Ecos da Liturgia — Silêncio que nos conduz à cruz

A Quaresma se aproxima como quem bate à porta sem alarde. Não chega com fogos, nem com cantos festivos. Vem em silêncio, revestida de roxo, com passos lentos, quase penitentes. É um tempo sóbrio. Quarenta dias que a Igreja nos oferece não como peso, mas como caminho.

Caminho de volta. Volta ao essencial. Volta ao coração. Volta a Deus.

A liturgia quaresmal nos conduz para perto do sofrimento de Jesus. Não para cultivar culpa, mas para contemplar o amor levado às últimas consequências. Cada gesto de Cristo, cada passo em direção a Jerusalém, carrega a densidade de quem sabe que a cruz o espera — e, ainda assim, não recua.

Ele jejua no deserto. Ele é tentado. Ele perdoa quando ferem. Ele ama quando rejeitam.

A cruz não é um acidente na história de Jesus.

É escolha.

É entrega.

É fidelidade.

A Quaresma é esse convite desconfortável: olhar para a cruz sem desviar os olhos. E, ao fazer isso, perceber que ali está o retrato mais profundo do amor de Deus por nós. Mas, enquanto a liturgia nos chama ao recolhimento, há sempre o risco de transformar esse tempo em aparência.

Todos os anos, as igrejas voltam a encher. As cinzas atraem. A Sexta-feira Santa comove. As procissões mobilizam multidões. E isso é bonito.

Mas também é revelador.

Porque, não raro, surgem os cristãos de calendário. Aqueles que aparecem apenas quando a tradição aperta a consciência ou quando o costume social pede uma fotografia religiosa.

Vivem a fé como quem cumpre um ritual anual: um dia de cinzas, uma abstinência de carne, uma missa na Semana Santa — e depois voltam a um longo jejum de Deus que dura o resto do ano.

Como se Cristo pudesse ser visitado apenas em datas comemorativas. Mas o seguimento de Jesus nunca foi um evento. É um caminho diário.

A cruz não é montada só em março ou abril. Ela se ergue todos os dias: no perdão difícil, na paciência com os nossos, no trabalho honesto, na renúncia silenciosa, na fidelidade quando ninguém vê.

A verdadeira penitência não é teatral. É discreta. Não faz barulho. Faz conversão.

Talvez a pergunta que a Quaresma nos faz seja simples e direta: onde está o nosso coração durante o resto do ano?

Porque não basta lembrar o sofrimento de Cristo por alguns dias se continuamos indiferentes ao seu chamado no cotidiano.

Não basta comover-se com o Calvário se não mudamos o modo de viver.

A liturgia não quer espectadores da Paixão.

Quer discípulos.

Quer homens e mulheres que caminhem com Jesus o ano inteiro, não apenas quando o calendário religioso aperta.

A beleza da Quaresma está justamente nisso: ela não expõe nossa incoerência para nos envergonhar, mas para nos curar.

É tempo de reorganizar prioridades. De silenciar ruídos. De rezar com mais verdade. De jejuar do que nos afasta. De repartir o que nos sobra. De voltar para casa.

Porque, no fundo, a Quaresma não fala apenas do sofrimento de Cristo.

Fala do amor que nos chama de volta.

E toda vez que aceitamos esse chamado — mesmo frágeis, mesmo inconstantes — já começamos a percorrer, com Ele, o caminho da cruz que conduz à Páscoa.

 

Morgana Gurgel é Jornalista e fotógrafa de 21 anos, católica praticante e observadora atenta do mundo religioso. Apaixonada pela escrita, encontrou na coluna Ecos da Liturgia um espaço para refletir sobre fé e sociedade. O objetivo é mostrar como a liturgia e os discursos da Igreja ressoam no cotidiano e nos debates atuais.

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