados.
No domingo, outros três corpos foram encontrados no loteamento Jardim Buriti. As vítimas foram identificadas como Aprígio Feitosa da Luz, Gabriel Alves Coelho e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues. Segundo a investigação, os jovens teriam sido sequestrados, torturados e executados. Um quarto jovem sobreviveu.
Oficiais investigados
Entre os policiais militares investigados estão:
- Douglas Luiz da Silva — tenente-coronel e ajudante de ordens do governador;
- Wallas de Sousa Melo — major;
- Yurg Noleto Coelho — major;
- Wilquer Barbosa de Sousa — major;
- Gleiston Ribeiro Pereira — capitão.
Segundo a decisão judicial, o grupo teria atuado de forma coordenada durante diferentes etapas dos crimes.
O tenente-coronel Douglas Luiz da Silva é citado por suposta participação em ações de monitoramento das vítimas e omissão de informações sobre deslocamentos realizados em viatura oficial.
O major Wallas de Sousa Melo aparece nas investigações ligadas à invasão da delegacia. Já o major Yurg Noleto Coelho é apontado como uma das lideranças informais do grupo, suspeito de coordenar equipes e organizar ações posteriores aos crimes.
O major Wilquer Barbosa de Sousa é investigado por suposta manipulação de registros de viaturas, enquanto o capitão Gleiston Ribeiro Pereira teria utilizado veículo em deslocamentos ligados às execuções.
Justiça cita tortura e ocultação de provas
Na decisão, os magistrados afirmam que os crimes representam “grave afronta ao Estado Democrático de Direito” e apontam indícios de execuções sumárias, tortura e fraude processual.
As investigações também apontam possível uso da estrutura pública para a prática dos crimes, incluindo viaturas oficiais, armas e sistemas de comunicação da corporação.
Segundo a Polícia Civil, houve recolhimento de HDs de câmeras de segurança, desligamento estratégico de celulares e indícios de adulteração em sistemas de rastreamento de viaturas.
Além das prisões preventivas, a Justiça determinou:
- afastamento imediato das funções públicas;
- suspensão do porte de armas;
- proibição de acesso a unidades policiais;
- proibição de contato com testemunhas, familiares das vítimas e investigadores.
PM e Casa Militar se manifestam
Em nota, a Polícia Militar informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da PMTO e afirmou que não compactua com desvios de conduta.
“A Polícia Militar do Tocantins reafirma que não compactua com quaisquer desvios de conduta praticados por seus integrantes”, diz trecho da nota.
A Casa Militar também informou que o tenente-coronel Douglas Luiz da Silva foi afastado das funções de ajudante de ordens e das agendas oficiais enquanto o caso é investigado.
O advogado Paulo Roberto, que representa parte dos militares investigados, afirmou que ainda não teve acesso integral à decisão judicial.