SINOPSE — “Virtuosas” nos assusta pelo fato de não ser uma alegoria distópica, é algo que já está acontecendo

Em “Virtuosas”, primeiro longa-metragem de Cíntia Domit Bittar, que também assina roteiro, direção e montagem, acompanhamos um grupo de mulheres reunidas em um luxuoso retiro comandado por Virgínia (Bruna Linzmeyer), uma espécie de guru da feminilidade ultraconservadora. A promessa é tentadora: encontrar uma versão melhor de si mesma, aprender a ser uma mulher virtuosa, esposa dedicada, mãe exemplar. Só que, nesse contexto, melhorar a si própria parece significar cada vez mais abrir mão de quem se é.

Bittar filma esse processo com extrema precisão e a mise en scène é profundamente perturbadora, uma casa onde tudo está no lugar, as roupas impecavelmente passadas, os cabelos perfeitamente alinhados, os sorrisos educados, os gestos calculados. A paleta dominada por tons neutros, brancos, beges e rosados cria uma atmosfera asséptica, bonita demais para ser confortável. A casa parece uma propaganda de felicidade doméstica.

Tudo é limpo, organizado e artificialmente sereno. A direção de arte, os figurinos e a composição dos corpos trabalham juntos para produzir essa sensação de vida em modo automático. A referência às tradwives encontra ecos de Mulheres Perfeitas e aqui, a monstruosidade não precisa de dentes ou garras. Ela pode estar escondida atrás de uma voz doce e o terror aqui, nasce justamente dessa normalidade fabricada.

Há algo deliciosamente ácido em observar aquelas mulheres tentando cumprir à risca regras de comportamento que, de tão rígidas, começam a parecer coreografia. Ora dá vontade de rir, ora de olhar para a tela com a sensação incômoda de que já vimos aquilo em algum lugar. E talvez tenhamos mesmo. Cursos de feminilidade, influenciadores que vendem papéis tradicionais de gênero e discursos religiosos usados como embalagem para determinadas agendas fazem parte de um ambiente cultural reconhecível.

Mas a obra claramente não se limita a ridicularizar esses movimentos ultraconservadores, ela os observa com o assombro necessário para reconhecer sua sofisticação e seu poder de sedução. A ameaça não está apenas nas ideias explicitamente violentas, mas na maneira como elas podem ser oferecidas como cuidado, pertencimento, disciplina e promessa de felicidade.

Assistir a esse filme e reconhecer suas escolhas tortas e seu desenvolvimento deliberadamente bizarro aumenta meu particular interesse por uma obra que se arrisca a ser incômoda, estranha e pouco convencional. A vibração de Bittar é tão contagiante, que dificilmente o espectador reage com indiferença ao que está acontecendo em cena. “Virtuosas” não tenta ridicularizar um movimento, mas sim enxergar as minúcias humanas dentro de um grupo aparente de estereótipos.

Há, porém, algumas fissuras no roteiro. A insistência em repetir determinadas ideias, orações, citações bíblicas e códigos daquele universo às vezes torna a crítica mais explicativa do que precisava ser. O filme confia menos no silêncio e na sugestão do que poderia. Alguns elementos narrativos, como o arco envolvendo uma bruxa e certas crenças místicas, também parecem inicialmente deslocados, embora encontrem sua justificativa no desfecho.

Além disso, sinto que por muitas vezes a narrativa flexibiliza sua própria verossimilhança, pois portas permanecem abertas, computadores não têm senhas, textos ocultos estão disponíveis mediante um clique, ligações telefônicas secretas são efetuadas em voz alta. A invasão constante da intimidade transforma o corpo em território coletivo, apagando as fronteiras entre público e privado, individual e coletivo. É como se a vigilância mútua legitimasse a violação da privacidade alheia.

Por isso, a convivência pacífica funciona como uma promessa enganosa e sabemos que aquela harmonia está destinada a ruir. A direção prolonga a tensão ao esconder a violência sob uma camada de polidez, aumentando a expectativa pela carnificina. E, quando ela finalmente chega, se revela brutal o suficiente para manchar os terninhos impecáveis e atingir, junto com as personagens, a própria instituição que representam. O final é ousado e impactante, como deveria ser.

“Virtuosas” mistura terror psicológico e sátira com personalidade, expondo a hipocrisia e o fundamentalismo disfarçados de “alta performance”. Polêmico desde o trailer, o filme incomoda justamente por cutucar feridas que muita gente prefere ignorar.

Em tempos de tantos absurdos normalizados, sua ousadia encontra na arte uma forma potente de provocar reflexão.

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