OPINIÃO – Quando o samba se curva ao poder

Por Rodolfo Alexandre Santos – Advogado 

Há algo profundamente perturbador quando o maior espetáculo cultural do país decide deixar de olhar para o povo e passa a mirar um governante, principalmente em uma época de muita polarização política.

O desfile da Acadêmicos de Niterói não foi apenas uma escolha temática polêmica, foi um gesto político explícito travestido de manifestação artística. Ao transformar um presidente em exercício em herói carnavalesco, com narrativa glorificada e ausência quase absoluta de tensão crítica, a escola não fez história, fez posicionamento.

O carnaval nunca foi neutro, mas sempre foi essencialmente irreverente, satírico e provocador, nasceu da margem para questionar, quando a avenida decide celebrar o próprio poder, ela abdica da sua vocação original.

Não se trata de discutir simpatia ou antipatia por determinado líder, trata-se de reconhecer que há uma diferença brutal entre retratar processos históricos e produzir exaltação simbólica de quem governa no presente.

A linha que separa arte e promoção política é fina e, neste caso, foi cruzada com alegorias monumentais e samba-enredo laudatório.

O desfile não trouxe complexidade, não trouxe contraponto, não trouxe as contradições que qualquer trajetória política carrega, trouxe redenção, esperança e heroificação, trouxe narrativa unilateral.

E quando a cultura assume tom unilateral em favor do poder vigente, ela deixa de ser cultura crítica e passa a operar como instrumento simbólico. Mesmo que não haja pedido explícito de voto, é impossível ignorar o efeito político de um espetáculo televisionado nacionalmente que constrói, em ritmo de samba, uma imagem emocionalmente positiva de quem ocupa o cargo máximo da República.

A legislação eleitoral veda propaganda antecipada e uso indevido de meios de comunicação para promoção política, o Carnaval não é campanha formal, mas também não é espaço imune a efeitos eleitorais.

O debate não é apenas jurídico, é ético!

É aceitável que uma festa popular, financiada direta ou indiretamente por recursos públicos, sirva como palco de glorificação de governante ativo? É saudável para a democracia que o espetáculo mais assistido do país seja usado para reforçar simbolicamente a imagem de um projeto político específico?

Ao optar por esse enredo, a escola assumiu o risco de ser percebida não como instituição cultural independente, mas como ator cultural alinhado, e isso é grave, porque a força do carnaval sempre esteve na sua autonomia frente ao poder.

Mais grave ainda é o precedente que se cria, se hoje a avenida celebra um governante, amanhã poderá celebrar outro, e pouco a pouco o samba deixará de ser linguagem popular para se tornar instrumento de validação estética de poder.

A Sapucaí não pode virar palanque.

O Carnaval não pode se transformar em extensão coreografada de projetos políticos.

Quando o samba deixa de incomodar o poder e passa a ornamentá-lo, algo essencial se perde, perde-se a rebeldia, perde-se a crítica, perde-se a alma. E uma democracia que começa a transformar festa popular em vitrine simbólica de governantes deveria, no mínimo, acender o sinal amarelo.

Porque quando a cultura se curva ao poder, o poder cresce e a crítica encolhe.

RODOLFO ALEXANDRE SANTOS
ADVOCACIA ESTRATÉGICA

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