Tarifaço dos EUA pode ter reflexos no Tocantins; entenda por que o agronegócio exige atenção
A nova tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, anunciada nesta quarta-feira (15), após o governo americano encerrar uma investigação comercial do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), pode afetar indiretamente o Tocantins. O estado, com fortes raízes econômicas no agronegócio, embora exporte mais para a China, precisa manter o monitoramento dos possíveis impactos.
A investigação da USTR concluiu que o Brasil adota práticas que restringem o comércio norte-americano. Entre elas está o PIX, apontado como uma prática comercial “desleal” por desfavorecer empresas financeiras americanas, que perderam mercado para uma infraestrutura pública gratuita criada para democratizar o acesso aos serviços financeiros e reduzir custos para empresas brasileiras e pequenos negócios.
Com essa justificativa, a USTR classificou o modelo brasileiro como desonesto por não favorecer empresas americanas. A taxação, porém, também pode ser ser prejudicial aos Estados Unidos, que dependem da importação de produtos brasileiros como café, mel, peixes e crustáceos, carne bovina, legumes, mandioca, cereais e vacinas. Por esse motivo, esses produtos ficaram de fora do tarifaço, evitando impactos para o próprio mercado norte-americano.
Estão na lista de produtos tarifados o etanol, máquinas agrícolas, vestuário, maquinário elétrico, calçados, bens de capital, manufaturados em geral e diversos produtos químicos, entre outros.
Ao ser entrevistado pelo Jornal Primeira Página, o doutor em Agronomia William Dias afirmou que os impactos podem ir além das exportações, atingindo a logística, o transporte, a armazenagem, a indústria fornecedora de insumos, os serviços financeiros e regiões fortemente dependentes do comércio exterior. Além disso, segundo ele, um ambiente de maior incerteza pode adiar investimentos e reduzir o ritmo da atividade econômica.
No Tocantins
Os principais produtos exportados pelo Tocantins são a soja, o milho e a carne bovina. Como esses itens ficaram de fora da lista de produtos tarifados pelos Estados Unidos, o cenário imediato é considerado mais favorável para o estado.
Segundo o doutor em Economia William Dias, isso não significa que o Tocantins esteja totalmente imune aos reflexos da medida. Ele explica que, caso alguns setores da economia brasileira desacelerem em razão das novas tarifas, pode haver redução nos investimentos, na demanda por transporte, crédito e serviços em diferentes regiões do país.
“Mesmo estados com menor exposição direta ao mercado norte-americano podem sentir efeitos sobre o crescimento econômico, a arrecadação e a geração de empregos, ainda que de forma limitada”
Agronegócio no Tocantins
Para o economista, o agronegócio é o setor que merece maior atenção diante das incertezas no comércio exterior. “O setor que merece maior acompanhamento é o agronegócio, especialmente os segmentos que dependem da dinâmica do comércio internacional. Também vale observar empresas ligadas ao transporte de cargas, armazenagem e processamento agroindustrial, porque são atividades sensíveis às mudanças no fluxo de exportações.”
William Dias ressalta que o Tocantins tende a sofrer menos impactos diretos porque a maior parte da soja produzida no estado tem como destino a China, principal compradora do produto brasileiro. “Essa diversificação geográfica ajuda a reduzir a exposição direta do Tocantins às medidas americanas. Como a China é o principal comprador da soja brasileira, o estado fica relativamente protegido nesse aspecto. Ainda assim, o mercado global é integrado, e alterações nos fluxos comerciais podem influenciar os preços internacionais.”
Além disso, a manutenção da carne bovina entre os produtos isentos da nova tarifa reduz significativamente os riscos imediatos para a pecuária. Segundo o economista, a exclusão da carne bovina da lista de produtos tarifados preserva um dos principais itens da pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos.
“Isso reduz bastante os riscos de curto prazo. A carne bovina é um dos principais produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos e sua exclusão evita uma perda imediata de competitividade. Isso não elimina todos os riscos, porque o cenário internacional permanece incerto, mas preserva um segmento importante do agronegócio brasileiro”, explicou.
Cenário pode mudar
Apesar do cenário considerado favorável neste momento, o economista alerta que a situação pode mudar caso haja ampliação das medidas comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo ele, os primeiros sinais de alerta para o agronegócio seriam uma queda consistente nos preços internacionais das mercadorias, redução das compras por grandes importadores, aumento dos estoques internos, queda dos prêmios de exportação nos portos e piora dos custos logísticos ou do câmbio.
“No caso específico do Tocantins, eu acompanharia principalmente três fatores: o comportamento da demanda chinesa por soja, a evolução das exportações brasileiras de carne bovina e a eventual inclusão de novos produtos agrícolas nas tarifas americanas. Hoje, esses três pontos continuam relativamente favoráveis, razão pela qual o estado permanece mais protegido do que outras regiões mais dependentes do mercado norte-americano.”
Para William Dias, ainda não há motivo para alarme. A recomendação é que os produtores mantenham o planejamento normal da safra, mas acompanhem atentamente os desdobramentos das negociações internacionais.
“Em economia, mudanças no comércio exterior podem ocorrer rapidamente, e quem monitora os sinais com antecedência consegue se adaptar melhor”, concluiu.

