Filha do ex-prefeito de Araguaína João de Sousa Lima, assassinado em fevereiro de 1985, durante o exercício do mandato, Maris Lima decidiu transformar uma história familiar profundamente ligada à política em um novo projeto de vida pública. Aos 64 anos, depois de construir sua trajetória profissional em Brasília, aposentada, ela retorna ao Tocantins e disputa pela primeira vez um cargo eletivo.
Candidata a deputada estadual pelo MDB, Maris integra a coligação “Pra Cima Tocantins”, que reúne MDB, PSDB e Cidadania (Federação PSDB/Cidadania) em torno da candidatura de Vicentinho Júnior ao Governo do Estado.
Nesta quarta-feira (12), a Maris Lima foi recebida na sede do Jornal Primeira Página, em Palmas, onde concedeu entrevista exclusiva à jornalista e advogada Sandra Miranda. Durante a conversa, falou sobre sua trajetória pessoal e profissional, o legado político do pai, as razões que a levaram a ingressar na vida pública e, principalmente, sobre as propostas que pretende defender caso seja eleita para a Assembleia Legislativa do Tocantins. Maris estava acompanhada da irmã, Maristela Sousa Lima, e da prima, a jornalista Terciany Lima, filha do ex-vereador de Araguaína Enésio de Sousa Lima.
Formação e experiência como credenciais para a vida pública
Natural de Araguaína e integrante de uma família de 11 irmãos, Maris deixou a cidade ainda adolescente. Aos 14 anos, mudou-se para Brasília para estudar. A decisão partiu do pai, um visionário que buscava assegurar aos filhos acesso ao ensino superior, ainda inexistente em Araguaína naquele período, quando a região integrava o antigo norte de Goiás.
Maris Lima formou-se em Economia e Direito, tornou-se advogada e construiu carreira profissional na área jurídica, com atuação no Ministério Público Federal em assessoria na área cível, finalizando sua carreira na Assessoria Jurídica da Procuradoria-Geral Eleitoral.
Casou-se, teve dois filhos e hoje é avó de cinco netas. Depois de décadas vivendo em Brasília, retornou definitivamente a Araguaína. A decisão, segundo ela, representa mais do que uma volta às origens, significa colocar a experiência acumulada ao longo da vida a serviço da cidade onde nasceu e do estado do Tocantins.
“Voltei porque quero servir. Quero colocar o conhecimento e a experiência que adquiri ao longo da minha vida, à disposição de Araguaína e do Tocantins. A política precisa ter propósito, responsabilidade e, acima de tudo, compromisso com resultados”.
Legado do pai inspira, mas Maris Lima quer construir sua própria história
A trajetória política de João de Sousa Lima permanece como uma das principais referências de Maris. Prefeito de Araguaína, ele foi assassinado a tiros em 1985, enquanto exercia o mandato. O episódio marcou profundamente a família e a própria história política do município.
Maris revelou que, durante muitos anos, a mãe demonstrou preocupação com a possibilidade de os filhos seguirem a vida política justamente em razão da morte do marido. “Minha mãe faleceu há dois anos e sempre carregou esse receio, porque meu pai foi assassinado quando exercia o mandato”, contou.
Após a morte da mãe, Maris decidiu retomar um projeto que, segundo ela, já amadurecia há anos, regressar definitivamente ao Tocantins e participar da vida pública.
“Eu entendi que não poderia deixar essa história para trás. Quero honrar o legado do meu pai, que tratava a coisa pública com honestidade, transparência exercendo a boa política, com o fim de servir às pessoas. Mas também quero construir a minha própria história, com meu conhecimento, minha experiência e a responsabilidade de apresentar soluções para os problemas que a população enfrenta hoje”.
Embora outros integrantes da família já tenham participado de disputas eleitorais, esta será a primeira eleição de Maris Lima.
Araguaína como prioridade e desenvolvimento regional como estratégia
A candidata afirma que Araguaína será o principal eixo de sua atuação política, sem deixar de buscar apoio e representar outras regiões do Tocantins. Também pretende percorrer municípios onde seu pai construiu relações políticas e deixou vínculos históricos.
