Há bibliotecas no Tocantins onde as histórias não estão nas estantes, mas na memória de quem as ouviu e contou ao longo da vida. São “bibliotecas vivas” que guardam lendas sobre seres encantados, rios e matas e ajudam a preservar uma história cultural muito mais antiga que os 38 anos do Estado. Da Buiúna ao Nego D’água, essas narrativas atravessaram gerações pela oralidade e carregam memórias, saberes e diferentes formas de compreender o território tocantinense.
Buiúna, Nego D’água, Pai da Mata e Mãe da Lua estão entre os personagens que fazem parte desse imaginário. Ao lado deles estão inúmeras narrativas indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais que carregam valores, modos de viver e formas de compreender a relação entre as pessoas e a natureza.
Para a escritora, cordelista e contadora de histórias Irma Galhardo, preservar essas narrativas também significa conservar parte da memória cultural do Tocantins.
“O Tocantins é um Estado jovem, mas possui uma história cultural muito mais antiga, construída pelas comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, sertanejas e por tantas outras pessoas que ajudaram a formar esse território”, afirma, em entrevista ao Jornal Primeira Página.
Mestra em Literatura pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e Mestra da Cultura Popular pelo Ministério da Cultura, Irma pesquisa a oralidade e transforma parte das histórias que encontra em registros literários.
Lendas atravessam territórios
Nem todas as histórias contadas no Tocantins surgiram necessariamente dentro dos limites atuais do Estado. Segundo Irma, uma das características das lendas é justamente a capacidade de atravessar diferentes lugares e assumir novas formas conforme são recontadas.
“As lendas não têm fronteiras rígidas. Muitas atravessam territórios, são transmitidas oralmente e ganham novas versões conforme chegam a diferentes povos e comunidades”, explica.
Um dos exemplos é a Buiúna, apontada pela escritora como uma das lendas de forte presença no imaginário tocantinense, especialmente entre comunidades ligadas aos rios. A figura da serpente, entretanto, não pertence exclusivamente ao Tocantins.
Irma explica que seres semelhantes aparecem em diferentes regiões brasileiras e até em outras culturas. O que diferencia as narrativas encontradas no Estado são os elementos incorporados por quem vive aqui.
“Cada lugar imprime à narrativa seus próprios elementos, memórias e modos de imaginar”, afirma.
Por isso, o trabalho desenvolvido pela escritora não busca estabelecer uma única origem para essas histórias. A proposta é recolher e registrar as versões encontradas no território tocantinense, com as características adquiridas ao longo das gerações.
Entre rios, matas e Cerrado
Os lugares onde essas histórias são contadas também ajudam a explicar seus personagens. Nos rios aparecem seres como a Buiúna e o Nego D’água. Nas matas e no Cerrado surgem personagens relacionados à proteção da natureza e dos animais.
Para Irma, essa presença mostra que o ambiente não funciona apenas como pano de fundo das narrativas.
“Na tradição oral, a natureza nunca é apenas cenário: ela é parte da própria história e da vida das comunidades.”
As narrativas também revelam diferentes formas de enxergar o território. Segundo a pesquisadora, elas carregam sentimentos de respeito, medo e encantamento e mostram uma percepção de interdependência entre pessoas, animais, águas e terra.
Cada região, ao mesmo tempo, acrescenta às histórias experiências próprias e características relacionadas ao modo de vida de suas comunidades.
Histórias guardadas por “bibliotecas vivas”
Foi ouvindo principalmente pessoas mais velhas que Irma encontrou parte das narrativas que hoje pesquisa e registra. Segundo ela, essas pessoas funcionam como verdadeiros arquivos da memória oral das comunidades.
Mas parte desse patrimônio pode desaparecer quando deixa de ser transmitida.
“São muitas as ‘bibliotecas vivas’ que morrem e levam consigo as narrativas de suas infâncias para o túmulo, pois a prática de ouvir histórias da forma tradicional foi se perdendo”, afirma.
Antes, segundo a escritora, as histórias circulavam principalmente nas conversas entre pessoas mais velhas e crianças, dentro das famílias e comunidades. Com as mudanças nas formas de entretenimento e comunicação, algumas dessas narrativas correm o risco de deixar de ser contadas.
Foi a partir da oralidade que surgiu, por exemplo, o livro Era uma vez na Barra da Aroeira. A obra é resultado de um projeto contemplado pelo Prêmio Aldir Blanc e reúne narrativas recolhidas diretamente na Comunidade Quilombola da Barra da Aroeira.
