Do papel para a sala de aula; quadrinhos feitos no Tocantins transformam memória, território e educação

No Tocantins, histórias em quadrinhos não nascem apenas para entretenimento. Elas surgem como ferramenta de educação, afirmação cultural e disputa de espaço em um mercado historicamente dominado por produções estrangeiras. No Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, celebrado em 30 de janeiro, artistas locais mostram que produzir HQ no estado é, antes de tudo, um ato de resistência.

Quadrinistas ouvidos pelo Jornal Primeira Página apontam que um dos principais desafios ainda é romper a lógica que valoriza produções internacionais e invisibiliza o que é feito no Brasil — especialmente fora dos grandes centros. Muitos relatam que só passaram a conhecer o cenário nacional de quadrinhos depois de um esforço pessoal de pesquisa e aproximação com outros artistas.

Quadrinho não é só desenho

Para o artista visual, professor e quadrinista Pablo Marquinho, produzir histórias em quadrinhos envolve um processo que vai muito além do desenho e do texto. Pesquisa, narrativa, identidade cultural e responsabilidade com o público fazem parte da construção.

“Existe a ideia de que fazer quadrinho é só desenhar quadros e contar uma história, mas tem muito mais coisa por trás. É um processo cuidadoso, que exige verdade no que você coloca no papel”, afirma Pablo.

Ele avalia que o Dia do Quadrinho Nacional funciona como uma oportunidade estratégica para ampliar o alcance dessas produções, especialmente em ambientes educativos.

“Quando existe uma data comemorativa, fica mais fácil entrar nas escolas, dialogar com a mídia e apresentar o trabalho sem precisar ‘empurrar’ nada. A data cria esse espaço”, explica.

Quando o recurso público vira acesso

Pablo também destaca o papel dos editais culturais no fortalecimento da produção local. Segundo ele, o acesso a recursos públicos foi decisivo para que suas obras chegassem a públicos que dificilmente teriam contato com quadrinhos autorais.

“Publicar, imprimir e fazer circular uma HQ é caro. A gente consegue produzir de forma independente, mas o alcance é limitado. Quando existe fomento público, você consegue distribuir gratuitamente em escolas, periferias e áreas rurais”, pontua.

Ele lembra que, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), foi possível doar centenas de exemplares para escolas públicas do estado.

“Eu jamais conseguiria fazer isso sozinho. O investimento público democratiza o acesso à leitura e à cultura”, completa.

Identidade que salta da página

Personagens com traços regionais, cores do cerrado e referências culturais locais despertam identificação imediata, principalmente entre crianças. Em Vicente – Lua Cheia, por exemplo, o protagonista é construído com características físicas e cromáticas que dialogam diretamente com o Norte do país, incorporando tons do barro, do pôr do sol e da vegetação do cerrado tocantinense, além de elementos da mitologia regional pouco difundidos fora da região.

Essa escolha estética e narrativa faz com que leitores se vejam representados na história, rompendo com a lógica predominante de personagens importados de outras realidades culturais.

“As crianças se interessam muito mais quando percebem que aquela história fala do lugar onde elas vivem. Quando o mito é da região delas, a curiosidade é outra”, afirma Pablo.

Segundo ele, muitos estudantes conhecem figuras do folclore de outras regiões do país, mas pouco sabem sobre os mitos do Norte.

Álvaro Maia e Pablo Marquinho com o livro Vicente – Lua Cheia – Foto: – Djavan Barbosa

“Quando elas percebem que existe um folclore daqui, que dialoga com a realidade delas, a leitura ganha outro sentido”, diz.

Ficção científica com sotaque tocantinense

Essa relação entre território e narrativa também aparece na obra da ilustradora e arquiteta Ana Bernhard, autora da HQ Anien do Céu! Um Humano no Meu Quintal. Criada durante a pandemia, a história mistura ficção científica, cotidiano e referências visuais do Tocantins.

“O quadrinho é uma linguagem muito direta. Em vez de descrever um cenário, você desenha. Isso facilita a comunicação, principalmente para quem já trabalha com ilustração”, explica Ana.

 

Ela conta que a ideia da HQ surgiu de forma espontânea, a partir de um sonho, em um período de isolamento e reflexão.

“A pandemia fez muita gente voltar para práticas antigas, para hobbies, para refletir sobre o que é viver. No meu caso, isso virou história em quadrinhos”, relata.

Quando a escola abraça o quadrinho

Ana se surpreendeu com a recepção da obra nas escolas. Embora a HQ não tenha sido pensada inicialmente para o público infantil, ela acabou conquistando alunos do ensino fundamental.

“As crianças se apropriaram da história de um jeito muito intenso. Elas faziam associações com o bairro onde moram, com a cor da terra, com os cheiros descritos no livro”, conta.

Em atividades educativas, os alunos demonstraram entusiasmo e curiosidade, pedindo continuações e criando interpretações próprias da narrativa.

“Foi um banho de ânimo. As crianças enxergam detalhes que muitos adultos já não percebem mais”, afirma.

O livro está disponível para compra no site da Amazon, e pode ser comprado diretamente com a escritora por meio de seu instagram anabernhardpacheco

Juventude, pesquisa e verdade

A nova geração de quadrinistas também tem ampliado esse movimento. O roteirista Márcio Vieira, que produziu a HQ Insurgência ao lado do ilustrador Kauan Batista, relata que o projeto nasceu ainda no período escolar, com forte base em pesquisa.

“A gente queria mostrar a devastação ambiental a partir da nossa realidade. Quem é daqui bate o olho e reconhece os cenários”, diz Márcio.

Segundo ele, o maior desafio foi garantir fidelidade cultural, especialmente ao retratar povos indígenas.

“Não queríamos fazer uma representação superficial. Foram meses de pesquisa para contar uma história que tivesse verdade”, explica.

(HQ) insurgência – Foto: Djavan Barbosa.

Educação cultural como virada de chave

Para Márcio, o crescimento dos quadrinhos no Tocantins passa diretamente pela educação cultural e pelo fortalecimento de espaços de troca entre artistas.

“Muita gente conhece mais quadrinhos de fora do que da própria região. A educação cultural é o que pode virar essa chave”, avalia.

Ele destaca que eventos, projetos escolares e iniciativas coletivas têm ajudado a aproximar os quadrinistas locais.

“Hoje a gente começa a se reconhecer como cena. Isso é fundamental para crescer”, conclui.

Muito além da data

Mais do que marcar o calendário cultural, o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos evidencia que o quadrinho tocantinense existe, produz e dialoga com temas universais a partir de uma perspectiva local. Quando chegam às escolas, bibliotecas e comunidades, essas histórias ajudam a formar leitores, fortalecer identidades e ampliar repertórios.