Os desafios que aguardam o próximo governador do Tocantins também aparecem, em diferentes proporções, nos planos apresentados pelos dois candidatos que chegaram ao segundo turno. Saúde concentrada na capital, dificuldades na educação, diferenças de renda, necessidade de geração de empregos, infraestrutura e segurança pública estão entre os problemas para os quais Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB) apresentam propostas.
Plano de Governo Professora Dorinha
O plano de governo de Professora Dorinha (União Brasil) apresenta a regionalização dos serviços públicos e a redução das desigualdades entre as diferentes regiões do Tocantins como parte da estratégia para os próximos quatro anos. O documento reúne propostas para educação, saúde, segurança pública, infraestrutura e desenvolvimento econômico, com medidas que buscam ampliar o atendimento no interior e aumentar a capacidade dos municípios.
Na educação, uma das áreas mais detalhadas do plano, as propostas incluem ampliação das escolas de tempo integral, modernização das unidades, acesso à banda larga em todas as escolas estaduais, implantação de laboratórios de robótica, ciência e espaços de inovação, além do fortalecimento do ensino técnico.
A proposta também relaciona a formação profissional às atividades econômicas de cada região do estado, com cursos direcionados a setores como agronegócio, turismo, tecnologia, saúde e energias renováveis. O plano prevê ainda bolsas e auxílio permanência, expansão da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) e realização de concursos para áreas com déficit de profissionais.
Para a infraestrutura das escolas, o plano estabelece etapas. A primeira prevê intervenções consideradas emergenciais em 2027. Entre 2028 e 2029, a proposta é avançar na qualificação das unidades, enquanto uma terceira etapa, classificada no documento como de “excelência”, está prevista a partir de 2030.
Além da rede estadual, o plano prevê apoio aos municípios para ampliar a oferta de creches e pré-escolas e medidas destinadas à permanência dos estudantes nas instituições de ensino.
Na saúde, a regionalização aparece como uma das principais estratégias para reduzir a necessidade de deslocamento de moradores do interior até os maiores centros urbanos em busca de atendimento especializado.
Entre as propostas está colocar o Hospital Geral de Araguaína em funcionamento com 100% da capacidade prevista, de 400 leitos. O plano também prevê concluir o Hospital da Mulher e Maternidade Estadual, em Palmas, construir uma unidade semelhante em Araguatins e finalizar o Hospital Geral de Gurupi.
Também estão previstas ampliação das consultas especializadas e realização de cirurgias eletivas, com meta de 20 mil procedimentos por ano.
Na segurança pública, uma das propostas é a criação do programa “Territórios de Paz”, direcionado aos 20 municípios que concentram a maior parte dos homicídios no Tocantins. A iniciativa é apresentada juntamente com ações de mediação de conflitos e promoção da cultura de paz nas escolas.
O documento também propõe uma ouvidoria externa e independente para o sistema de segurança, fortalecimento das corregedorias, divulgação de dados sobre letalidade e uso da força e ampliação progressiva das câmeras corporais. Para os agentes, são previstas ações de formação em direitos humanos e atendimento humanizado.
Embora não apresente medidas direcionadas especificamente a crimes como estelionato e furto, o plano inclui propostas mais amplas de fortalecimento da inteligência, modernização tecnológica, integração entre as forças policiais e ampliação e valorização do efetivo.
Para o enfrentamento à violência contra a mulher, Dorinha propõe a criação do Observatório da Mulher e de um Plano Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres, com acompanhamento de indicadores e metas para redução do feminicídio.
O plano também prevê ampliar a rede de atendimento às vítimas, com uma Casa da Mulher Tocantinense na região norte, Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs) e casas-abrigo regionalizadas.
Outra proposta é a criação de um botão de emergência por rádio ou satélite para mulheres que vivem em comunidades sem cobertura de telefonia, além da realização de campanhas permanentes de prevenção e combate à violência.
A necessidade de interiorizar os serviços é relacionada pelo documento à configuração populacional do Tocantins. O plano destaca que 57 dos 139 municípios possuem menos de 5 mil habitantes, cenário que dificulta e encarece a manutenção individual de estruturas especializadas de saúde, educação, saneamento e segurança.
Como resposta, a proposta é fortalecer redes regionais, consórcios públicos e o compartilhamento de estruturas entre municípios.
Na infraestrutura, o plano reúne propostas para rodovias e pontes, logística, saneamento, habitação, regularização fundiária e conectividade digital. Essas áreas são apresentadas como instrumentos para integrar as diferentes regiões, facilitar o escoamento da produção e estimular atividades econômicas.
Na economia, o diagnóstico apresentado no plano reconhece avanços no mercado de trabalho, mas aponta a remuneração como um dos desafios. O documento cita rendimento médio do trabalho de R$ 3.129 no Tocantins, diante de R$ 3.560 na média brasileira, diferença de 12,1%.
Entre as respostas apresentadas estão qualificação profissional, fortalecimento da indústria e da agroindústria e estímulo a setores como tecnologia, turismo, bioeconomia e serviços especializados.
A proposta econômica também passa pela tentativa de aumentar o processamento da produção dentro do próprio Tocantins, de forma a agregar valor às atividades desenvolvidas no estado e ampliar a geração de emprego e renda.
Plano de Governo Vicentinho Júnior
O plano de governo de Vicentinho Júnior (PSDB) para o Tocantins reúne mais de 260 propostas e tem como principais frentes a regionalização dos serviços de saúde, industrialização da produção, geração de empregos, uso de tecnologia na administração pública e fortalecimento dos municípios. O documento também apresenta medidas para educação, segurança, infraestrutura, agronegócio, meio ambiente e políticas voltadas a mulheres, idosos e pessoas com deficiência.
