A audiência pública realizada pela Câmara de Palmas nesta quarta-feira, 22, colocou em debate a proposta de criação do Distrito de Taquaruçu Grande. A medida, vista por parte dos moradores como uma possibilidade de avanço em infraestrutura e serviços públicos, também levanta preocupações sobre crescimento desordenado, especulação imobiliária e impactos ambientais. A discussão envolve uma região que enfrenta problemas antigos de transporte, saúde, segurança e regularização, enquanto busca definir o modelo de desenvolvimento para o futuro.
Taquaruçu Grande não se refere ao distrito de Taquaruçu, já consolidado, mas a uma área distinta, localizada entre Taquaruçu e a rodovia TO-050, ao longo do rio e ribeirão Taquaruçu Grande. A região tem características predominantemente rurais, com presença de chácaras e crescimento populacional recente.
Debate expõe duas visões sobre o futuro da região
Para parte dos moradores, transformar Taquaruçu Grande em distrito pode significar a chegada de serviços básicos, mais organização urbana e valorização da comunidade. Para outra parte, a proposta corre o risco de legalizar loteamentos irregulares, ampliar a poluição e acelerar a destruição ambiental em uma área considerada sensível para o abastecimento de água de Palmas.
Uma moradora antiga da região diz que não é contra a criação do distrito em si, mas desconfia da forma como o processo vem sendo conduzido.
“Se fizesse tudo certinho, eu não seria contra, mas não vão fazer. Vão fazer mesmo só para beneficiar os políticos. Quem está correndo atrás disso são os que querem se dar bem, que têm comércio aqui na região e que precisam regularizar loteamento”, afirma.
Ela relata que os principais problemas enfrentados hoje são transporte, educação, saúde, estrada e segurança. Também cita medo de mais poluição, desmatamento e impacto sobre rios e nascentes.
Moradores esperam mais estrutura e serviços
Patricia Machado está entre os que defendem a criação do distrito. Para ela, a região já está crescendo rápido demais para continuar sem um ordenamento mais claro do poder público.
“Hoje a nossa região ainda é considerada zona rural, mas está crescendo muito rápido, com a chegada de novos moradores e construções acontecendo de forma desordenada. A criação do distrito vai trazer mais organização e planejamento”, diz.
Ela afirma que espera melhorias na infraestrutura, como água encanada, rede de esgoto, ruas organizadas e mais serviços públicos.
“Falta estrutura básica. Não temos encanação de água adequada, nem rede de esgoto, e as construções estão sendo feitas de forma desordenada. Se o poder público não tomar conta, vira região favelada”, afirma.
Outra moradora também vê a proposta com esperança, embora ressalte que o resultado depende da condução política.
“Sim, deve mudar para o melhor da população”, diz. “Talvez vai depender da gestão dos políticos que se encarregarem pela população.”
Dona Maria, outra moradora, também se posiciona a favor e diz que uma das maiores dificuldades da região hoje é o transporte.
“O ônibus aqui são só três vezes por dia. De manhã, meio-dia e no fim da tarde. Hoje o movimento já é maior. Então seria bom porque viria mais ônibus”, relata.
Ela também menciona problemas de documentação fundiária, que dificultam a ligação de energia e outras melhorias nos lotes.
Críticos apontam riscos de ocupação sem controle
Entre os moradores contrários, a principal queixa é que a criação do distrito não resolve, por si só, os problemas históricos da região e pode até agravá-los se vier antes de fiscalização, saneamento e estrutura.
Um morador que preferiu não se identificar classifica a proposta como precipitada.
“É uma irresponsabilidade elevar a distrito se não cuida nem da cidade”, afirma.
Segundo ele, há loteamentos sem estrutura, falta de estrada, escassez de profissionais no posto de saúde e avanço de ocupações sem controle.
“O maior problema é a violência contra a natureza. O Rio Taquaruçu Grande, que abastece 60% da água tratada de Palmas, pode ser todo poluído, além de secar córrego com tanto desmatamento”, diz.
Na avaliação dele, antes de discutir a criação do distrito, o poder público deveria priorizar fiscalização de loteamentos, melhoria da área urbana e reforço nos serviços de saúde.
Lideranças cobram estudos antes de qualquer decisão
O debate também mobiliza lideranças comunitárias e ambientais. Integrante da Associação Água Doce e do Movimento de Proteção ao Taquaruçu Grande, Ruy Bucar afirma que a discussão não pode ficar restrita a ser contra ou a favor da criação do distrito.
“A transformação de uma região rural em um distrito pode melhorar o status administrativo, mas só isso não garante o desenvolvimento sustentável que a região precisa”, afirma.
Ele critica o que considera falta de estudos e de participação mais ampla do poder público no debate.
“A proposta até agora não apresentou nenhum estudo de impactos ambientais, sociais e econômicos que possam orientar projetos levando em consideração as vocações naturais da região, como proteção ao meio ambiente, produção de água, ecoturismo e produção agroecológica”, diz.
Na avaliação dele, a medida pode favorecer a especulação imobiliária e repassar ao município custos que seriam de particulares responsáveis por loteamentos abertos em área de proteção ambiental.
Segurança e presença do Estado entram na discussão
O tenente-coronel Quintanilha, também morador da região, avalia que a criação do distrito pode impulsionar desenvolvimento, desde que venha acompanhada de presença efetiva do Estado.
“Acredito sim que com essa mudança para distrito irá chegar muita coisa para o desenvolvimento, como internet, energia e saneamento”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele pondera que o crescimento pode trazer novos problemas, como aumento da criminalidade, o que exigiria reforço na estrutura de segurança pública.
“Junto com esse progresso, vão ter que vir também os aparatos do Estado e da Prefeitura, tanto na parte de segurança, como saúde e educação”, diz.
Audiência deve reunir moradores e autoridades
A audiência pública convocada pela Câmara busca reunir vereadores, representantes do poder público, sociedade civil organizada e moradores da localidade. A proposta é ouvir sugestões, críticas e contribuições sobre o processo de criação do distrito.
No centro da discussão está uma pergunta que ainda não tem consenso entre os moradores: a mudança de status administrativo será suficiente para resolver os problemas antigos de Taquaruçu Grande ou apenas dará nova forma a desafios que já existem?