85,3% das pessoas trans em Palmas já sofreram violência ou discriminação
A Prefeitura de Palmas divulgou, na noite desta quarta-feira (28), os dados preliminares do CensoTrans Palmas, levantamento voltado ao mapeamento das condições de vida da população transexual e não binária no município. A apresentação ocorreu no Espaço Cultural José Gomes Sobrinho e revelou que 85,3% das 76 pessoas participantes afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência ou discriminação na Capital.
De acordo com os dados, a violência verbal é a ocorrência mais frequente, relatada por 65,3% das pessoas, principalmente em espaços públicos ou privados (64%). Também foram mencionadas violência psicológica (44%), física (24%) e sexual (21,3%). O levantamento mostra ainda que 81,3% não se sentem seguras de forma constante em Palmas e 70,7% não se sentem seguras para denunciar as violências sofridas. Entre as respondentes, 77,4% afirmam não considerar o núcleo familiar como uma rede de apoio plena.
O CensoTrans foi desenvolvido sem custos diretos ao orçamento municipal, com apoio de organizações e ativistas locais, e permanece aberto para participação da comunidade.
Escolaridade, trabalho e saúde
Os dados indicam que mais de 60% das pessoas participantes concluíram o ensino médio ou tiveram acesso ao ensino superior e à pós-graduação. Por outro lado, 36% apresentam trajetória educacional incompleta, apontando interrupções associadas a barreiras estruturais, discriminação e dificuldades de permanência no ambiente escolar.
No recorte de trabalho e renda, 46,1% informaram estar inseridas no mercado formal. Ainda assim, 61,3% declararam viver com até um salário mínimo ou sem renda. Na área da saúde, pouco mais da metade afirmou conseguir acesso aos serviços quando necessário, enquanto quase 50% relataram dificuldades ou impossibilidade de atendimento. O uso dos serviços ocorre majoritariamente em situações emergenciais: 51,4% procuram atendimento apenas em casos de urgência, o que indica baixa vinculação à atenção básica e ausência de acompanhamento contínuo.
“É muito importante para a gente fortalecer a comunidade trans, debater pautas e, principalmente, direcionar essas políticas para atingir quem mais precisa dessa proteção”, pontuou o professor Cássio Alexandre Bernardelli, homem trans e professor da rede pública.
O titular da Secretaria Extraordinária de Igualdade Racial e Direitos Humanos (Seirdh), José Eduardo de Azevedo, afirmou que os dados evidenciam desafios persistentes. “Esses apontamentos nos mostram que ainda existem barreiras concretas de proteção, acesso e confiança institucional que precisam ser enfrentadas com política pública e ação integrada. A Secretaria Extraordinária de Igualdade Racial e Direitos Humanos (Seirdh) tem buscado ampliar o diálogo e a formação para reforçar o respeito à identidade de gênero e ao nome social em todos os atendimentos. Desde o ano passado, construímos uma articulação consistente com a Guarda Metropolitana de Palmas, participando ativamente da elaboração do novo Procedimento Operacional Padrão (POP) para o atendimento de pessoas LGBT, o que representa um avanço prático na garantia de direitos e no cuidado com a população trans na Capital”, afirmou.
Encaminhamentos
Durante a apresentação, a Seirdh informou que os dados preliminares vão subsidiar ações de curto, médio e longo prazo. Entre os encaminhamentos anunciados estão a publicação de portaria municipal para uso obrigatório do nome social, emissão de nota técnica intersecretarial sobre atendimento à população trans, criação de canal de escuta específico, instituição de grupo de trabalho intersecretarial, realização de mutirões informativos, formação de servidores públicos, fortalecimento do ambulatório trans, criação de rodas de apoio mensais, articulação de ações de empregabilidade, inclusão de demandas no PPA e na LOA e preparação de projetos para captação de recursos externos.
Informações: Kaio Costa/Secom Palmas
