SINOPSE — A poesia silenciosa de uma vida comum em “Sonhos de trem”

“Sonhos de trem” (2025), segundo longa-metragem de Clint Bentley, é um desses raros filmes que contam uma história que nos atravessa. É cinema feito sem pressa, que respira junto com a natureza e que nos convida a desacelerar para sentir. Um filme que fala de finitude, memória e permanência com uma delicadeza que desarma e emociona.  Esse é o novo projeto da dupla Greg Kwedar e Clint Bentley, que trabalharam juntos no maravilhoso drama prisional “Sing Sing”, mas que aqui intercalam a função de diretor e roteirista. Baseado na obra homônima do escritor e poeta americano Denis Johnson, “Sonhos de trem” é uma adaptação desafiadora, já que não adota uma estrutura narrativa tradicional, mas chega com um olhar sensível, poético e profundo.

O filme acompanha cerca de 80 anos da vida de Robert Grainier (Joel Edgerton), do final do século XIX até o fim da década de 1960. Grainier é um homem comum, quase invisível: lenhador, trabalhador da expansão ferroviária, alguém que ajudou a moldar os Estados Unidos modernos enquanto permanecia à margem de qualquer protagonismo. Solitário, introspectivo, marcado por ausências desde cedo, Robert parece existir mais em função da terra do que da sociedade. O acaso, porém, lhe apresenta Gladys (Felicity Jones), e com ela vem algo inesperado, a possibilidade de uma vida compartilhada. A família, no entanto, precisa coexistir com a exigência do trabalho sazonal, que o afasta por longos períodos da esposa e da filha. Quando uma tragédia irrompe, não apenas altera o rumo da vida de Grainier, como passa a defini-la.

Em  “Sonhos de trem” a vida do protagonista passa como todas as vidas passam, sem grandes acontecimentos, sem momentos marcantes para além da maravilha que é viver ao lado de quem ama, de encontrar seus amigos e de simplesmente ser. E o filme é sobre isso, viver a vida da maneira que ela nos é presenteada, extraindo dos momentos mais prosaicos sua felicidade e carregando o fardo da eventual culpa e responsabilidade que se tenha. Mas “Sonhos de trem” é também inafastavelmente sobre os Estados Unidos, sobre um país se reconstruindo e, no processo, se destruindo com a industrialização sem freios e com a perda da capacidade de deixar que seus cidadãos vivam suas vidas serenamente.

O diretor trabalha subtextos importantes sem jamais colocá-los em primeiro plano. A destruição ambiental como preço do progresso, o capitalismo que consome o tempo e a energia dos indivíduos, a industrialização que substitui pontes de madeira por concreto, serrotes por motosserras. Tudo isso está ali, costurado ao cotidiano, como parte do mosaico da existência humana. O resultado é uma narrativa universal, onde não precisamos ser lenhadores no oeste americano para reconhecer a exaustão do trabalho, a beleza dos pequenos instantes e as perdas que moldam quem somos. Com filmagens em lugares idílicos e florestas primais, o filme faz esforço para capturar a conexão do homem com a natureza, com a deslumbrante direção de fotografia de Adolpho Veloso.

Filmada com extrema sensibilidade, aqui a natureza não é cenário, é personagem. Bentley e Veloso frequentemente posicionam os corpos humanos no terço inferior do enquadramento, quebrando a regra clássica dos terços para enfatizar o quanto os personagens são engolidos pela paisagem. O efeito é quase onírico, e em muitas sequências, a imagem revela o mundo interior de Robert sem que uma palavra precise ser pronunciada. Essa dimensão sensorial também se manifesta nos fantasmas que acompanham o protagonista. Um deles é recorrente, não se tratando apenas de memória traumática, mas de um lembrete constante da brutalidade que sustenta o chamado progresso. Uma obra que leva a uma reflexão cada vez mais necessária neste mundo artificial no qual vivemos.

As atuações dialogam com precisão com o tom contemplativo do filme. Joel Edgerton entrega uma de suas performances mais maduras, construída a partir de silêncios, olhares e gestos mínimos, compondo um Robert estoico e essencialmente bom, cuja vida ordinária se transforma em pura poesia. Felicity Jones, como Gladys, ilumina a narrativa com afeto e humanidade, funcionando como abrigo emocional diante da aspereza do mundo. Will Patton, na narração em off, oferece uma voz melancólica e envolvente, ainda que por vezes excessivamente explicativa. Já William H. Macy marca presença em poucos minutos como Arn Peeples, um personagem de humor peculiar e inesperada densidade filosófica, daqueles encontros breves que atravessam a vida e permanecem na memória.

No fundo, este é um filme sobre o milagre e o peso de estar vivo. Sobre como uma vida aparentemente comum pode carregar uma densidade imensa de significado. Sobre lembranças, culpas, afetos e o lento aprendizado que só o tempo proporciona. É um épico íntimo, que permanece em fragmentos, imagens e sensações difíceis de nomear. É uma obra que não se encerra nos créditos, porque continua reverberando dentro de quem assiste. Em um mundo cada vez mais barulhento e apressado, “Sonhos de trem” surge como um convite raro para parar, olhar ao redor e lembrar que nossa passagem por aqui é breve e, justamente por isso, profundamente preciosa. A terra já estava aqui antes de nós e continuará quando partirmos.

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