Oncologia do HGP perde médicos, enfrenta falta de remédios e registra alta de 80% nos óbitos

Documentos obtidos pelo Jornal Primeira Página revelam que a assistência oncológica no Hospital Geral de Palmas (HGP) enfrenta um cenário considerado crítico, marcado pela saída de profissionais especializados, falta de medicamentos, aumento no tempo de espera por consultas e crescimento nos índices de internações e óbitos. Os relatórios foram encaminhados ao Ministério Público do Tocantins (MPTO) no âmbito do acompanhamento da transferência dos serviços de oncologia para o Hospital de Amor.

Segundo o documento apresentado pela Coordenação do Serviço de Oncologia do HGP, pacientes que necessitam de consultas de retorno para avaliação de exames, monitoramento da resposta ao tratamento e acompanhamento clínico estão enfrentando espera média de aproximadamente 60 dias. A unidade atribui a situação à redução do quadro de oncologistas nos últimos meses.

De acordo com o relatório, dois médicos oncologistas deixaram o serviço nos últimos três meses e outros dois profissionais têm desligamento previsto para junho deste ano. A redução da equipe representa perda estimada de cerca de 130 consultas ambulatoriais por semana, sem que tenha ocorrido a reposição integral dos profissionais.

Transição para o Hospital de Amor

As dificuldades enfrentadas pelo HGP ocorrem em meio ao processo de transferência dos serviços oncológicos para o Hospital de Amor, em Palmas.

Em audiência conduzida pela promotora de Justiça Araína Cesárea Ferreira Santos D’Alessandro, representantes da SES e do Hospital de Amor definiram cronogramas para a implantação gradual dos atendimentos. Conforme a ata da reunião, a integração da unidade ao sistema estadual de regulação está prevista para ocorrer em junho, enquanto as consultas de primeira vez devem começar em 25 de junho. A absorção dos pacientes que já realizam tratamento no HGP está prevista para iniciar em 25 de julho.

O Ministério Público acompanha o processo e estabeleceu uma série de prazos para apresentação de relatórios, definição de fluxos de atendimento e esclarecimentos sobre o aumento das internações e dos óbitos registrados no serviço de oncologia do HGP.

Internações e óbitos

Os dados encaminhados ao MPTO apontam crescimento significativo nos indicadores assistenciais da oncologia.

Entre abril e maio de 2025 foram registradas 27 internações relacionadas a intercorrências clínicas de pacientes oncológicos e cinco óbitos. No mesmo período de 2026, os números saltaram para 43 internações e nove óbitos. Isso representa aumento de 59,3% nas internações e de 80% nos óbitos.

Embora o próprio relatório ressalte que os óbitos são influenciados por diversos fatores, a coordenação do serviço destaca que o aumento das internações coincide com a redução da capacidade de acompanhamento ambulatorial dos pacientes.

O documento afirma ainda que a ampliação do tempo de espera para consultas reduziu a frequência de monitoramento dos pacientes em tratamento, dificultando a identificação precoce de complicações e agravamentos clínicos.

Falta de medicamentos

Outro problema relatado ao Ministério Público é o desabastecimento de medicamentos utilizados tanto no tratamento oncológico quanto no suporte aos pacientes.

Entre os medicamentos oncológicos em falta estão Carboplatina, Clorambucila, Docetaxel, Doxorrubicina, Enzalutamida, Gosserrelina e Ifosfamida. Já entre os medicamentos de suporte aparecem Aciclovir, Dexametasona, Morfina, Metadona, Gabapentina, Ondansetrona, Omeprazol e Prednisona, entre outros.

Durante audiência realizada pelo MPTO, a Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO) informou que parte do desabastecimento está relacionada a problemas em processos licitatórios e se comprometeu a apresentar um cronograma de regularização dos estoques.

Risco de impacto na quimioterapia

O relatório também aponta preocupação com a saída de profissionais da farmácia oncológica e da enfermagem.

Segundo a coordenação, a perda de farmacêuticos habilitados para a manipulação de quimioterápicos poderá comprometer a capacidade operacional do serviço. O documento menciona que, caso não haja reposição de pessoal, medidas como redução temporária da oferta de sessões de quimioterapia ou concentração dos atendimentos em períodos específicos poderão precisar ser avaliadas.

O que diz a SES

Em nota ao Jornal Primeira Página, a Secretaria de Estado da Saúde informou que a contratação do Hospital de Amor para a prestação dos serviços de atenção oncológica na macrorregião centro-sul foi aprovada pelo Conselho Estadual de Saúde e alinhada com os órgãos de controle.

Segundo a Pasta, a medida permitirá a oferta de atendimento moderno, abrangendo procedimentos ambulatoriais e hospitalares, além da implementação de todas as especialidades oncológicas, com o objetivo de reduzir a necessidade de encaminhamento de pacientes para outros estados.

A SES afirmou ainda que o processo de transição é conduzido de forma a garantir a continuidade dos atendimentos, sem interrupções aos pacientes, e que realiza monitoramento contínuo dos estoques de medicamentos oncológicos para assegurar a regularidade do abastecimento.

Sobre os dados apresentados durante a audiência do MPTO, a Secretaria informou que os indicadores serão objeto de análise técnica, considerando a complexidade dos casos, o perfil epidemiológico dos pacientes e os fluxos regulatórios adotados na rede.

Hospital de Amor

O Jornal Primeira Página entrou em contato com o Hospital de Amor para questionar sobre a estrutura disponível, os serviços atualmente em funcionamento e a capacidade da unidade para absorver a demanda da oncologia estadual. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.