SINOPSE — “Valor sentimental” um drama familiar sobre feridas emocionais que não cicatrizam

Há filmes que se anunciam desde o início como algo raro e “Valor Sentimental” é exatamente esse tipo de experiência. O novo filme do diretor dinamarquês Joachim Trier (o mesmo do excelente “A pior pessoa do mundo”), é uma obra madura, espirituosa quando precisa aliviar a respiração do espectador, triste sem jamais recorrer à chantagem emocional e tecnicamente elegante de uma ponta à outra.

Um filme que não grita suas dores, mas as deixa ecoar nos espaços, nos corpos e, sobretudo, nos silêncios. É um trabalho sobre memória e o poder reconciliador da arte.

Em seu filme anterior, o diretor já havia demonstrado uma maturidade emocional considerável, a escolha temática do novo trabalho apenas confirma sua posição de destaque neste período tão ruim para as mentes criativas. Aqui, a narrativa propõe um estudo sobre traumas familiares e sua transmissão entre gerações.

A fricção imperfeita e disfuncional, mas poética, entre arte e vida é o cerne e a matéria-prima do longa. O filme se abre como um mergulho direto no coração ferido dessa família e veremos como é crescer em casas que guardam o que nunca foi dito.

Trier deixa claro que a casa da família Borg não é apenas um cenário funcional. Apresentada pelas palavras de uma criança, a casa ganha função de memória, com corredores escuros, portas que rangem, quartos que guardam o que nunca foi dito em voz alta.

A câmera percorre esse espaço com respeito quase fúnebre, insistindo nas rachaduras que parecem carregar gerações inteiras de traumas não elaborados. Antes mesmo que o conflito se apresente verbalmente, o filme já nos diz que ali existe algo quebrado desde o alicerce.

Valor Sentimental” dialoga com um tema recorrente do cinema contemporâneo: o pai emocionalmente ausente, incapaz de afeto, e que molda adultos partidos. A escolha de filmar grande parte das tensões dentro da casa é intencional. A direção de arte e a fotografia trabalham esse espaço como uma caixa de ressonância emocional. O que é dito em um cômodo ecoa em outro. O que foi silenciado décadas atrás retorna em forma de repetição. A rachadura na parede, visualmente insistente, é uma metáfora poderosa e nada sutil de uma família em ruínas.

A mise-en-scène é contida, a câmera raramente invade os personagens, preferindo observá-los à distância, como se respeitasse seus limites emocionais. A montagem aposta na duração, e poderia ganhar mais força com um corte mais enxuto, especialmente no segundo ato. Mas, ainda assim, mesmo nos excessos, a direção nunca perde o controle do tom. O diretor constrói nessa película algo muito profundo, ele se interessa pelo efeito da dor acumulada no espaço.

As atuações são positivamente soberbas. Renate Reinsve entrega uma Nora feita de tensão acumulada, gesto contido e respiração curta. Sua personagem parece sempre à beira do colapso, mas se recusa a transformar isso em espetáculo fora do palco.

Skarsgård, em talvez a melhor atuação de sua carreira, constrói um Gustav frágil, vaidoso e profundamente humano, sem pedir absolvição. Ele não suaviza as arestas do “gênio criador” incapaz de lidar com as próprias ruínas.

Elle Fanning traz o desconforto necessário de quem ocupa um lugar que nunca deveria ser seu, e Lilleaas é a revelação absoluta, oferecendo uma Agnes que ancora o filme na vida concreta.

Em um período que tantas obras têm voltado aos fantasmas da paternidade, o diretor encontra uma forma mais crua, mais íntima e menos condescendente de olhar para o que se herda, para o que se perde e para o que resta. “Valor Sentimental” se estrutura em torno de um diálogo que nunca acontece. Pai e filha não conseguem conversar, e o filme respeita essa impossibilidade até o fim.

O desfecho não oferece reconciliação fácil, mas um silêncio carregado de compreensão artística, não emocional.

Vencedor do Prêmio Especial do Júri em Cannes 2025, o filme confirma Joachim Trier como uma das vozes mais relevantes do cinema contemporâneo. Um realizador que entende que a arte pode dar sentido à vida, mas não a resolve.

No fim, o que resta não é uma família recomposta, mas pessoas conscientes de que talvez nunca tenham sido uma. O que resta é uma casa. E ela continua lá, de pé, rachada, silenciosa. Guardando tudo aquilo que ninguém conseguiu, de fato, dizer.

Se eu só pudesse escolher um filme para levar de 2025, definitivamente seria este.

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