SINOPSE — “Sirat”: beleza, caos e um caminho sem volta

“Sirat”, novo trabalho de Óliver Laxe em parceria com Santiago Fillol, definitivamente não é uma experiência confortável e, em momento nenhum, se propõe a ser. Confesso que levei tempo para digerir o que vi. É um filme que começa como uma rave no meio do nada e, aos poucos, revela-se como algo muito maior, uma dança febril à beira do abismo, um ritual coletivo que oscila entre o êxtase e o colapso. Fui atravessada por sensações contraditórias, hora fascínio, hora incômodo e estranhamento. Algumas escolhas narrativas da direção me pareceram, à primeira vista, deliberadamente forçadas, quase como se o filme quisesse nos chocar a qualquer custo. Mas, quanto mais o pensamento assentava, mais “Sirat” se expandia. Esse é um daqueles filmes que continuam ecoando mesmo depois que acabam.

Em sua camada mais direta, a trama é simples: pessoas em busca (de algo, de alguém, de sentido). No meio de uma rave no deserto marroquino, um espaço tão hipnótico quanto hostil, um pai, Luis (Sergi López), e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) procuram por Mar, a filha desaparecida. A jornada os leva a um grupo de ravers, Steff, Josh, Bigui, Tonin e Jade, figuras que poderiam facilmente ser reduzidas a estereótipos, mas que o filme insiste em humanizar. E aí está um dos primeiros acertos da obra, desmontar nossos preconceitos. Sob a batida eletrônica e o uso de substâncias, há afeto, cuidado e exímio senso de comunidade. Há uma família possível ali. O contraste entre o pai “tradicional” e aquele coletivo alternativo não é de oposição, mas de aproximação. Todos, no fim, estão buscando a mesma coisa, o pertencimento.

Mas “Sirat” não está interessado em permanecer nesse terreno confortável. Quando a narrativa sofre sua primeira grande ruptura, o filme revela sua verdadeira natureza. A travessia deixa de ser uma aventura e se transforma em um percurso de perda, um road movie que abandona qualquer promessa de destino para mergulhar no imprevisível. E é nesse momento que o diretor Laxe demonstra sua coragem e também sua subversão. A condução da tragédia que assistimos é seca, quase banal. Como na vida, o desastre surge de um detalhe, de um gesto mínimo. Não há grandiosidade, não há preparação emocional. Temos apenas o impacto e o silêncio ensurdecedor que vem depois. E isso tudo acontece em meio a uma fotografia que transforma o deserto em um espaço que de maneira alguma se mostra acolhedor, tudo que temos é a aridez da terra. A câmera insiste na duração dos planos, no desconforto do tempo que se estica, obrigando o espectador a permanecer ali, sem fuga.

E então vem o som. A trilha sonora nos engole, pulsando no corpo e sustentando o transe coletivo, que transforma a dor em movimento, que faz com que os personagens dancem mesmo quando tudo ao redor desmorona. Há momentos em que a experiência beira o sensorial absoluto e você não somente assiste, como sente. Essa fusão entre imagem e som que a direção usa cria algo próximo de um ritual, não se limitando apenas à narrativa. Participamos de uma rave em pleno apocalipse.

É claro que no filme há decisões narrativas que soam frágeis, mas estes são pequenos tropeços em uma jornada que, paradoxalmente, depende muito mais da imersão do espectador. Acredito que filmes como esse não precisam fazer sentido. “Sirat” apresenta a vida como uma sequência de eventos muitas vezes inexplicáveis, onde a dor não encontra justificativa e a perda não encontra resposta.

Diante disso, é impossível não pensar no significado do título. Na tradição islâmica, “sirat” é a ponte estreita que separa o paraíso do inferno, mais fina que um fio de cabelo, mais afiada que uma lâmina. Todos precisam atravessá-la, mas nem todos conseguem. O filme parece encenar exatamente isso: o deserto como inferno, o trem final como uma travessia possível, não necessariamente para a salvação, mas para a continuidade. Porque, no fim, talvez não exista de fato uma redenção, apenas a dança e o movimento. Além disso, há também uma leitura geopolítica latente: europeus atravessando um território que não conhecem, alheios às tensões locais, tratando o espaço como cenário de aventura e pagando o preço por isso. Não como punição moral explícita, mas como consequência de uma desconexão profunda.

“Sirat” é, portanto, um filme divisivo. Não no sentido raso do “ame ou odeie”, mas porque exige disposição. Ele não quer agradar, quer confrontar, quer colocar o espectador diante do próprio vazio, e há algo profundamente humano nessa experiência. Porque, no meio de tanta desolação, o filme insiste em mostrar que o que nos move é amor e desejo de conexão. Mesmo que o caminho seja incerto. Mesmo que o fim nunca chegue. Talvez a grande reflexão que o filme nos traz seja a ideia de que estamos todos atravessando essa ponte estreita, tentando não cair, e dançando enquanto podemos. Sem garantias. Sem respostas. Só a travessia.

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