O Tocantins e o Brasil querem saber: foi a senadora Dorinha Rezende quem conseguiu a liminar do STF para o governador Wanderlei retornar ao cargo?

Sandra Miranda – Jornalista e advogada

O governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), que foi afastado pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ, em 03 de setembro de 2025, em face da Operação Fames 19, da Polícia Federal, que apura desvios na compra de cestas básicas, entre outras irregularidades, conseguiu retornar ao cargo por uma liminar do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal – STF, em 05 de dezembro.

Durante esta semana de definição partidária e candidaturas, o governador acabou revelando, em entrevista gravada em vídeo, pelo site Atitude Tocantins, do colega Wesley Silas, que o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Amélio Cayres, não terá o apoio dele para disputar o governo. E num lapso, explicou o motivo, afirmando, que ele, governador, teria feito compromisso em apoiar o nome da senadora Dorinha Rezende (União Brasil) na sua sucessão, e que fez esse compromisso para conseguir a liminar do STF que propiciou o seu retorno ao cargo.

Devido a imensa repercussão, Wanderlei já tratou de voltar atrás nas suas palavras, mas o estrago já estava feito. A pergunta que fica então é: será desta forma mesmo que funcionam as Cortes Superiores do Brasil? Ministros não decidem com base em provas e evidências, a lei não é seguida, é a política que manda?

Wanderlei falou na entrevista que o Amélio Cayres sabe desse compromisso, e que na ocasião o próprio deputado teria até dito a ele: “faça o compromisso que o senhor, governador, tiver que fazer para retornar ao cargo, e eu então fiz esse compromisso de apoiar a senadora Dorinha”, segundo palavras do governador do Tocantins.

Detalhe: como o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, pertence ao mesmo partido do governador, o Republicanos, e sempre foi um fiel aliado, ele teve seu nome lançado por Wanderlei para disputar o governo ainda no ano passado, antes do governador ser afastado do cargo. Essa candidatura foi sendo alimentada dia a dia pelo governador, tanto que Amélio Cayres não se deixou convencer pelos pedidos de impeachment de Wanderlei protocolados na Assembleia, no período do afastamento, e arquivou todos eles.

O problema: Amélio Cayres e Dorinha Rezende não se bicam há muito tempo, e a senadora já teria comentado com um interlocutor, que não aceitaria Amélio Cayres em sua chapa de forma alguma, e isso chegou aos ouvidos do deputado, obviamente. Dorinha desde o ano passado, já tinha também a sua chapa praticamente fechada: ela ao governo, Eduardo Gomes (PL) na reeleição ao Senado, e o deputado federal Carlos Gaguim (União Brasil) ficando com a segunda vaga de senador.

Wanderlei sempre soube desse estranhamento entre os dois, e fez o jogo de empurra-empurra, afirmando o tempo todo que “sua base aliada era muito unida” – o que de fato não acontecia.

A pergunta que não pode ser calada, depois dessa declaração do governador do Tocantins, é: Será desta forma mesmo que funcionam as Cortes Superiores do Brasil? Ministros não decidem com base em provas e evidências, a lei não é seguida, é a política que manda?

A advogada que também mora em mim, e que assistia às aulas do curso de Direito, em Florianópolis-SC, com os olhos brilhando, quer saber, assim como o Tocantins e o Brasil inteiro. Essa afirmação de um governador beneficiado por uma liminar do STF, por suposta interferência de senador, é algo extremamente grave e danoso para a imagem – já bastante combalida – das Cortes Superiores no Brasil.

Gabinetes de ministros do STJ vem sendo alvos de investigações por vazamentos de informações e venda de sentenças, fato que se iniciou com juízes e desembargadores dos tribunais de justiça estaduais, incluindo o Tocantins – é claro – com centenas deles já afastados pelo país inteiro. E quanto ao Supremo Tribunal Federal, o STF, das suas excrescências ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffolli, Gilmar Mendes, e outros, dispensa maiores explicações. O escândalo do Banco Master é só um dos exemplos recentes para mostrar como agem ministros do STF.

Mas ainda tem outro fato: Wanderlei referiu-se somente ao apoio de Dorinha para conseguir a liminar que o retornou ao cargo, e por isso fez compromisso com ela, porque o assunto do momento era candidatura ao governo, mas o senador Eduardo Gomes, que sempre afirmou “ser muito amigo do ministro Gilmar Mendes”, também contribuiu para o retorno de Wanderlei.

E vou revelar aqui algo inédito: não foram só os dois senadores que entraram em cena no STF, entrou também na jogada, para garantir a liminar, um grande grupo empresarial, muito poderoso pelas suas fortes ligações em Brasília, e que de uns tempos para cá tem interferido bastante no cenário da política do Tocantins.

É desse jeito que a banda toca no país chamado Brasil, enquanto a sua população só assiste, atônita, a tudo que vem acontecendo nos últimos anos.