“Meu foco é Araguaína, mas um deputado estadual precisa compreender que representa todo o Tocantins. Quero trabalhar pela minha cidade e pela região, olhando para as necessidades de cada município e buscando soluções que permitam que o desenvolvimento chegue também às cidades menores”, destacou.
Para Maris, o crescimento econômico precisa deixar resultados concretos na vida das pessoas. Isso significa, segundo ela, ampliar oportunidades de qualificação profissional, atrair investimentos e criar condições para que os moradores possam trabalhar e gerar renda nos próprios municípios.
Saúde: fortalecer a estrutura regional para reduzir a sobrecarga dos hospitais
Na área da saúde, uma das prioridades apresentadas por Maris Lima é o fortalecimento da rede de atendimento regional. Ela defende Unidades de Pronto Atendimento (UPA’s) mais estruturadas, modernas, equipadas e com profissionais qualificados para aumentar a capacidade de resolução dos casos, com mais agilidade e eficiência, antes mesmo que os pacientes sejam encaminhados aos hospitais.
Na avaliação da candidata, melhorar a atenção intermediária pode contribuir para reduzir a superlotação das unidades hospitalares e evitar que pacientes de municípios menores sejam obrigados a percorrer grandes distâncias em busca de atendimentos que poderiam ser resolvidos mais perto de casa.
“Não podemos aceitar como normal que a população precise percorrer quilômetros para conseguir um atendimento que poderia estar disponível na própria região. Se tivermos unidades bem equipadas, profissionais qualificados e capacidade técnica para resolver uma parcela maior dos casos, vamos diminuir a pressão sobre os hospitais e oferecer um atendimento mais digno ao cidadão”, defendeu.
Maris também considera fundamental descentralizar os serviços de saúde, fortalecendo estruturas regionais e aproximando o atendimento especializado da população.
Industrialização, emprego e fortalecimento do Distrito Agroindustrial de Araguaína -Daiara
O desenvolvimento econômico ocupa espaço central nas propostas apresentadas pela candidata. Para Maris Lima, Araguaína possui posição estratégica e força econômica suficientes para avançar mais na industrialização e na geração de empregos.
Um dos pontos defendidos é o fortalecimento do Distrito Agroindustrial de Araguaína (Daiara). Maris afirmou que visitou o local, conversou com empresários e identificou problemas de infraestrutura, ausência incentivos fiscais efetivos, burocratização que, em sua avaliação, limitam a expansão das empresas já instaladas e dificultam a atração de novos investimentos.
Para ela, melhorar a infraestrutura do distrito, trabalhar pela redução da burocracia e discutir mecanismos de incentivo à atividade produtiva são medidas importantes para tornar Araguaína e toda a região mais competitiva.
“Araguaína tem produção, localização estratégica, empresários dispostos a investir e uma população que quer trabalhar. O poder público precisa criar as condições para transformar esse potencial em desenvolvimento. Quando atraímos empresas e fortalecemos quem já produz, geramos emprego, renda e oportunidades. Desenvolvimento econômico precisa chegar à mesa das famílias”, afirmou.
A candidata também chama atenção para a localização privilegiada de Araguaína, próxima às divisas com Pará e Maranhão as margens da BR153, da Ferrovia Norte Sul, inserida em uma região marcada pela produção agropecuária e por importantes corredores logísticos.
Na avaliação de Maris, o desafio é fazer com que uma parcela maior da riqueza produzida na região seja também industrializada no Tocantins, agregando valor à produção e ampliando a oferta de empregos.
Formação profissional para manter oportunidades nos municípios
Maris defende ainda a ampliação da educação técnica e profissionalizante, em municípios menores. Segundo ela, qualificação e desenvolvimento econômico precisam caminhar juntos. A formação profissional deve considerar as vocações produtivas de cada região para que jovens e trabalhadores encontrem oportunidades sem precisar deixar suas cidades.
“Precisamos identificar a vocação de cada município, qualificar as pessoas e criar oportunidades onde elas vivem. Não basta formar o trabalhador se não houver emprego; da mesma forma, não adianta atrair uma empresa se não tivermos mão de obra preparada. Uma política pública eficiente precisa conectar essas duas pontas.
