O período do Advento, que começa neste domingo (30), abre oficialmente o ciclo de preparação para o Natal entre os católicos. A data marca o início do novo ano litúrgico da Igreja e convida os fiéis a vivenciarem um tempo de espera, reflexão e mudança interior. Em entrevista ao Jornal Primeira Página, o arcebispo de Palmas, Dom Pedro Brito Guimarães, explicou o significado da celebração e os desafios para preservar seu sentido em meio ao ritmo acelerado da vida moderna.
Dom Pedro afirma que o Advento, originalmente, é um anúncio de chegada, um convite à preparação para receber alguém importante. O arcebispo explica que, na tradição cristã, esse período simboliza o anúncio da vinda de Jesus.
“Advento é uma palavra de origem latina, significa a espera daquele que vai chegar. […] Deus avisa no Advento que vai mandar o seu filho para salvar a nós. E nós temos que nos preparar para essa visita”, disse Pedro.
Preparação espiritual e lugar das práticas religiosas
O arcebispo destaca que o período não se resume a enfeites natalinos, mas a uma disposição interior. Ele cita o exemplo de quem organiza a casa para receber alguém e compara essa atitude com a postura esperada dos cristãos.
“Se não é uma preparação externa, que não precisa dessas coisas externas […], pelo menos é interior, é espiritual. A gente começa a se preparar antes, para que, quando chegar o primeiro, segundo, terceiro e quarto domingo, a gente tenha feito alguma coisa”, disse Pedro.
Dom Pedro também ressalta o papel das novenas de Natal, que, segundo ele, recuperam o sentido litúrgico do período acima do apelo comercial.
Natureza como símbolo do Advento
O arcebispo utiliza o cerrado tocantinense como metáfora do renascimento proposto pelo Advento. Ele compara a seca prolongada com a condição humana e as chuvas de novembro com a renovação espiritual.
“O Advento é exatamente isso. É uma mudança interior. Agora é um tempo de a gente rejuvenescer, renascer, como a natureza. […] A chuva que vai cair é a chuva da graça de Deus para mudar tudo”, disse Pedro.
Questionado se a vida acelerada dificulta a vivência do tempo litúrgico, Dom Pedro afirma que essa dispersão não é algo novo. Ele cita o exemplo histórico de Santo Agostinho para lembrar que a preferência pelo entretenimento sempre disputou espaço com a espiritualidade.
“Isso foi sempre uma tendência. Não é própria do mundo de hoje. […] Não é reclamando das pessoas que vai resolver o problema. É orientando-as”, afirmou Pedro.
Mudanças nas paróquias e práticas comunitárias
O arcebispo explica que, durante o Advento, as paróquias adotam símbolos e atividades específicas, como a cor roxa nas celebrações, o acendimento das velas da coroa do Advento, momentos penitenciais e ações de solidariedade.
“Cada padre é um vigia. […] A vida espiritual não entra de férias”, disse Pedro.
Natal ofuscado pelo comércio
Dom Pedro reconhece que o caráter religioso do Natal tem perdido espaço para o consumo. Apesar de considerar positiva a presença de elementos cristãos no imaginário popular, ele afirma que o excesso comercial esvazia o sentido da celebração.
“O menino Jesus não é Papai Noel. O Natal não é um presente, não é uma festa, não é um cartão. […] Não existe Natal sem Jesus Cristo. Se Jesus Cristo não nasce, é um Natal pagão comercial”, afirmou Pedro.
O arcebispo encerra com um apelo para que o Advento seja um convite ao retorno da fé e à reorganização da vida espiritual. Ele direciona uma mensagem especialmente aos que se sentem distantes da Igreja.
“Você não ganhou nada se afastando; você perdeu tudo. […] Quem se afasta de Deus não está bem. […] O afastamento de Deus não é salvação, é perdição”, afirmou Pedro.