Durante muito tempo, o cinema brasileiro aprendeu a existir apesar de tudo. Apesar da escassez de recursos, da censura, da instabilidade política, do descrédito interno e da concorrência predatória de um mercado dominado por Hollywood. Ainda assim, resistiu. E não apenas resistiu como construiu uma linguagem própria, plural, inventiva, profundamente conectada com o país que somos e com o país que insistimos em esconder de nós mesmos.
Hoje, esse cinema atravessa fronteiras com força renovada. Festivais, premiações internacionais, plataformas de streaming e a crítica estrangeira voltaram seus olhos para o Brasil não por exotismo, mas por reconhecimento. O cinema internacional busca inspiração aqui porque nossas histórias carregam densidade, conflito, humanidade e um olhar singular sobre o mundo. Existe algo na sensibilidade brasileira que não se replica facilmente: um modo de filmar que mistura afeto e brutalidade, poesia e denúncia, técnica refinada e urgência política.
Não é de agora que o Brasil se afirma como potência estética e narrativa no audiovisual. Filmes como “O Pagador de promessas”, “Cidade de Deus”, “Tropa de elite”, “A vida invisível”, “Bacurau” e o documentário “Democracia em vertigem” pavimentaram esse caminho. Obras que não apenas circularam pelo mundo, mas ajudaram a moldar a percepção internacional sobre o Brasil. São produções que transformam experiências locais em linguagem universal, usando o cinema como ferramenta de crítica social e afirmação cultural.
Mais recentemente, “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, reafirmou essa tradição ao conquistar o Oscar de Melhor Filme Internacional, firmando o cinema brasileiro em escala global e lembrando ao mundo que qualidade técnica e emoção caminham juntas quando se trata de contar boas histórias. E então veio “O agente secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho. O filme escreveu um novo capítulo na história do audiovisual nacional ao vencer na noite de ontem o Globo de Ouro 2026 nas categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura.
Foi a primeira vez, em 27 anos, que o Brasil venceu nessa categoria desde Central do Brasil, e a primeira vez que levou dois prêmios em uma mesma edição. O impacto simbólico dessa conquista é imenso, o Brasil voltou ao centro do debate cultural internacional, reafirmando o audiovisual como um dos nossos mais poderosos instrumentos de projeção no mundo. Esse reconhecimento não acontece por acaso, ele dialoga diretamente com um momento de reorganização estrutural do setor.
Entre 2023 e 2024, o cinema brasileiro recebeu um aporte significativo de recursos, com R$ 4,8 bilhões provenientes do Fundo Setorial do Audiovisual e das leis de incentivo da Ancine, além de R$ 2,8 bilhões da Lei Paulo Gustavo. A retomada da Lei da Cota de Tela, em 2024, voltou a garantir espaço para produções nacionais nas salas de cinema, enquanto iniciativas como a plataforma Tela Brasil, com catálogo inteiramente brasileiro, e a proposta de regulamentação do Vídeo sob Demanda buscam ampliar o alcance do cinema independente, especialmente no ambiente do streaming.
Apesar desses avanços estruturais, o cenário interno permanece marcado por contradições. Em 2023 o brasileiro praticamente não foi ao cinema para assistir filmes nacionais, mesmo com uma produção expressiva os longas brasileiros tiveram pouco espaço nas salas e quase nenhum impacto de público. Hoje, o cenário começa a mudar, com uma recuperação gradual em 2024 e 2025, impulsionada pela retomada da Cota de Tela e por políticas de incentivo, que ampliaram a presença do cinema brasileiro nas sessões e aumentaram sua participação no público.
Isso expõe não uma crise de qualidade, mas de visibilidade, agravada pelo estigma histórico em torno do cinema nacional, pela instabilidade das políticas públicas, pela falta de investimento em divulgação e pela estrutura de mercado que favorece de forma desigual as produções norte-americanas.
Há também um fator cultural delicado, o velho complexo de vira-lata. Parte da elite intelectual e da classe média brasileira ainda precisa do carimbo internacional para validar o que é feito aqui. Por isso, as premiações recentes causaram tanto alvoroço.
O cinema brasileiro incomoda porque reflete. Historicamente, ele foi alvo de ataques justamente por sua capacidade de narrar a realidade social e política do país. A crítica aos mecanismos de fomento costuma vir do oportunismo político de quem não deseja um país plural, diverso e capaz de se enxergar criticamente. Filmes como “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” mostram que fugir de clichês e ser fiel ao contexto brasileiro não limita o alcance, amplia.
Mesmo enfrentando barreiras como a resistência a filmes legendados nos Estados Unidos e os altos custos de distribuição e tradução, essas obras conquistaram público e crítica porque apostaram na autenticidade. Fortalecer redes de contato, garantir investimentos contínuos e ampliar as janelas de exibição são passos essenciais para que esse movimento não seja episódico, mas estrutural.
Mais do que celebrar prêmios, é preciso mudar a lógica do consumo. O cinema brasileiro não deve ser visto apenas porque “está famoso lá fora”, mas porque é bom, potente, necessário. Ele conta nossas histórias a partir do nosso ponto de vista, com nossas contradições, afetos e feridas abertas. Valorizar o cinema nacional é um gesto cultural, político e simbólico. É afirmar que nossas narrativas importam, aqui e em qualquer lugar do mundo.
O cinema brasileiro não está pedindo licença. Está mostrando, com imagens, sons e ideias, que sempre teve muito a dizer. Cabe a nós, enquanto público, finalmente escutar.
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