Proteção às mulheres precisa ir além da medida protetiva
Ao abordar as políticas destinadas às mulheres, Maris Lima defendeu uma atuação mais efetiva do Estado na prevenção da violência e no acompanhamento das vítimas. Para ela, os casos em que mulheres são assassinadas mesmo estando amparadas por medidas protetivas precisam provocar uma avaliação profunda sobre a efetividade da rede de proteção.
“O Estado precisa se perguntar onde está falhando. Se uma mulher possui medida protetiva e, ainda assim, continua exposta ao agressor ou perde a vida, é necessário avaliar os mecanismos de acompanhamento e proteção. A medida não pode existir apenas no papel; ela precisa representar segurança concreta para essa mulher”, afirmou.
Entre as medidas defendidas estão o fortalecimento da rede de acompanhamento e apoio às vítimas, ações preventivas, casas de acolhimento e atenção especial aos filhos das mulheres submetidas a situações de violência.
Maris destacou ainda a necessidade de políticas específicas para mães atípicas, sobretudo nas áreas de atendimento especializado, inclusão, suporte às famílias e acesso aos serviços públicos.
Envelhecimento com autonomia, qualificação e dignidade
Outro tema defendido pela candidata é a inclusão da população idosa. Para Maris, o aumento da expectativa de vida exige que o poder público reveja conceitos antigos sobre envelhecimento e crie oportunidades para aqueles que desejam permanecer economicamente ativos.
“Por que uma pessoa com mais idade, que tem experiência, conhecimento e disposição, não pode continuar produzindo? O trabalho gera renda, autonomia, convivência e dignidade”.
Ela também defende programas de inclusão digital voltados à população mais velha, considerando que a tecnologia se tornou indispensável tanto para o acesso a serviços quanto para novas formas de trabalho e geração de renda.
Entrada no MDB e apoio ao projeto majoritário
Maris Lima afirmou que não possuía filiação partidária quando decidiu disputar as eleições de 2026. A aproximação com o MDB ocorreu pouco antes do encerramento do prazo de filiação, por intermédio do deputado federal Alexandre Guimarães, presidente regional da legenda.
Segundo ela, existe uma relação histórica entre as famílias, construída ainda no período em que João de Sousa Lima participava ativamente da política de Araguaína.
Na disputa pelo Governo do Tocantins, Maris reafirmou apoio a Vicentinho Júnior e disse acreditar na competitividade de sua candidatura. Mais do que o resultado eleitoral, ela destacou que os compromissos assumidos durante uma campanha precisam se transformar em prestação de contas durante o mandato.
“Não podemos procurar os municípios somente para pedir votos. A política precisa fazer o caminho de volta. O candidato apresenta compromissos durante a eleição e, depois de eleito, precisa retornar para mostrar o que fez, prestar contas e dizer: nós assumimos esse compromisso e estamos aqui para entregar”, afirmou.
Aos 64 anos, uma primeira candidatura e um novo projeto de vida
Maris Lima também falou sobre a decisão de disputar sua primeira eleição aos 64 anos. Para ela, a maturidade representa experiência acumulada e não um obstáculo à participação na vida pública.
“Sou marinheira de primeira viagem em uma eleição e tenho 64 anos. Quero mostrar às mulheres e aos homens que sempre é possível começar um novo projeto, trabalhar, contribuir e ocupar espaços. Estou dando um passo ousado, mas consciente da responsabilidade que ele representa”, disse.
Ao final da entrevista, Maris voltou à figura do pai para sintetizar o significado de sua candidatura. João de Sousa Lima é a origem de sua inspiração política, mas, segundo ela, a candidatura não pretende viver apenas da memória familiar.
“Tenho orgulho da história e da trajetória de vida pública do meu pai. De honestidade, trabalho, e cuidado com o povo. Quero preservar esse legado, e construir minha própria história na vida pública. Trabalhar com seriedade, responsabilidade e compromisso, com o nosso povo”.