Seis anos da pandemia; enfermeira relembra atuação na linha de frente contra a Covid-19 no Tocantins

Seis anos após o decreto que reconheceu a pandemia de Covid-19 no Brasil, profissionais da saúde ainda guardam na memória os dias mais críticos da crise sanitária. No Hospital Geral de Palmas (HGP), uma das pessoas que esteve diretamente na linha de frente foi a enfermeira Renata Olívia de Souza Silva Miranda, que atuou no pronto-socorro durante o período mais intenso da doença.

Na área da saúde desde 2004, Renata trabalhava na emergência do hospital quando os primeiros casos começaram a surgir no país. Ela lembra que a preocupação começou ainda quando as notícias sobre a doença se espalhavam pela Europa.

“Quando estourou o primeiro caso na Europa, a gente já começou a ficar preocupado. Quando o primeiro paciente chegou aqui, foi tudo muito estranho. A gente não sabia com o que estava lidando”, relembra.

Primeiro contato com a Covid no estado

Segundo Renata, em entrevista ao Jornal Primeira Página, ela esteve entre os profissionais que atenderam os primeiros pacientes com suspeita de Covid-19 no Tocantins. Na época, os protocolos ainda estavam sendo construídos e a equipe enfrentava incertezas sobre o comportamento da doença.

“Foi tudo muito corrido. A equipe inteira estava preocupada porque ninguém sabia exatamente o que era aquilo. Perdemos muitos amigos durante esse período”, relata.

Ela conta que, mesmo diante do medo e das perdas, a equipe continuou trabalhando para garantir o atendimento à população.

“Em tempo nenhum abandonamos o plantão. Às vezes eu entrava às sete da manhã de um dia e só saía três dias depois, porque a equipe estava desfalcada e muitos profissionais adoeciam.”

Foto: Arquivo pessoal

Impacto na saúde mental

Além do risco constante de contaminação, Renata lembra que os profissionais de saúde também enfrentaram um forte impacto emocional.

Durante o período mais crítico da pandemia, muitos precisaram se afastar da própria família para evitar levar o vírus para casa.

“A gente cuidava das pessoas, mas não podia ir ver nossos pais, nossos familiares. Para proteger quem a gente amava, precisávamos manter distância”, afirma.

Segundo ela, as consequências psicológicas desse período ainda são sentidas por muitos profissionais da área.

“Até hoje isso reflete na saúde mental de quem estava na linha de frente. Foi um impacto muito grande.”

Durante os momentos mais difíceis da pandemia, um vídeo gravado por Renata também ganhou repercussão nas redes sociais. Na gravação, feita dentro do hospital, a enfermeira aparece incentivando e motivando a equipe de enfermagem após a perda de colegas para a Covid-19.

O registro acabou viralizando e foi compartilhado em diversas plataformas, tornando-se um símbolo da resistência emocional dos profissionais que estavam na linha de frente do combate à doença.

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Jornadas exaustivas

Renata também recorda que as jornadas de trabalho se tornaram imprevisíveis devido ao afastamento de profissionais contaminados.

“Tínhamos horário para entrar no plantão, mas não para sair. Muitas vezes virávamos 24 ou até 36 horas trabalhando para garantir que os pacientes não ficassem sem assistência.”

De acordo com ela, a enfermagem esteve entre as categorias mais expostas, já que era responsável por grande parte do contato direto com os pacientes.

“Quem colhia os exames, quem fazia os cuidados diretos, quem estava o tempo todo com o paciente era a enfermagem. O primeiro impacto sempre vinha para a gente.”

Foto: Arquivo pessoal

Reconhecimento ainda é desafio

Passados seis anos do início da pandemia, Renata afirma que ainda sente falta de maior reconhecimento aos profissionais que atuaram na linha de frente.

“A gente saiu de casa para cuidar de pessoas que nem conhecia, sem saber se voltaria bem para casa. Achávamos que depois de tudo isso haveria mais valorização da enfermagem, mas infelizmente ainda não é a realidade.”

Para ela, lembrar da pandemia também é uma forma de reconhecer o esforço coletivo dos profissionais da saúde.

“Mesmo com medo, com perdas e com todas as dificuldades, ninguém abandonou o plantão. A gente seguiu cuidando das pessoas.”