Documentário sobre estudantes indígenas do Tocantins vence prêmio de melhor trilha sonora em festival nacional

O documentário tocantinense “Da Aldeia à Universidade” conquistou mais um reconhecimento no cenário audiovisual brasileiro. A produção venceu o prêmio de Melhor Trilha Sonora na 30ª edição do Festival Audiovisual de Pernambuco (Cine-PE), um dos mais tradicionais e prestigiados festivais de cinema do país.

Dirigido por Leandro de Alcântara e Túlio de Melo, o filme retrata os desafios enfrentados por estudantes indígenas ao deixarem suas aldeias para ingressar no ensino superior. A trilha sonora premiada foi composta por Heitor Martins Oliveira, com participação dos músicos Gina Arantxa Arbeláez, Alfredo Cobo e John Jairo Gómez.

Filme acumula premiações pelo Brasil

Lançado em 2025, o documentário já soma mais de 40 seleções oficiais e 17 premiações em festivais nacionais e internacionais. Entre os destaques está a participação premiada no tradicional Festival de Cinema de Gramado.

A obra tem como protagonistas os indígenas Srowasde Xerente e Krtadi Xerente e contou ainda com direção de fotografia de Keven Lopes, produção de Getúlio Barros de Melo, assistência de produção de Djalmir Senna e edição de som e mixagem de Frederico Garibaldi.

Romário Srowasde Xerente também atuou como assistente de direção, contribuindo para que a narrativa fosse construída a partir da perspectiva indígena.

História nasceu dentro da universidade

Em entrevista ao Jornal Primeira Página, os diretores explicaram que a ideia surgiu durante a graduação em Filosofia, quando observaram as dificuldades enfrentadas por estudantes indígenas para permanecer nos cursos universitários.

Segundo Túlio de Melo, dados da Universidade Federal do Tocantins (UFT) mostravam que apenas oito estudantes indígenas haviam concluído a graduação desde a implantação do sistema de cotas.

 Foto: Reprodução/Mari Silva.

“Foi a partir dessa realidade que decidimos documentar essa trajetória”, explicou Leandro de Alcântara.

Narrativa é contada pelos próprios indígenas

Um dos diferenciais da produção é o protagonismo indígena na construção da narrativa.

Segundo Leandro, embora a equipe tenha oferecido suporte técnico, a proposta sempre foi permitir que a história fosse contada por quem vive essa realidade.

“Esse é um filme de um indígena contando sua própria história. Essa autenticidade é o que tem sensibilizado o público”, afirmou.

A participação de Sandra Xerente, esposa de Romário e estudante de Geografia da UFT, também ganhou destaque no documentário ao relatar as dificuldades de conciliar a vida acadêmica com a permanência na aldeia.

Filme denuncia falta de políticas de permanência

Além de acompanhar trajetórias pessoais, o documentário aborda a falta de políticas públicas voltadas à permanência de estudantes indígenas no ensino superior.

Para Túlio de Melo, garantir apenas o acesso à universidade não resolve o problema.

“Existe a cota, mas não basta garantir a entrada. É preciso criar mecanismos para que esses estudantes consigam permanecer e concluir seus cursos”, destacou.

Por essa razão, o filme foi gravado integralmente dentro da aldeia, evidenciando a conexão dos estudantes com suas comunidades de origem.

Impacto entre estudantes indígenas

A primeira exibição pública ocorreu em março deste ano, no Cine Cultura, em Palmas.

Segundo os diretores, a recepção emocionou o público. Uma estudante indígena chegou a relatar após a sessão que havia desistido da ideia de abandonar a graduação depois de assistir ao documentário.

“O cinema tem essa capacidade de transformar realidades e inspirar pessoas”, destacou Túlio.

Próximo destino é o streaming

Atualmente, o documentário segue em circulação por festivais, etapa que deve durar cerca de dois anos.

Após esse período, a expectativa é que a obra seja disponibilizada em plataformas de streaming, repetindo o caminho de outras produções da dupla, como o documentário “Invisibilidade”, já exibido pelo Canal Brasil.

Para os diretores, cada prêmio representa também um reconhecimento ao audiovisual produzido no Tocantins.

“Quando subimos ao palco, fazemos questão de lembrar que o Tocantins existe e produz cinema de qualidade”, afirmou Leandro.