Por muito tempo, a história do cinema foi contada a partir de um olhar majoritariamente masculino, branco e hegemônico que definiu não apenas quais histórias mereciam ser filmadas, mas também como corpos, afetos, conflitos e subjetividades seriam representados na tela. No entanto, desde o surgimento do cinema, as mulheres sempre estiveram presentes, ainda que muitas vezes apagadas. Estiveram sempre criando, produzindo, montando, escrevendo e, cada vez mais, dirigindo.
O que observamos acontecer hoje, muito sutilmente, é que a abertura para mulheres à frente das produções cinematográficas tem se ampliado nas últimas décadas, especialmente no cinema contemporâneo brasileiro. Realizadoras mulheres tem conquistado uma maior visibilidade e reconhecimento e isso é fruto da persistência feminina em transformar a própria linguagem audiovisual. O cinema feito por mulheres nos lembra que olhar feminino é também uma forma de gerar novo repertório sensível para as telas.
Ainda assim, essa ampliação ocorre em meio a resistências históricas. Análises mais recentes da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e estudos setoriais de 2024–2025 apontam que esse percentual dos filmes nacionais lançados comercialmente no Brasil, dirigidos por mulheres, hoje situa-se, na maior parte dos levantamentos, em torno de 17%. Um número que demonstra que, mesmo com avanços importantes, a participação feminina ainda é minoritária e precária se confrontada com a desigualdade sistêmica do setor.
Esse cenário, embora ainda desigual, precisa ser lido a partir de uma perspectiva histórica, visto que ele representa um campo em mutação, fruto de décadas de luta por reconhecimento e espaço. O cinema brasileiro contemporâneo vive hoje uma retomada do cinema feminino, marcada por maior visibilidade, circulação em festivais e diálogos mais potentes com o público. E essa retomada se dá tanto em relação à presença delas atrás das câmeras quanto na pluralidade de narrativas que atravessam gênero, raça, classe e território.
Quando uma mulher assume a direção de um filme, ela é capaz de transformar a própria experiência cinematográfica, pois o olhar de uma diretora carrega atravessamentos muito específicos: de gênero, de corpo, de vivências sociais que desafiam os cânones e ampliam as perspectivas de representação. Isso reflete diretamente na construção de personagens femininas que deixam de ser figuras estereotipadas e tornan-se sujeitos complexos, dotados de interioridade e autonomia.
No cenário internacional, essa potência é perceptível não apenas em obras impactantes, mas também nos números das grandes premiações. Até a 97ª edição do Oscar (2025), em quase um século de história da maior premiação do cinema mundial, apenas 9 mulheres foram indicadas ao prêmio de Melhor Direção (dessas, apenas três venceram), uma sub-representação persistente que evidencia o quanto as estruturas de poder e reconhecimento ainda resistem em reconhecer a contribuição feminina.
No cinema tocantinense a presença feminina se manifesta de maneira especialmente significativa. Pioneiras como Eva Pereira e Kecia Ferreira abriram caminhos em um território fora dos grandes centros cinematográficos, demonstrando que fazer cinema aqui é, em si, um ato de coragem e resistência. Hoje, é inspirador ver tantas mulheres ocupando espaços no audiovisual tocantinense, da direção à produção, da fotografia ao roteiro, contribuindo para que nossas histórias deixem de ser narradas apenas por uma lente única.
Esse crescimento, porém, não pode ser analisado apenas em termos quantitativos. É preciso observar o impacto simbólico e estético da presença feminina no cinema, sabendo que, quando mulheres contam histórias, outras mulheres passam a poder se reconhecer na tela. O público é convidado a enxergar o mundo por novas lentes, levando consigo narrativas que tensionam, provocam e expandem o imaginário coletivo.
Falar de mulheres no cinema hoje é, inevitavelmente, falar de interseccionalidade. Gênero, raça, classe, orientação sexual e territórios interagem de formas que desafiam as categorias tradicionais. O futuro do cinema só será verdadeiramente plural quando todas essas vozes, diversas em suas origens e experiências, estiverem no centro das decisões estéticas e institucionais.
O cinema é uma arte de permanência, e as imagens que produzimos hoje moldam o imaginário das próximas gerações. Garantir que mulheres estejam na frente e por trás das câmeras é garantir que o mundo seja contado de forma mais justa, diversa e complexa.
O passado nos mostra o quanto fomos silenciadas, mas o presente nos revela que estamos ocupando espaços. E o futuro que ainda está em disputa, já não pode ser pensado sem as mulheres como protagonistas de suas próprias histórias.
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