A interdição da Ponte Prefeito Leôncio Miranda, que é federal por fazer parte de um trecho da rodovia federal BR-235, administrado e fiscalizado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), já provoca preocupação entre produtores rurais, cooperativas e entidades do agronegócio do Centro-Norte do Tocantins. Construída durante o governo Marcelo Miranda ao custo de quase R$ 100 milhões, a estrutura ainda não completou 20 anos desde a inauguração, realizada em dezembro de 2007.
Segundo representantes do setor, o bloqueio afeta diretamente a saída da safra de soja, a colheita do milho safrinha, o transporte de fertilizantes e até operações ligadas à produção de biodiesel.
Em entrevista ao Jornal Primeira Página, a presidente do Sindicato Rural de Pedro Afonso e Região (Sirpar), Simoni Sandri, afirmou que a situação gera insegurança econômica e logística em um dos principais polos agropecuários do estado.
“Hoje nós ainda temos cerca de 60% da produção de soja para ser escoada. Agora começa também a colheita do milho safrinha e precisamos liberar espaço nos armazéns. É uma cadeia inteira sendo afetada”, afirmou.
Balsas preocupam setor
A principal preocupação do agronegócio envolve a capacidade operacional das balsas prometidas como solução emergencial pelo Governo do Tocantins e pelo DNIT.
Segundo Simoni, existe receio de que as embarcações não consigam atender à demanda de caminhões pesados durante o período seco, quando o nível do Rio Tocantins diminui.
“Agora no período seco as comportas são fechadas e o rio baixa muito. Existe preocupação se essas balsas vão conseguir suportar o fluxo e transitar normalmente”, disse.
Ela citou ainda problemas registrados recentemente na Ponte Transaraguaia, entre Tocantins e Pará, onde balsas chegaram a encalhar devido às condições do rio.
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Impacto econômico
A presidente do sindicato afirmou que os prejuízos atingem não apenas produtores rurais, mas toda a economia regional.
Além da soja e do milho, a interdição afeta o escoamento de biodiesel produzido pela BP Bioenergia, antiga Bunge, instalada na região de Pedro Afonso.
“A BP está em plena colheita de cana e todo o escoamento do biodiesel era feito pela ponte para chegar até a ferrovia”, explicou.
Segundo Simoni, o aumento das distâncias também deve elevar os custos logísticos da produção agrícola.
“Hoje um dos maiores gargalos do agronegócio chama-se frete. Com esse desvio aumentando mais de 120 quilômetros, o custo sobe ainda mais”, afirmou.
A preocupação também envolve a chegada de fertilizantes, sementes e insumos necessários para o plantio da safra 2026/2027, previsto para começar nos próximos meses.
Estradas precárias
Outra preocupação do setor envolve as rotas alternativas utilizadas após a interdição da ponte.
Segundo produtores, boa parte dos desvios depende de estradas de terra e pontes antigas de madeira construídas ainda no período em que o Tocantins fazia parte do estado de Goiás.
“As estradas até conseguem manutenção rápida, mas as pontes são antigas, de madeira, e não foram preparadas para suportar um fluxo tão intenso de caminhões pesados”, afirmou Simoni.
Conecta Agro cancelada
O cenário de dificuldades econômicas e logísticas também impactou eventos do setor. O Sindicato Rural de Pedro Afonso anunciou o cancelamento da edição 2026 da Conecta Agro, feira prevista para ocorrer em junho.
Em nota oficial, a entidade informou que a decisão foi tomada diante do atual cenário de instabilidade econômica enfrentado pelo agronegócio brasileiro.
Segundo Simoni Sandri, a crise logística provocada pela interdição da ponte agravou ainda mais a situação.
“A gente conseguiu avançar muito em tecnologia e produção por causa da ponte. Agora estamos vivendo um retrocesso”, afirmou.
Setor cobra solução
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (Faet) informou que acionou a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para acompanhar o caso e cobrar soluções emergenciais junto ao Governo Federal.
Segundo a entidade, mais de 100 carretas utilizavam diariamente a ponte para transporte de grãos, insumos e mercadorias.
A expectativa do setor é que o DNIT apresente rapidamente uma solução capaz de garantir segurança estrutural e reduzir os impactos econômicos provocados pela interdição da travessia.