Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Tocantins (UFT) acompanha mulheres indígenas da etnia Warao que vivem em Palmas e em outros municípios do estado e aponta dificuldades relacionadas ao acesso à saúde, educação, trabalho e assistência social. Segundo a pesquisadora Soraia Cristina Blank Arraes, 48 mulheres fazem parte do estudo no Tocantins, sendo 22 delas na capital.
Originários da região do Delta do Orinoco, na Venezuela, os Warao chegaram ao Brasil em meio a um processo migratório marcado, entre outros fatores, pela crise socioeconômica venezuelana e por transformações ambientais em seu território de origem. Em Palmas, segundo a pesquisadora, as mulheres passaram a assumir papel central na busca pelo sustento das famílias, ao mesmo tempo em que enfrentam dificuldades de comunicação e adaptação aos serviços públicos.
Soraia é doutoranda em Ciências do Ambiente pela UFT e afirma acompanhar famílias Warao em Palmas desde 2014. O trabalho de campo inclui história oral e cartografia social, além de visitas às famílias. Segundo ela, a pesquisa também alcança mulheres que vivem em outros municípios tocantinenses.
Barreira da língua chega ao trabalho e aos serviços públicos
Uma das principais dificuldades identificadas pela pesquisadora é a comunicação. Segundo Soraia, parte das mulheres acompanhadas fala predominantemente Warao, enquanto algumas das mais jovens possuem maior domínio do espanhol. O conhecimento do português ainda seria restrito entre as participantes da pesquisa.
A dificuldade linguística, segundo ela, interfere desde a busca por emprego até o atendimento em serviços públicos.
Soraia relata o caso de uma mulher de 61 anos, identificada na pesquisa pelo nome fictício de Ana, que conseguiu trabalho em um restaurante em Palmas. Conforme a pesquisadora, ela permaneceu cerca de três semanas no emprego, mas tinha dificuldade para compreender as orientações dadas em português.
“Como sabia muito Warao, pouco espanhol e nada de português, ela conseguiu permanecer apenas três semanas no trabalho”, relatou.
A pesquisadora afirma ainda ter encontrado mulheres realizando trabalhos domésticos de maneira informal. Segundo os relatos colhidos por ela, há casos em que as trabalhadoras teriam recebido cerca de R$ 20 por um dia inteiro de serviço, sem registro formal ou outros direitos trabalhistas.
Soraia também relata ter encontrado indígenas trabalhando em propriedades rurais em condições que considera degradantes e que, na avaliação dela, podem configurar situação análoga à escravidão. A afirmação faz parte dos relatos e observações da pesquisadora e não foi, até o momento, confrontada com eventuais empregadores ou órgãos de fiscalização trabalhista.
Pesquisa relata dificuldades no acesso à saúde
As barreiras de comunicação também aparecem nos relatos sobre atendimento médico. De acordo com Soraia, mulheres Warao acompanhadas pelo estudo enfrentaram dificuldades em unidades de saúde por não conseguirem se comunicar em português e pela ausência de pessoas capacitadas para fazer a mediação linguística e cultural.
A pesquisadora defende que o problema não se limita à tradução das palavras. Para ela, profissionais que atendem essa população precisam compreender também aspectos culturais dos Warao.
“Há falha no atendimento de saúde pública por falta de conhecimento linguístico e conhecimento antropológico e cultural”, afirmou.
Entre os episódios relatados durante a entrevista está o de uma adolescente Warao de 16 anos que, segundo Soraia, teria sido vítima de violência sexual e posteriormente enfrentado problemas durante atendimento hospitalar na gestação. A pesquisadora afirma que a jovem perdeu o bebê e morreu dois dias depois em decorrência de complicações.
O caso narrado pela pesquisadora ainda demanda confirmação independente por meio de registros oficiais e manifestação dos órgãos envolvidos.
Soraia também afirma ter presenciado manifestações preconceituosas durante atendimentos prestados a integrantes da comunidade. Em uma ocasião recente, segundo ela, acompanhou um homem Warao que precisava de atendimento neurológico e ouviu questionamentos sobre a obrigação de atender indígenas venezuelanos.
Crianças enfrentariam dificuldades para entrar na escola
A educação aparece como outro obstáculo apontado pela pesquisa. Segundo Soraia, apenas seis crianças Warao das famílias acompanhadas estariam atualmente inseridas em unidades de ensino, enquanto outras permaneceriam fora da escola.
Entre as dificuldades relatadas estão problemas com documentação e com a compreensão dos históricos escolares emitidos na Venezuela.
A pesquisadora afirma já ter atuado como intérprete para auxiliar crianças Warao durante atividades escolares. Segundo ela, profissionais das próprias unidades relataram não possuir formação específica sobre a língua e a cultura desse povo.
“Não há nenhum preparo dos servidores públicos, estaduais e municipais, para trabalhar com acolhida e respeito das mulheres migrantes Warao”, avaliou.
Soraia também relata situações envolvendo crianças que acompanhavam as mães durante a chamada “coleta”, prática na qual integrantes da comunidade permanecem em locais públicos em busca de alimentos, roupas e outras formas de ajuda.
Segundo a pesquisadora, em uma dessas situações houve intervenção do poder público após denúncias relacionadas à presença das crianças. Ela afirma que crianças chegaram a ser afastadas das famílias e que posteriormente houve atuação para que retornassem aos parentes.
Mulheres assumem protagonismo no sustento das famílias
Apesar das vulnerabilidades identificadas, Soraia chama atenção para um aspecto que considera fundamental para compreender a comunidade: as mulheres Warao não devem ser retratadas apenas como vítimas.
Segundo a pesquisadora, a organização familiar Warao é marcada por uma estrutura matrilocal. Tradicionalmente, após o casamento, o homem passa a integrar o núcleo familiar da mulher. Com a migração, porém, a dinâmica econômica dessas famílias sofreu alterações.
Soraia afirma que, em diversos casos acompanhados, são as mulheres que chegam primeiro às cidades brasileiras acompanhadas dos filhos menores e de pessoas idosas. Elas passam a buscar meios de garantir a sobrevivência da família e posteriormente auxiliam parentes que permanecem na Venezuela.
Parte do que conseguem, segundo a pesquisadora, é compartilhada com familiares que ficaram no país de origem.
As mulheres também continuam produzindo artesanato, redes, cestos e peças feitas com miçangas. A atividade representa, além de uma possibilidade de renda, uma forma de preservar elementos culturais durante o processo migratório.
“São elas que tomam a decisão de quem vai fazer a coleta junto com elas, de quem vai ficar, e elas que são as provedoras”, afirmou Soraia.
Pesquisadora defende capacitação de servidores
Para reduzir as barreiras encontradas pela população Warao, Soraia defende a criação de políticas públicas que considerem não apenas a condição migratória, mas também as especificidades indígenas, linguísticas e culturais desse povo.
Entre as propostas está a formação de servidores públicos para compreender aspectos da língua Warao, da organização social, da alimentação, da religiosidade e da cultura da etnia.
Segundo a pesquisadora, uma proposta de capacitação de agentes públicos foi apresentada com o objetivo de alcançar localidades tocantinenses onde há presença de famílias Warao, começando por Palmas, foco principal da pesquisa.
Para Soraia, a ausência dessa mediação contribui para que direitos existentes formalmente se tornem mais difíceis de acessar na prática.
“A questão principal é a invisibilidade social, porque elas passam por uma falta de reconhecimento total”, afirmou.
A pesquisadora defende que o atendimento às famílias deixe de ser baseado apenas em respostas emergenciais e passe a considerar a autonomia das mulheres e a preservação da identidade Warao.