Heavy metal com sotaque tocantinense? Vocifer leva histórias da Amazônia para ouvintes de outros países

Criada em Palmas há mais de uma década, a banda Vocifer encontrou nas lendas e na cultura da região Norte uma forma de construir uma identidade própria dentro do heavy metal. Em entrevista ao Jornal Primeira Página, os integrantes João Noleto, Pedro Scheid e Gustavo Borges falaram sobre a trajetória do grupo, os desafios enfrentados por artistas autorais no Tocantins e revelaram novos projetos.

A banda surgiu em 2014, a partir de uma parceria entre o vocalista João Noleto e o baixista Lucas Lago, que já haviam participado de outro projeto musical. Nos primeiros anos, as composições ainda não tinham a temática que posteriormente se tornaria uma das principais características da Vocifer.

A mudança começou por volta de 2016, quando uma conversa entre amigos levou à ideia de produzir uma música sobre a Boiuna, serpente gigante presente em lendas amazônicas.

“Poucas pessoas falam sobre ela. É uma lenda da região Norte e as pessoas não conhecem”, contou João.

Segundo o vocalista, a ideia inicialmente seria apenas uma música, mas a pesquisa sobre o tema cresceu e acabou dando origem ao primeiro álbum da banda, Boiuna, gravado a partir de 2018 e lançado em 2020.

Os integrantes João Noleto, Pedro Scheid e Gustavo Borges – Foto: Clarissa Fernandes

Lendas amazônicas viraram identidade

A escolha de abordar histórias da região também surgiu de uma reflexão sobre as próprias referências do heavy metal. João explica que vertentes como o power metal possuem forte influência europeia e frequentemente abordam cavaleiros, dragões e elementos das mitologias daquele continente.

Para a Vocifer, simplesmente reproduzir essas referências não fazia sentido.

“Uma banda brasileira falar de cavaleiro não faz nem sentido. A gente já tem um obstáculo que é cantar em inglês no Brasil. Se nós formos falar de coisas que não nos pertencem, vai ficar caricato”, afirmou.

O que começou como uma experiência acabou se tornando a identidade artística do grupo. Segundo Pedro Scheid, a própria repercussão de Boiuna ajudou os integrantes a perceberem a força dessa proposta.

Após o lançamento, matérias sobre a banda começaram a descrevê-la como uma espécie de “contadora de histórias” do Tocantins e da região Norte. A recepção fez o grupo abandonar parte das composições que já estavam preparadas para um segundo disco e aprofundar a proposta.

O resultado foi Jurupary, trabalho inspirado no Jurupari, presente na tradição de povos indígenas amazônicos. Para desenvolver o álbum, os músicos afirmam que recorreram a pesquisas e a trabalhos sobre o tema, entre eles registros do italiano Ermanno Stradelli.

A temática também despertou a curiosidade de ouvintes fora do Brasil. Segundo João, a banda mantém contato com fãs de países como Alemanha, Espanha e Polônia que passaram a conhecer histórias amazônicas por meio das músicas da Vocifer.

  • Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho da Vocifer pode acompanhar a banda pelo Instagram, onde são divulgados lançamentos, shows e novidades, e pelo canal oficial no YouTube, que reúne músicas, videoclipes e outros conteúdos do grupo.

“Monocultura musical”

Apesar da projeção conquistada, os integrantes afirmam que manter uma banda autoral de heavy metal no Tocantins ainda envolve uma série de dificuldades.

Para Gustavo Borges, gêneros considerados de nicho acabam encontrando pouco espaço diante da concentração do mercado em determinados estilos musicais.

“A gente vive uma cultura da monocultura musical. E isso acaba meio que ofuscando possibilidades para gêneros mais nichados como o nosso”, afirmou.

João também chama atenção para outro problema: a preferência por bandas que apresentam repertórios de outros artistas em detrimento de trabalhos autorais.

Segundo ele, casas de shows conseguem atrair público com apresentações de covers e tributos, enquanto bandas que apresentam composições próprias enfrentam dificuldades maiores para conseguir espaço.

“O mercado do rock é viciado no cover. Você vai numa casa de show que vai fazer tributo a alguma coisa e está lotado. A gente tem essa bandeira do autoral”, disse.

Para o vocalista, mudar esse cenário depende de diferentes partes do mercado. Artistas precisam profissionalizar seus trabalhos, estabelecimentos devem oferecer condições adequadas para as apresentações e o público precisa apoiar a produção independente por meio da compra de ingressos e produtos das bandas.

Os integrantes ressaltam, porém, que a dificuldade não está restrita ao rock. Na avaliação deles, artistas autorais de outros gêneros também enfrentam pouco espaço em grandes eventos e programações culturais no estado.

No caso do heavy metal, há ainda os custos de estrutura. Os músicos destacam que uma apresentação exige equipamentos específicos e uma logística maior. A Vocifer, por exemplo, conta com um baterista que mora em Minas Gerais, o que acrescenta despesas de deslocamento às apresentações realizadas no Tocantins.

De onde vem o nome Vocifer?

O nome da banda também carrega uma história curiosa. Apesar de “Vocifer” lembrar o verbo “vociferar”, a inspiração veio do nome científico da águia-pescadora-africana, Haliaeetus vocifer. Segundo os integrantes, a escolha aconteceu porque a imagem da ave combinava com a estética do heavy metal.

“É uma águia bonita, uma águia africana, também chamada de águia-pescadora. Tudo é muito heavy metal nisso, uma águia vociferando”, brincou João.

Durante a entrevista, os músicos também contaram que havia o interesse em utilizar o nome de uma ave de rapina. A harpia, encontrada na Amazônia, chegou a ser uma referência considerada, mas já existiam bandas utilizando o nome. Foi durante essa busca que eles chegaram ao termo “Vocifer” e decidiram adotá-lo para o grupo.

Banda prepara EP dedicado à música tocantinense

Depois de construir dois álbuns a partir de referências amazônicas, a Vocifer agora prepara um projeto dedicado diretamente à produção musical do Tocantins.

A banda lançou recentemente uma versão em heavy metal de Coco Livre S/A, composição de Genésio Tocantins. A faixa será parte de um EP chamado Norte, que deverá reunir releituras de músicas de compositores tocantinenses.

Segundo João, nomes como Dorivã e Draguinha estão entre os artistas considerados para o repertório, que ainda está sendo definido.

“Serão arranjos tanto para heavy metal, às vezes uma balada, mas ali com rock e metal e canções 100% tocantinenses”, explicou.

Além do novo projeto, a Vocifer retorna aos palcos de Palmas no dia 11 de setembro, no Tekoha Hub (TK), localizado na 104 Sul. Para a apresentação, a banda prepara um setlist especial, que incluirá músicas que ainda não foram tocadas ao vivo pelo grupo, além de outras surpresas.

A casa abre às 20h. Os ingressos promocionais custam R$ 20, enquanto as entradas adquiridas no local, no dia do evento, serão vendidas por R$ 25.

Enquanto prepara o EP Norte e o retorno aos palcos, a Vocifer também trabalha nas composições do que poderá se tornar seu terceiro álbum de estúdio. Depois de transformar histórias amazônicas em heavy metal e apresentá-las a ouvintes de outros países, a banda segue apostando na cultura regional como uma das principais marcas de sua trajetória.