SINOPSE — “Hamnet” e a arte que nasce do indizível

Como alguém que acompanha o cinema a muito tempo, confesso, “Hamnet: a vida antes de Hamlet” me pegou de um jeito raro. Não pelo impacto fácil, mas pela inteligência emocional e formal com que Chloé Zhao escolhe filmar o depois. O longa poderia tropeçar no melodrama ilustrado da perda de um filho, mas prefere, com coragem, observar como o luto reorganiza o mundo, os gestos, o casamento e a própria linguagem. Aqui, a dor não vira discurso, ela causa movimento.

Zhao constrói uma narrativa que não se ancora no choque da morte, mas na insistência da vida quando algo tão essencial se vai. É um cinema de percepção, de silêncios ativos, de imagens que não pedem permissão para adentrar a alma. A pergunta não é “o que aconteceu?”, e sim “o que sobra depois?”. E o que sobra, em Hamnet, é a urgência de transformar o indizível em arte.

No centro desse caos está Agnes, interpretada por Jessie Buckley com uma entrega que beira o assombro. Buckley sustenta a personagem como quem carrega terra, vento e febre no corpo. Há nela uma ligação cósmica com a natureza, reforçada pelo traço místico da personagem, que antecede a compreensão humana da perda. O mundo natural parece entender antes aquilo que as palavras ainda recusam. Agnes não performa o luto, ela o habita, na pele, no olhar e na recusa ao consolo fácil.

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Do outro lado, Paul Mescal encarna William Shakespeare sem o verniz do “gênio em formação”. Seu Will é um homem tentando sobreviver ao irreparável. Enquanto Agnes vive a dor com o corpo, ele tenta atravessá-la com palavra. Não há certo ou errado, há somente distância. E é dessa distância que nasce a tensão mais honesta do filme.

A peste atravessa a vila e leva Hamnet, o filho do casal. O luto se instala. Em resposta simbólica a isso, Will escreve Hamlet. A peça não espelha a tragédia doméstica, mas a transforma. O filme jamais se interessa em “explicar Hamlet”. Sua ideia é transmutar o olhar. A obra que parecia falar de vingança e traição passa a carregar uma camada secreta feita de silêncio e ausência.

Em vez de converter Hamnet em personagem direto, Zhao trabalha com ecos, desejos, gestos, imagens que se infiltram na dramaturgia sem pedir licença. O que vemos aqui é um exercício magistral de encenação e découpage em que cada escolha de enquadramento, duração do plano e movimento de câmera participa ativamente da construção do sentido.

Durante todo o filme a direção alterna quadros abertos, longos e estáticos  (sobretudo em interiores) com uma câmera mais móvel nos instantes de felicidade e contato. Essa dinâmica não é capricho, ela materializa estados de espírito dos personagens onde o rigor formal enclausura e o movimento exorciza. Portas e janelas atravessam o quadro, subenquadrando corpos e reafirmando o isolamento.

Em contrapartida, nos momentos de afeto, a câmera na mão se aproxima. A natureza, filmada com ternura e espiritualidade, jamais cai no idílico caricato. A floresta é refúgio e origem. A trilha em vocalise cria uma ressonância quase divina, enquanto a fotografia alterna verdes vibrantes, azuis acinzentados e dourados domésticos que convivem com a penumbra.

A direção de arte e os figurinos ampliam o sentido, Agnes veste vermelhos, enquanto Will habita azuis intelectuais. O contraste visual antecipa o emocional e o cotidiano da família é filmado com delicadeza teatral com planos fixos e diálogos simples que criam intimidade.

Buckley explode quando precisa e, ao mesmo tempo, sustenta uma serenidade grave que impede o excesso. O corpo dela é linguagem, onde a dor física encontra a emocional sem amarras. Mescal responde com outra cadência, sendo mais reativo, menos expansivo, mas igualmente dilacerado. Vulnerabilidade e resiliência se misturam no gesto contido. Ambos constroem personagens que não pedem por empatia, eles a impõem.

O filme alcança seu clímax metalinguístico na encenação de Hamlet. Aqui, Hamnet revela-se um robusto culto à dramaturgia onde pathos, catarse e mímesis operam em conjunto. Agnes assiste à peça tomada pelo reconhecimento transcendente. A vida, reorganizada pela arte, retorna como beleza. O luto, finalmente dividido, encontra plateia.

Quando Will interpreta o fantasma do pai do príncipe, o adeus que não foi dado ganha forma. Não há pedido de desculpas maior do que eternizar um nome, a sequência é de tirar o fôlego. A escalação que aproxima o ator do filho perdido amplia a ferida e, paradoxalmente, a cura. Agnes estende a mão e a plateia acompanha. O coração se abre. A arte não devolve ninguém, mas dá sentido ao sofrimento.

No epílogo, ouvimos que “Hamnet e Hamlet são a mesma coisa”. Não porque se confundam, mas porque se dobram um no outro. Ainda assim, o centro é Agnes. É ela a verdadeira biografada.

Hamnet é profundamente biográfico justamente por implodir o gênero: vida e obra se duplicam, micro e macrocosmo se encontram, emoções internas ganham forma externa. No fim, o riso de Agnes e as imagens do filho dizem tudo. Depois de corpo, natureza e dor virarem arte, a vida, quem diria, também pode ser.

“Hamnet: a vida antes de Hamlet” não é um drama de época confortável, nem um filme “sobre Shakespeare”. É sobre o que sobra quando algo essencial vai embora. Sobre a coragem de fazer forma do silêncio. E, como sussurra o diagnóstico final, o resto é silêncio.

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