Engenheiro especialista afirma que pontes como a de Pedro Afonso deveriam ter vida útil de até 100 anos

A interdição da Ponte Prefeito Leôncio Miranda (avô do ex-governador Marcelo Miranda) entre Pedro Afonso e Tupirama, na BR-235, reacendeu o debate sobre manutenção de pontes no Brasil e levantou questionamentos sobre as condições estruturais da obra inaugurada há menos de 20 anos no Tocantins.

Construída durante o governo Marcelo Miranda ao custo de quase R$ 100 milhões, a ponte, que é federal por fazer parte de um trecho da rodovia federal administrada e fiscalizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), foi totalmente interditada na última quarta-feira, 20 de maio, após equipes técnicas identificarem fissuras, trincas e sinais de subsidência na estrutura. A ponte foi inaugurada com uma grande festa em 21 de dezembro de 2007.

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Para o engenheiro civil e engenheiro de segurança do trabalho Fábio Ribeiro, doutor em Ciências do Ambiente, mestre em Engenharia Civil e especialista em patologia das estruturas e tecnologia do concreto, uma ponte desse porte deveria ter vida útil muito superior aos 18 anos atuais da estrutura.

Segundo o professor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), a norma brasileira prevê vida útil mínima de 50 anos para estruturas de concreto armado. No caso de pontes, porém, o período projetado costuma ser ainda maior devido ao alto impacto econômico e social dessas obras.

“Como as pontes são obras de extrema importância e de custo muito elevado, os projetistas costumam trabalhar com vida útil entre 75 e 100 anos”, explicou ao Jornal Primeira Página.

Engenheiro civil e de segurança do trabalho Fábio Ribeiro

De acordo com o engenheiro, uma ponte desse porte não deveria precisar de uma interdição estrutural severa antes mesmo de completar duas décadas de funcionamento.

“Uma ponte com menos de 20 anos não é para ter problemas estruturais que levem à sua interdição completa por um longo período”, afirmou.

Fábio Ribeiro explicou ainda que fissuras e trincas em elementos estruturais nunca são consideradas normais dentro da engenharia.

“Fissuras e trincas nunca são normais. Elas são classificadas como manifestações patológicas, ainda mais quando aparecem em elementos estruturais”, afirmou.

Segundo ele, o grau de risco depende das causas, da profundidade e da localização dos danos identificados na estrutura.

Falta de manutenção

O especialista afirmou que a ausência de manutenção preventiva em pontes é um problema recorrente no Brasil.

“O grande problema é que no Brasil simplesmente não se faz manutenção de pontes. Espera-se acontecer uma tragédia para que as coisas comecem a andar”, disse.

Ele citou como exemplo o desabamento da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, entre Tocantins e Maranhão, e também o caso da antiga ponte de Porto Nacional, que precisou ter o tráfego de caminhões interrompido antes da construção de uma nova estrutura.

Segundo Fábio Ribeiro, problemas estruturais podem ter diferentes causas, incluindo falhas de projeto, erros de execução, uso inadequado de materiais ou ausência de manutenção periódica.

Interdição preventiva

Apesar das preocupações, o engenheiro afirmou que ainda não é possível concluir se existe risco iminente de desabamento na ponte entre Pedro Afonso e Tupirama.

Segundo ele, as informações divulgadas até agora indicam uma interdição preventiva para permitir uma avaliação mais detalhada da estrutura.

“O que eu entendi é que essa interdição agora é preventiva, justamente para fazer uma análise mais detalhada e não correr nenhum tipo de risco”, afirmou.

O especialista explicou que apenas uma perícia técnica detalhada poderá indicar a gravidade dos danos e definir quais medidas serão necessárias.

“Só após um diagnóstico técnico será possível saber quais intervenções precisam ser feitas, quanto tempo isso vai levar e qual será o custo da recuperação”, disse.