Além de registrar as histórias, Irma decidiu identificar as pessoas responsáveis por contá-las e incluir imagens das narradoras.
A escritora compara o processo à pesquisa realizada pelos irmãos Grimm há mais de dois séculos na Alemanha, mas destaca uma diferença: no trabalho desenvolvido na Barra da Aroeira, os narradores são identificados.
“Daqui duzentos anos os estudantes do Tocantins saberão quem me contou essas histórias e conhecerão, inclusive, a imagem de cada narradora eternizada no livro”, afirma.
Da voz para os livros, escolas e palcos
Apesar das mudanças na transmissão oral, Irma considera que as lendas não desapareceram. Elas também encontraram outras maneiras de continuar circulando.
Parte das histórias recolhidas pela pesquisadora foi transformada em versos, nas chamadas “histórias rimadas”. A proposta, segundo ela, não é substituir as narrativas tradicionais, mas produzir uma releitura literária capaz de aproximá-las das novas gerações.
Dessa forma, uma história que antes existia principalmente na voz de um contador pode chegar aos livros, às escolas e aos palcos.
Para Irma, preservar uma tradição não significa impedir que ela se transforme.
“Tradição também é isso: preservar a memória sem impedir que ela continue se reinventando, o que fatalmente acontece com qualquer lenda diante das transformações de tempo e espaço.”
Conheça algumas das lendas
Entre as histórias citadas por Irma estão Buiúna, Nego D’água, Pai da Mata e Mãe da Lua. As quatro narrativas integram a coleção Lendas do Tocantins, da escritora, na qual personagens do imaginário popular aparecem em histórias relacionadas ao território e à natureza.
Buiúna
A história da Buiúna chegou até Irma quando ela vivia em Tocantínia. Segundo relato da própria escritora, crianças ribeirinhas lhe contaram sobre uma cobra gigantesca, tão grande quanto o rio Tocantins. Quando a Buiúna mergulhava, conforme a história ouvida por ela, a água chegava a sair do leito porque não haveria espaço para as duas.
Na versão transformada em livro pela escritora, duas crianças se tornam amigas da Buiúna e se unem a ela na defesa da natureza. A serpente aparece doente diante da destruição de seu habitat e pede ajuda às crianças.
Nego D’água
Outro personagem relacionado às águas é o Nego D’água. Na versão registrada por Irma, ele aparece como protetor das águas e dos peixes e observa aqueles que desrespeitam a natureza.
Na narrativa, quem pesca peixes pequenos, em locais inadequados ou durante o período de piracema pode ser surpreendido pelo personagem, que vira canoas, rasga redes, quebra anzóis ou assusta os responsáveis. A figura tradicional ganha, assim, uma relação com a preservação dos rios.
Pai da Mata
O Pai da Mata aparece na obra de Irma como uma releitura da lenda do Curupira. O personagem é apresentado como um velho pajé que decide viver sozinho no Cerrado e passa a proteger a natureza.
Cercado pelos animais, ele enfrenta aqueles que ameaçam a mata. Na história, porém, sua função é proteger, e não matar. A narrativa aborda os cuidados com as árvores, os animais e a preservação ambiental.
Mãe da Lua
Na história da Mãe da Lua, um encanto faz com que a mãe da Lua caia do céu e se transforme em um pássaro, enquanto a filha permanece brilhando no alto.
O personagem é associado ao urutau, também chamado de jurutau. A narrativa é marcada pela separação entre mãe e filha, pela saudade e pelo luar.
As diferentes histórias ilustram justamente o movimento descrito por Irma ao falar sobre a tradição oral. Personagens e narrativas podem atravessar territórios, receber novos elementos e continuar sendo transformados por quem os conta.
No aniversário do Tocantins, olhar para essas lendas é também olhar para uma história cultural que não começou com a criação do Estado. Ela permanece na memória das comunidades, nos livros e nas vozes das “bibliotecas vivas” que ainda carregam histórias recebidas de outras gerações.
“Quando registramos e contamos essas narrativas, estamos garantindo que essas vozes não se percam. E, quando levamos essas histórias para os livros, para as escolas e para as novas gerações, damos a elas novas possibilidades de continuar existindo”, afirma Irma.
Para a escritora, contar as lendas do Tocantins é também celebrar uma identidade que permanece em construção e é transmitida pela memória de seu povo.