Na saúde, o plano usa a expressão “fim da ambulancioterapia” para definir o objetivo de reduzir os deslocamentos de pacientes em busca de tratamento. Uma das propostas é credenciar serviços de hemodinâmica em Araguaína e descentralizar atendimentos de média complexidade para os municípios, com repasses de recursos para que os procedimentos sejam realizados mais perto da residência dos pacientes.
O programa também prevê o chamado “Fila Zero (Corujão)”, que consiste na contratação de hospitais privados durante a noite para realização de cirurgias eletivas. Telemedicina nas áreas de dermatologia e cardiologia, aplicativo para acompanhamento dos estoques de medicamentos e ampliação dos atendimentos psicológico e psiquiátrico também aparecem entre as propostas.
Outra medida é a construção de novas estruturas hospitalares por meio de recursos privados no modelo BTS. O texto menciona cinco unidades, entre hospitais regionais e centros especializados.
Na educação, Vicentinho propõe construir 50 novas escolas de tempo integral com centros de tecnologia digital. O plano também prevê ampliar a internet nas escolas rurais por meio de conexão via satélite, aumentar em 50% o auxílio do programa estadual de bolsa permanência e criar mecanismos automatizados para identificar estudantes com faltas não justificadas e combater a evasão.
Entre as demais propostas estão alfabetização voltada principalmente aos municípios com piores indicadores, ensino fundamental técnico profissionalizante ligado ao agronegócio e intercâmbio para estudantes com nota mínima de 8, mediante processo seletivo. O documento ainda prevê capacitação de professores para utilização de novas tecnologias e premiação financeira vinculada a resultados.
O plano também propõe manter um programa de alimentação escolar durante as férias, financiado com recursos estaduais.
A geração de emprego é associada principalmente à industrialização e ao aproveitamento das cadeias produtivas existentes no Tocantins. O plano propõe incentivar indústrias têxteis, fábricas de móveis com madeira de reflorestamento, produção de ração animal, processamento de frutas, montagem de componentes para energia solar e serviços de manutenção de máquinas e equipamentos.
Para o mercado de trabalho, o documento estabelece uma meta de “pleno emprego”, com acompanhamento mensal das regionais do Sine. Também prevê medidas direcionadas à inserção de jovens no comércio e nos serviços, vagas de estágio e oportunidades para recém-formados e prioridade para trabalhadores locais em determinadas obras.
Na proteção às mulheres, o plano prevê o “Programa Aluguel Social Mulher”, com auxílio financeiro temporário para vítimas de violência doméstica que precisam deixar a residência. O auxílio-aluguel, porém, já é previsto na Lei Maria da Penha como medida protetiva e vem sendo concedido pela Justiça no Tocantins. Palmas também possui benefício municipal que contempla mulheres vítimas de violência doméstica. O plano não detalha como o programa estadual proposto se diferenciaria ou ampliaria os mecanismos existentes.
Vicentinho também propõe regionalizar as Casas da Mulher Tocantinense, criar uma Ronda Maria da Penha Rural para assentamentos e quilombos e disponibilizar unidades móveis para exames como mamografia. O plano inclui ainda assistência financeira e psicológica para filhos de vítimas de feminicídio.
Na segurança pública, o documento prioriza as fronteiras estaduais e as regiões rurais. Entre as propostas estão reforço da segurança em pontes e balsas, patrulhamento rural georreferenciado, videomonitoramento e integração das forças de segurança. O plano também prevê valorização profissional dos agentes, capacitação permanente e salários compatíveis com as carreiras. Para o sistema prisional, propõe construir presídios com recursos privados pelo modelo BTS e integrar atividades produtivas às unidades.
A digitalização atravessa diferentes áreas do programa. Entre as medidas estão redução do uso de papel nas secretarias, conectividade 5G nos eixos de escoamento da produção, identidade digital integrada, câmeras com tecnologia de leitura de placas nas divisas estaduais e formação de profissionais em cibersegurança.
O documento também prevê utilização de tecnologia para monitorar as bacias dos rios Araguaia, Formoso e Tocantins, centralização de dados para auxiliar decisões do governo e ferramentas tecnológicas aplicadas à agricultura.
Na infraestrutura rodoviária, Vicentinho propõe utilizar recursos do Fundo de Desenvolvimento Regional para pavimentar e duplicar eixos considerados prioritários, além de buscar financiamento no BNDES e em organismos internacionais. O programa também prevê direcionar recursos da mineração para rodovias e acessos em municípios produtores.
O fortalecimento dos municípios é outra frente recorrente. Entre as propostas estão a criação de um escritório estadual para elaborar gratuitamente projetos de engenharia e arquitetura para cidades pequenas, compras compartilhadas de medicamentos e outros insumos, pátios regionais de máquinas para manutenção de estradas vicinais e apoio estadual à regularização fundiária.
Apesar de reunir mais de 260 propostas distribuídas em diferentes áreas, o plano não apresenta, para parte das medidas, detalhamento de custos, fontes específicas de financiamento, cronogramas anuais de execução, número estimado de beneficiários ou indicadores mensuráveis para acompanhar a conclusão das ações. Em alguns casos, o documento indica mecanismos de financiamento ou parceiros, como fundos privados, BNDES, organismos internacionais e recursos do Fundo de Desenvolvimento Regional, mas esse nível de detalhamento não aparece de forma uniforme ao longo das propostas.